domingo, 21 de junho de 2020

Ciclos - Stanley Kubrick - A Clockwork Orange

4ª Feira - A Clockwork Orange (1971)




Já dizia a minha avó: Laranja de manhã é ouro, à tarde é prata e à noite mata! Um ditado que, apesar de ter alguma antiguidade, se pode aplicar a este filme. Uma vez que o seu visionamento a uma hora tardia, poderá matar umas boas horas de sono. 

A razão é simples - A Clockwork Orange - obra adaptada de um romance de Anthony Burgess, é a vários níveis doentio e complexo. Retrata uma realidade distópica algures no UK, em que o enredo se centra num bando de jovens liderados por Alex DeLarge (Malcom McDowell), que tem comportamentos violentos (ultra violentos, a expressão do filme) e execráveis sem sentir qualquer remorso. Espancamentos a mendigos, assaltos  violentos e violações são o pão nosso de cada noite. A sensação que fica é que estes jovens sentem um enorme prazer com a prática destes hediondos actos. 

Numa das cenas mais icónicas do filme, Alex num assalto, com o auxílio dos seus compinchas, espanca e viola uma mulher, enquanto obriga marido a assistir ao horror do acto, tudo isto enquanto assobia e canta o clássico, I'm Singing in a Rain. Kubrick pagou 10.000$ pelos direitos da música só para esta cena: 


Alex, apesar de ser um menino dos papás, que finge estar doente para não ir à escola, vive apenas para espancar, violar e ouvir Beethoven. Todavia, após traição dos seus companheiros, é condenado e preso por 40 anos. Para ser libertado de imediato aceita ser alvo de uma experiência científica que, alegadamente, corrigiria todo o seu desvio comportamental. No fundo, é sujeito a uma lavagem cerebral que envolve o visionamento de filmes violentos. O objectivo é simples, desenvolver nojo à prática de atrocidades. Na cena ilustrada abaixo, em que decorre uma sessão de visionamento, Alex declara: It's funny how the colors of the real world only seem really real when you watch them on a screen.




As temáticas desta obra são absolutamente claras. Primeiro a moralidade, ou melhor a imoralidade, sendo claro o objectivo do autor de traçar uma linha inequívoca que separe o bem e o mal. Segundo, e como resposta à imoralidade dos jovens, a Psicologia, utilizada pelo governo de forma totalitária através de técnicas agressivas (lavagens cerebrais), para corrigir comportamentos. No entanto, um arrependimento levado a cabo à força e de forma artificial, será eficaz na erradicação da causa raiz do comportamento desviante? Ou o verdadeiro arrependimento é aquele que, com o tempo, a consciência do próprio desenvolve? Fica a questão. 

Kubrick é um perfeccionista e se há filme em que essa característica parece evidente é este. Os cenários e o guarda-roupa são vanguardistas e coerentemente obscenos. A música de Beethoven distorcida por sintetizadores cria-nos a sensação de estar no amanhã (por vezes estranho). Aliás, ainda nos dias de hoje, os adereços deste filme gritam futurismo e parecem saídos de uma película de Tim Burton. 

Por fim, gostaria de destacar a presença de Portugal no filme, através de um magnífico exemplar de louça das Caldas (um sempre em pé), que aparece a dada altura: 


Fun Fact: O filme não esteve disponível para exibição pública no Reino Unido entre 1973 e 2000. Os clubes de vídeo britânicos ficaram tão inundados com pedidos de encomenda do filme, que alguns começaram a colocar cartazes que diziam: "Não, não temos A Clockwork Orange"

domingo, 14 de junho de 2020

Ciclos - Stanley Kubrick - Dr. Strangelove

3ª Feira - Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb (1964)


Dr. Strangelove, além de ser um filme com um dos maiores títulos da história do cinema, é uma das melhores sátiras sobre guerra-fria. Baseado no livro "Red Alert" de Peter George, esta obra de Kubrick consegue retratar a tensão que se viveu neste período da história (entre o fim da 2ª Guerra Mundial e a queda do muro de Berlim), nomeadamente a ameaça de um conflito nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética, utilizando humor inteligente para o fazer. Fica patente o equilíbrio de forças que vigorava entre estes dois blocos e a sensação de que se houvesse uma primeira agressão directa, tal tornaria inevitável uma guerra nuclear à escala global com efeitos nefastos para toda a humanidade. Na minha opinião, podia e devia ser promovido o seu visionamento e análise nas aulas de história. Julgo que seria uma forma eficaz de aumentar o interesse dos alunos sobre este tipo de matérias e talvez uma boa forma de demonstrar que o humor, por vezes, é a melhor maneira de abordar os assuntos mais delicados. 

Relativamente ao roteiro do filme, começa a desenvolver-se a partir de uma ordem de bombardeamento nuclear a bases militares em território russo, por parte do paranoico General Americano, Ripper (Sterling Hayden) - que acredita que a Rússia irá fazer um ataque químico contra os EUA, por isso pretende antecipar-se. Uma ordem aparentemente sem retorno, visto que a única pessoa que sabe o código para cancelar o ataque é o próprio general Ripper, que se encontra barricado numa base da força aérea americana. A única esperança para obter o código e assim evitar o ataque, é seu colaborador Capitão Lionel Mandrake (Peter Sellers) - um oficial da RAF que se encontra também nessa base e a única pessoa capaz de aceder a Ripper. 

Entretanto é convocada uma reunião de emergência na sala de guerra do Pentágono, onde membros de altas patentes militares americanas, o Presidente dos Estados Unidos (Peter Sellers) e o embaixador Russo (Peter Bull) tentam perceber se é possível evitar o ataque que, a acontecer, desencadearia uma resposta automática e inexorável da defesa russa, apelidada de Doomsday Device. Segundo o embaixador russo, o Doomsday Device uma vez accionado não pode ser mais parado, e poderá provocar um acidente nuclear cujos efeitos radioativos se fariam sentir por 100 anos na terra, ou seja, seria o apocalipse (ou o fim do mundo em cuecas). 

Na reunião e numa fase em que o desastre parece inevitável, é consultado Dr. Strangelove (Peter Sellers). Trata-se de um ex-nazi (ou não) especialista em assuntos nucleares que, aventa a hipótese no caso de ativação do Doomsday Device, da humanidade se poder refugiar no subsolo. No entanto e não sendo possível salvar a totalidade da raça humana,  Dr. Strangelove apresenta critérios que, no seu entender, ajudariam a purgar a humanidade dos mais fracos (hum, planos antigos?).

Nota de destaque para Peter Sellers, que tem uma performance ao nível santíssima trindade, fazendo recair o seu espírito santo cómico, sobre três personagens completamente diferentes:

- o cauteloso (e talvez medricas) - Presidente dos Estados Unidos

- o audaz  - Capitão Lionel Mandrake


 - o louco e nazi - Dr. Strangelove

A sua versatilidade que o torna capaz de fazer várias personagens num só filme, já havia ficado patente em Lolita (ver post aqui). TOdavia, em Dr. Srangelove ainda consegue ser mais sublime. Reza a lenda que Sellers terá improvisado a maioria das suas falas neste filme.

Posto isto, recomendo vivamente o visionamento de Dr. Strangelove (são só 90 mins). Stanley Kubrick na sua única incursão na comédia, ousou fazer um filme sobre um assunto delicado à época, conseguindo criar algo verdadeiramente cómico sem ser pateta, satírico sem tomar facções e ao mesmo tempo instrutivo sem ser maçador. Curiosamente, o filme teve como consequência a alteração de políticas, para que eventos como os retratados não viessem a ocorrer na realidade. Termino desta vez com as cenas finais do filme, ao som de Vera Lynn - We'll meet again:


Fun Fact: Numa versão alternativa do filme, extraterrestres estariam a observar os acontecimentos a partir do espaço.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Ciclos - Stanley Kubrick - Lolita

2ª Feira - Lolita (1962)

Lolita é um nome que sempre me soou a proibido, até mesmo maldito, apesar de não conhecer nem a obra literária de Nobokov, nem tão pouco o filme de Kubrick até o ter visto ontem. Todas as referências que tinha da cultura popular indicavam-me que se tratava de uma obra carregada de erotismo e perversidade. Todavia e ao contrário do que estava à espera, constatei que essa carga existe, mas não de uma forma explícita, materializada em cenas escaldantes entre uma menor e um homem de meia idade, mas antes de uma forma completamente subliminar, deixando a imaginação do espectador conceber os moldes íntimos desta relação nada ortodoxa. 


A narrativa desta obra desenvolve-se em torno de Humbert Humbert (James Mason), um professor europeu de meia idade, que chega aos Estados Unidos para ensinar francês numa faculdade. Antes de começar a leccionar, resolve aproveitar para tirar umas férias na cidade balnear de Ramsdale. Fica alojado na casa de Charlotte Haze (Shelley Winters), uma viúva que vive com a sua filha de 14 anos, Lolita. A escolha do alojamento teve por base, o encanto fulminante que Humbert teve por uma Lolita (Sue Lyon) de fato de banho no jardim e com uns óculos em forma de coração (ver cartaz acima), no momento em que a mãe lhe mostrava a casa. Apesar de passado pouco tempo, ter iniciado uma relação conjugal com Charlotte, a sua paixão era Lolita. Ao longo do filme, uma personagem misteriosa vai inquietando a alma de Humbert - Clare Quilty (Peter Sellers) um argumentista de programas de TV, ficando no ar a ideia que poderá saber da paixão de Humbert e Lolita. Mas qual será o seu papel nesta trama?

Nobokov além de ter escrito o romance, colaborou com Kubrick no argumento deste filme de 1962. Todavia, existem diferenças consideráveis entre o filme e o livro, devido a adaptações que Kubrick fez com receio da censura da época, sendo as principais as seguintes (Wikipedia):

- Lolita no livro tem apenas 12 anos, enquanto no filme Sue Lyndon tinha 14.
- Todas as passagens de sexo explícito retratadas no livro não foram utilizadas no filme, ficando apenas subentendido que aconteciam. 
- O nome Lolita no livro apenas é utilizado por Humbert, como o seu apelido privado. Enquanto no filme a maioria das personagens utiliza o nome Lolita. 
- A persongem de Humbert no filme é retratada de uma forma quase simpática, no livro a sua personagem é a de uma pessoa completamente desequilibrada mentalmente, com uma tara sexual por meninas mais jovens, capaz de acções brutais.
- A personagem de Quilty apenas tem relevo mais para o final do livro, enquanto no filme tem uma forte presença desde o início. 

Não sendo o filme mais conhecido de Kubrick, Lolita é uma das suas obras mais interessantes e complexas. O realizador conseguiu, na minha opinião, providenciar uma história capaz de provocar sentimentos ambíguos, desde a empatia à completa repulsa por Humbert, com salpicos de humor à mistura. Consegue, de forma eficaz, prender o espectador  no drama psicológico das personagens do início ao fim.

O trabalho de todos os actores é brilhante: James Mason, o oscilante Prof. Humbert, Peter Sellers, o desconcertante Quilty, Sue Lyon a ingénua Lolita e Shelley Winters, a apaixonada Charlotte. Mereciam maior reconhecimento, mas a controvérsia e o conservadorismo da época não o permitiram.

Por fim, gostaria de destacar o momento em que Humbert conhece Lolita de óculos em forma de coração. Uma cena com uma aura única, que mistura inocência e depravação e,que, no fundo, poderá ser uma boa ilustração de todo o filme. 




Fun Fact: O filme acabaria por não ter qualquer corte da censura, apesar da sua classificação ter sido para "Maiores de 16 anos". Curiosamente, seria um filme que a própria Lolita não poderia ver. 


sábado, 6 de junho de 2020

Ciclos - Stanley Kubrick - 2001: A Space Odyssey

Domingo - 2001: A Space Odyssey (1968)




2001: A Space Odyssey de 1968 é, na minha opinião, uma uma obra com tanto de épico como de pretensioso. Para corroborar esta afirmação, basta ver os primeiros 5 minutos do filme, em que imagens do espaço surgem na tela ao som de uma poderosa orquestra que entoa, Assim Fala Zaratustra de Srauss:


O argumento de Odisseia no Espaço surge de uma colaboração entre Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke, sendo que a narrativa se baseia em parte, num conto de Clarke - The Sentinel. Ambos trabalharam juntos no guião que viria dar origem ao filme e ao livro, 2001: A Space Odyssey, lançados no mesmo ano.


Voltando à análise do filme propriamente dita - os primeiros 25 mins não tem qualquer diálogo e assiste-se, ainda na pré-história, a um retrato do dia-a-dia de um conjunto de primatas (parece o fim da macacada, mas na verdade é o início). O aparecimento de um monolito negro, talvez alienígena, talvez sobrenatural, é alvo de espanto e adoração por parte da tribo de primatas, que tocam no estranho objeto com alguma delicadeza. De seguida este estranho objeto acaba por desaparecer. O toque parece ter tido um efeito na inteligência dos próprios primatas, permitindo que a espécie evoluísse. Como por exemplo, ficasse dotada da capacidade de usar ferramentas para caçar. Esta evolução trouxe desenvolvimento à espécie, contudo, também trouxe morte - pode-se ver um primata a ser assassinado com um recurso ao manuseio de "ferramentas". Noutra cena assiste-se a um abuso da caça, desequilibrando dessa forma a fauna, em favor dos primatas face às restantes espécies existentes. Estes minutos iniciais sugerem à partida o tema do filme: a evolução. 




De seguida, o filme dá um salto de milhares de anos até a uma era espacial, mais precisamente até 2001, momento em que se descobre o mesmo monolito dos primatas numa escavação na lua. Mais uma vez, e com a mesma delicadeza dos primatas, o monolito é alvo de um género de adoração, agora por parte de astronautas, que tocam no monolito. Momento em que fica subentendida uma nova evolução da espécie. A facção (país?) que descobre o Monolito tenta encobrir o facto, com notícias de uma falsa pandemia (lembra alguma coisa?). 




A partir daqui começa uma saga espacial em busca do paradeiro do monolito, ou de quem o coloca, ou simplesmente em busca da evolução seguinte. Essa busca toma uma rota a caminho de Júpiter, sendo a tripulação composta por humanos e por um computador de última geração, responsável pela orientação dos sistemas da nave espacial, o HAL 9000 (na nave são visíveis as instruções para defecar...).  Um computador cuja conduta se torna duvidosa, ficando no ar a questão: até que ponto a inteligência artificial ultrapassou a humana? (Nesta parte do filme, há algumas passagens de Danúbio Azul de Strauss. Algo que fez lembrar o meu dentista, que tem no consultório este tipo de obras clássicas como música de fundo)


O final é dos mais enigmáticos da história do cinema, existindo as mais variadas explicações não havendo um consenso para a razão dos elementos que o compõem. Confesso que quando o vi pela primeira vez, senti uma cãibra mental (e infelizmente não há fisioterapia para o cérebro), tendo ficado a reflectir durante alguns dias sobre os derradeiros acontecimentos do filme. Só após alguma pesquisa dei conta de alguns aspectos importantes para a compressão (possível) da narrativa. 

O filme é um colosso visual, cujos efeitos apesar do ano de 1968, estão ao nível de grandes produções do início dos anos 90. Acredito que tenha sido utilizado por muitos professores de cinema, como exemplo da arte de bem filmar. Sem embargo, é uma obra de difícil visionamento devido à lentidão da acção. Um adolescente de hoje em dia que tente ver este filme, após os primeiros 10 minutos, começa a ter convulsões e a largar espuma pela boca. 

Bem... por ventura, é um filme para contemplar e não para ver, sendo quase uma experiência semelhante à de ir a  um museu de pintura. Concordo, no entanto, com a perspectiva de Woody Allen, a de que é um filme que se aprende a apreciar com o tempo, mais, é um filme à frente do seu tempo, que fica a ganhar com sucessivas visualizações:



Fun Fact: Se avançarmos uma letra em cada uma das letras da palavra HAL, obtemos IBM. Segundo Arthur C. Clarke foi algo acidental,  apesar da marca IBM aparecer retratada em alguns painéis das naves espaciais (painéis com botões... é um filme com grande visão, mas não previu que a era do touch screen viria a ser reinante). Já agora, HAL quer dizer: Heuristic Algorithmic Computer.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Ciclos - Stanley Kubrick

Stanley Kubrick, filho de emigrantes judeus, nasceu no ano de 1928 em Nova Iorque. Apesar de ser considerado inteligente (IQ de 200), não foi um aluno brilhante. O facto mais decisivo da sua juventude terá ocorrido no seu 13º aniversário, altura em que o pai lhe ofereceu uma máquina fotográfica (ainda dizem que o 13 é o número do azar).   A partir deste momento, apaixonou-se pela fotografia e começou a colaborar com a Look, chegando mesmo a estagiar na revista aos 17 anos. 


Nos anos seguintes tornou-se viciado em cinema, tendo rebentado as suas poupanças na realização de um documentário, Day of Fight (1951). Continuou a fazer documentários com o objectivo de ganhar notoriedade e assim atrair investidores para poder realizar a sua primeira longa, Fear and Desire (1953) - este filme foi muito bom para a sua carreira, contudo, segundo as más línguas da época, acabou com o seu casamento (momento passadeira vermelha). Apesar de não ter sido muito apreciado pela crítica, o talento de realização de Kubrick ficou evidenciado e os dois filmes seguintes - Killer's Kiss (1955) e The Killing (1956) - deram-lhe visibilidade e credibilidade em Hollywood, valendo-lhe a possibilidade de realizar Paths of Glory (1957) e Spartacus (1960), ambos com Kirl Douglas (falecido este ano com 103 anos). 




Este ciclo incidirá sobre os 7 títulos  seguintes assinados pelo realizador, a saber:

- Lolita (1962)
- Dr. Strangelove (1964)
- 2001: A Space Odyssey (1968)
- A Clockwork Orange (1971)
- Barry Lyndon (1975)
- The Shinning (1980)
- Full Metal Jacket (1987)

 de fora ficará o seu último filme, Wide Shut Eyes (1999).

Stanley Kubrick é recordado pela sua visão do mundo, pela qualidade da sua fotografia, pelo seu trabalho em efeitos especiais, mas acima de tudo pelo seu perfeccionismo (um picuinhas, portanto...)  Os actores que trabalharam com ele relatam a necessidade de repetir takes até à perfeição (podia chegar a uma dúzia de takes cada cena), o que tornava as rodagens dos seus filmes bastante longas. Eis um testemunho de  Ryan O'Neal, actor que trabalhou com Kubrick em Barry Lyndon:



Para finalizar, apresento 3 fun facts  sobre o realizador:

1)  Morreu de forma súbita 4 dias antes de apresentar o seu último filme, Eyes Wide Shut (1999), um filme que tem um recorde do Guiness Book: filme com maior tempo de rodagem consecutivo - 400 dias.

2) Caso não tivesse falecido, o projecto seguinte a Eyes Wide Shut seria A.I. - Artificial Inteligence (2001), filme dirigido posteriormente por Steven Spielberg em sua homenagem.

3)  Era grande fã de 3 séries de comédia americanas, nomeadamente: Seinfeld, Roseanne e The Simpsons,

Contra Fun Fact: Segundo teorias da conspiração, Kubrick terá realizado a chegada do homem à lua, sendo, por isso, esse facto histórico uma farsa. Neil Armstrong terá posto as patas na lua?

Nos próximos dias/semanas irão ser lançadas reviews de filmes do realizador. 

terça-feira, 2 de junho de 2020

Ciclos - Roman Polanski

Pol de Polaco, Pol de Polémico, Pol de Polanski. Roman Polanski nasceu em Paris em 1933, mas três anos mais tarde foi viver com os seus pais para a Polónia, a terra das suas origens. Entretanto, rebentou a segunda grande guerra em 1939 e a Polónia foi invadida pela Alemanha Nazi. A família de Polanski, dada a sua origem judaica, foi remetida para o gueto de Cracóvia. Mais tarde, os seus pais foram levados para campos de concentração, o pai para a Áustria e a mãe para Auschwitz. O pequeno Roman conseguiu escapar ao gueto tendo-se passado por católico, mas não conseguiu escapar a uma infância de maus tratos e de miséria.

Na sua juventude tornou-se actor e posteriormente viria a ingressar na escola de cinema de Lodz. Pouco depois começou a realizar curtas e em 1962 estreia a sua primeira longa - Faca na Água - tendo de imediato recebido uma nomeação para melhor filme estrangeiro (o primeiro polaco a consegui-lo). Vai então para França, onde continua a fazer filmes, alcançando a aclamação da crítica, nomeadamente com Repulsa (1965) e com Beco (1966). Pouco depois segue para o Estados Unidos, onde realizou Rosemary's Baby (1968).

No entanto em 1969, a sua mulher - a actriz Sharon Tate - iria ser brutalmente assassinada por membros da família Manson. Após este trágico acontecimento, o realizador refugiou-se na Europa, tendo apenas voltado em 1974 aos Estados Unidos para a realizar Chinatown.

Quando a sua carreira parecia estar a voltar a uma trajectória ascendente, Polanski foi preso por sodomizar uma miúda de 13 anos durante uma sessão fotográfica, tendo assumido a culpa (pelo menos em parte) dos factos ocorridos. Conseguiu escapar ao julgamento porque fugiu para França (tinha passaporte francês), onde não existe acordo de extradição com os EUA. 

A partir daqui a sua carreira parecia confinada (estou farto desta palavra...) a filmes de menos relevância. Até que em 2002, estreia O Pianista, um filme de enorme sucesso que valeu ao realizador um Óscar para melhor realizador, um Palma de Oiro, um Bafta e um Cesar. Recentemente estreou J'accuse, um filme com boa aceitação da crítica, mas envolto em polémica por causa do passado obscuro de Polanski. 

Na minha opinião, a principal qualidade de Polanski, enquanto realizador, julgo que seja a sua capacidade de manter o suspense no ponto certo. Concordo, assim, com Kim Catrall na entrevista que apresento abaixo (ver 1min30seg para a frente):



Antes de avançar para as minhas escolhas, apresento 3 fun facts (desta vez pouco fun) sobre o realizador:

1) Quando tinha 12 anos encontrou soldados nazis na floresta, que para praticarem tiro ao alvo, o obrigaram a segurar objetos.

2) O assassinato de Sharon Tate e a família Manson aparecem retratados no último filme de Quentin Tarantino, Once Upon a Time de Hollyood. 

3) Não regressa aos EUA desde 1978, devido ao caso de sodomia referido anteriormente. 

Segue a selecção de filmes, com especial foco nas décadas de 60 e 70, a era dourada do realizador.


2ª Feira - Repulsa (1965)

Para começar, Repulsa é um grande nome para um filme de terror (e também o nome de uma vilã dos Power Rangers, Rita Repulsa). Enquadrado na trilogia "dos apartamentos" de Polanski, Repulsa narra a história de Carol Ledoux (Catherine Denouve), uma jovem que trabalha num salão de beleza e que partilha um apartamento com a sua irmã Helen (Yvone Furneaux). Aos poucos vais ganhando aversão ao namorado da irmã (Ian Hendry), por sentir o seu espaço invadido.

A aversão transforma-se em paranóia, levando Carol a sentir repulsa não só pelo namorado da irmã mas pelos homens em geral. Polanski vai, através de elementos que criam desconforto  - toque de telefone de repente, sinos de igreja, som do tique-taque de um relógio durante a noite, a imagem de um coelho temperado (nunca mais como coelho) - misturando a realidade com a imaginação de Carol. Cada vez mais alheada da realidade, Carol começa a tornar-se cada vez mais antissocial e alheada de tudo o que a rodeia (torna-se num animal anti-social). 

Repulsa é um thriller psicológico que, através da mestria de Polanski (brilhantes planos com a câmara de mão)  e um extraordinário desempenho de Denouve, mantém o suspense em níveis elevados até ao final, mexendo com as entranhas mais profundas que temos. E o melhor elogio que lhe posso fazer é dizer: este filme fez-me sentir repulsa!



Fun Fact: Foi o primeiro filme britânico, cuja censura deixou passar uma cena em que se ouve um orgasmo. 
  
3ª Feira - Rosemary's Baby (1968)


Na linha de Repulsa, este é mais um filme de terror psicológico de Polanski, cuja maioria da acção decorre num apartamento. Neste caso, um jovem casal mudou-se para um apartamento com algum requinte em Nova Iorque. Ela - Rosemary, dona de casa (Mia Farrow), ele - Guy Woodhose, um actor (John Cassavetes) em busca de um novo sucesso. Os vizinhos aparentemente amorosos começam a apresentar comportamentos peculiares e a parecer demasiado intrometidos (quais não são), chegando a envolver-se na decisão do casal de ter um filho.


Depois de um pesadelo, em que Rosemary sente ter sido violada pelo Diabo, engravida. A partir daqui começa a sentir náuseas, alucinações e aos poucos  afasta-se do seu ciclo de amigos. Em contrapartida, Guy consegue um papel de bastante relevo. O filme segue nesta dicotomia entre o sucesso de Guy e a dor psicológica de Rosemary (Teremos aqui um alegoria ao papel da mulher no mundo do trabalho?). Os vizinhos estranhamente parecem ter planos para o bebé, mas que planos? 

É um filme perturbador, com elementos satânicos e que me fez suar em bica em algumas cenas (troquei de t-shirt 5 vezes e o lençol nessa noite também teve de ser trocado). Mia Farrow consegue transmitir-nos toda a dor de uma personagem que se sente desamparada, incapaz de confiar em alguém. Eis o trailer, que no fim declara: "Suggested to mature audiences":




Fun Fact: A cena em Mia Farrow comeu um fígado é verdadeira, apesar da actriz já ser vegetariana na altura da rodagem do filme



4ª Feira - O Inquilino (1976)

Como não há duas sem três, o inquilino é o terceiro filme de terror psicológico de Polanski cuja a ação decorre, quase na totalidade, num apartamento. 

O argumento gira em torno de Trelkovsky - personagem interpretada pelo próprio Polanski - um empregado de escritório, que aluga o quarto de uma mulher que se tentou suicidar, ficando às portas da morta, a egiptóloga Simone Choule. Apesar da renda baixa do apartamento, os habitantes do prédio são tudo menos hospitaleiros. Desde a Porteira pouco simpática, passando pelo senhorio austero, até aos vizinhos carrancudos, ninguém parece querer facilitar a vida ao novo inquilino. Finalmente, Simone Choule falece, no entanto e estranhamente, Trelkovsky começa paulatinamente a ser "possuído" da vida de Choule. Começa com os pequenos hábitos, como a fumar a mesma marca de tabaco de Choule, passando para coisas mais bizarras, como vestir as roupas da antiga inquilina. 

É um thriller perturbador que parece saído de um romance de Kafka. O filme obriga a um exercício permanente ao espectador: perceber onde termina a realidade e começa a paranóia. 

Finalizada esta trilogia, é possível afirmar que Polanski demonstrou que para fazer um bom filme de terror não são precisos seres aterradores ou litradas de sangue. Na verdade, a receita pode ser simples simples: apelar aos receios mais básicos e às pequenas perturbações mundanas e com isto despertar monstros em mentes frágeis, incapazes de resistir à pressão da sociedade. 



Fun Fact: Roman Polanski dobrou as suas partes na versão italiana do filme.


5ª Feira - Chinatown (1974)


Se me pedirem uma sugestão para um filme policial, com mistério e uma bela trama, Chinatown é a primeira opção que me vem à cabeça. É uma obra com um argumento de Robert Towne - ganhou um óscar com este filme e é também o argumentista de Missão impossível - muito bem delineado e com o suspense muito bem gerido pela mão de Polanski.

J. J. Guites (Jack Nicholson), um detetive privado, é contratado pela mulher de Hollis Murray, um importante engenheiro da companhia das águas da cidade de L.A., para investigar um suposto envolvimento do marido com uma amante. Todavia, Murray aparece morto pouco depois do início das investigações, que já haviam conseguido revelar a existência de outra mulher na sua vida. E a partir daqui a história segue à boleia do talento Faye Dunaway e Nicholson, que passa metade do filme com o nariz assim (ninguém lhe manda pôr o nariz onde não é chamado):



Não vou adiantar mais da história, para não fazer spoil. Mas garanto-vos que, apesar de ser a cores, Chinatown é um dos melhores filmes Noir da história do cinema.

Fun Fact: Jack Nicholson aparece em todas as cenas do filme.  

6ª Feira - The Pianist (2002)


Existem muitos filmes sobre a 2ª Guerra Mundial, mas nenhum, na minha opinião, que retrate tão bem a humilhação e a degradação da vida dos judeus na Polónia como o Pianista. À medida que o filme avança assistimos ao declínio da família Szpilman, uma família judaica da classe média, a partir do momento em que as tropas alemãs invadem o território polaco. Passam de uma vida confortável para um gueto, do gueto para campos de concentração, de campos de concentração para...bem...depende da sorte, mas na maioria das vezes a morte.


Esta obra é baseada numa autobiografia num sobrevivente do holacausto, Wladyslaw Szpilman (espero ter escrito bem) a personagem principal do filme, um pianista de sucesso numa estação de rádio, que ao longo do filme vai encontrando forma de, com audácia e com sorte, ir escapando ao destino da maior parte do seu povo naquele país, a morte. 

Adrien Brody desempenha brilhantemente o papel deste pianista (aprendeu a tocar piano para desempenhar o papel), nomeadamente a capacidade de retratar um homem que passou por enormes privações, nomeadamente a fome. Valeu-lhe, justamente, o óscar para melhor ator.

Por fim, Polanski, ele próprio um sobrevivente do Holocausto, pode utilizar toda a sua experiência de vida para oferecer realismo a esta obra intemporal sobre a desgraça e a vergonha humana. Engraçado notar o desvanecimento das cores do filme, à medida que a vida da cidade de Varsóvia se vai degradando. 




Fun Fact: Durante a rodagem do filme na Polónia, Polanski conheceu um homem que ajudou a família do próprio realizador a sobreviver ao holocausto. 

E assim se conclui esta pequena reflexão da carreira de Roman Polanski, um realizador genial ,marcado por acontecimentos trágicos e por um crime imperdoável. Esquecendo os defeitos do autor, a obra é sublime.

Quando um ciclo se encerra, outro principia e na próxima semana será visada a carreira do polémico realizador, Stanley Kubrick

Até mais ver!

P.S.: Sugestões de temas para próximos ciclos serão bem-vindas .