sábado, 26 de junho de 2021

# 23 The Vanishing (1988)

The Vanishing (1988)

Ontem começou a volta a França, prova rainha do ciclismo mundial e um evento que arrasta multidões pelas estradas por onde passa. Sempre foi uma prova que gostei de acompanhar, embora o escândalo de doping que envolveu Lance Armstrong me tenha feito perder um pouco do fervor *. Confesso que cheguei a desistir de um exame da faculdade que me estava a correr horrivelmente para ir ver uma chegada ao Alpe d'Huez. É impressionante o que estes homens fazem naquelas pequenas naves a pedal, acredito que, alguns deles depois daquelas provas de 4/5 horas, quando se deitam continuem a pedalar.

Por coincidência, vi na semana passada um filme, cuja ação decorre durante uma volta a França, The Vanishing. Um daqueles títulos que tinha na lista há tanto tempo, que já não me recordo porque lá estava. Provavelmente por ser do realizador George Sluizer, autor da adaptação ao cinema de Jangada de Pedra de Saramago e de um filme que achei cómico em que Diogo Infante é o protagonista, Mortinho por Chegar a Casa. 


A história de The Vanishing inicia-se com as férias de Rex e Saskia, um par de namorados de férias por França. Saskia é um pouco ingénua e aluada, algo que por vezes irrita Rex, levando àqueles arrufos naturais de uma paixão a florescer. 

A dada altura, chegam a um posto de gasolina para abastecer e descansar um pouco. Separam-se por momentos com Rex a ficar junto ao carro, enquanto Saskia se dirige ao interior da loja de conveniência. O tempo passa e Saskia não volta. Continua a passar e Rex fica preocupado. Rex arma-se em cão polícia (sorry) e começa a procurar Saskia. Conclui que a sua namorada tinha desaparecido sem deixar rasto.

Ao mesmo tempo é apresentada ao espectador a história do seu eventual raptor, Raymond Lermone, embora não seja completamente evidente que esta seja o responsável pelo desaparecimento de Saskia. Assim entre sequências de flashbacks e o tempo presente, aparece Raymond a preparar meticulosamente um rapto de uma mulher. É um pai de família, mas por baixo do seu ar bonacheirão esconde uma personalidade intrigante a resvalar para a sociopatia. E é partir destas duas histórias paralelas e previsivelmente convergentes que a acção se irá desenvolver, não posso contar mais para não fazer spoil...

É uma obra perturbadora e com a tensão sempre elevada, os ingredientes que um thriller deve ter. Stanley Kubrick chegou a dizer que era um filme mais aterrador do que o seu The Shining, tendo chegado a convidar Sluizer para discutir o seu processo de edição. Alem de Kubrick, a aclamação de outros pares e da crítica fez-se notar. Para tal, muito contribuiu o guião e o excelente desempenho dos actores principais que deram às respectivas personagens o carisma que estas precisavam. 

Para finalizar, outro aspecto interessante é o facto de ser impossível ver este filme sem pensar nos casos que conhecemos de desaparecimentos misteriosos, tais como Maddie, Rui Pedro, etc e em todas as teorias que surgem consequentemente. 

No entanto hoje em dia, cada vez mais impera o "Big Brother is Watching You", logo, um eventual desaparecimento numa bomba de gasolina dificilmente não deixaria rastos nas câmaras de vigilância. Nos anos 80, era mais fácil que casos destes ocorressem. 


Fun Fact: Em 1993, Sluizer lançou um remake de The Vanishing em inglês. Foi um enorme fracasso. 

* Alusivo ao tema do doping, existe um filme muito interessante na Netflix  que recomendo vivamente, Icarus. Neste documentário, é possível acompanhar o dia-a-dia de um ciclista amador que resolve testar a eficácia do doping, avaliando o seu efeito nos resultados desportivos. 

sábado, 12 de junho de 2021

#22 Cruella (2021)

Cruella De Vil - a grande vilã dos 101 Dálmatas - é um dos maiores "Deviles" da Disney, senão a maior. É um grande ícone no mundo da moda e a sua maldade não conhece limites, sendo capaz e apenas para seu deleite, ordenar uma matança de Dálmatas bebés para fazer um vestido de pele mais fofinho.



A faceta maléfica de Cruella já era conhecida dos filmes e livros anteriores. Esta obra de 2021 vem destapar o seu passado. Será que foi sempre diabólica e malvada ou houve algo que a levou a tornar-se assim? No fundo, pura maldade vs trauma. O filme pende para o lado do trauma, pois naturalmente no Universo Disney ninguém é mau só por ser (o que na vida real...). Assim, esta versão apresenta-nos Estella (Emma Stone), uma jovem órfã que cresce e sobrevive através de esquemas com os seus inseparáveis amigos e futuros lacaios: o ardiloso Jasper (Joel Fry) e o gordinho Horace (Paul Walter Hauser). O passado de Cruella antes de ela o ser.

Mais tarde consegue entrar no mundo da moda, atinge o seu sonho ao trabalhar com a Baronesa (Emma Thompson), alguém com tremendo sucesso no meio, mas com um feitio de cascavel (quase um molde da própria Cruella dos 101 Dálmatas). No entanto, algo no passado de Estella é revelado, e é um facto de tal forma potente e duro, que faz emergir a Cruella...


Vi o filme do Cinema, o que foi uma opção acertada, pois a banda sonora é extraordinária. Como o filme se passa nos anos 70 em Londres, algumas das músicas levam-nos a reviver o movimento Punk da altura (Bee Gees, Blondie, Supertramp, The Clash, The Doors, são só alguns dos nomes).

A história tem alguns buracos, aqui e ali, e é demasiado simplista e preguiçosa a espaços. No entanto, os bons efeitos visuais, alguns apontamentos de humor e as boas performances de Watson e Thompson fazem-nos esquecer essas falhas. Watson tem levado alguma porrada da crítica quer pelo seu desempenho e quer por causa do seu sotaque pouco british. Não é uma Glenn Close, todavia acho que cumpre. Já Thompson enquanto Baronesa é extraordinária, é tão boa que ficamos mesmo a odiá-la. A minha opinião é que se trata de um filme que merece uma oportunidade.

Para rematar digo: se o Diabo veste parada, De Vil veste Dálmata.

Fun Fact: Alguém se lembra de quem fazia de Jasper no filme 101 Dálmatas (1996)? Se disse Hugh Laurie (Dr. House) acertou.