domingo, 30 de maio de 2021

#21 Cinema Mudo - The Kid (1921)

Sir Charlie Spencer Chaplin, mais conhecido por Charlie Chaplin, nasceu em Inglaterra no final do Séc. XIX e é um dos grandes vultos da história do cinema. Na maior parte dos seus filmes assumiu o papel de ator principal, guionista e realizador. Ganhou destaque na era do cinema mudo, género em que se notabilizou graças aos seus impressionantes dotes mímicos e ao seu humor físico.

 A sua personagem mais emblemática foi The Tramp (não confundir com Trump) conhecido por Charlot na Europa. Como podemos observar pela imagem abaixo, The Tramp caracterizava-se por envergar roupa desgastada, bengala, sapatos enormes e chapéu de Coco. Tinha uma forma de andar muito característica que consistia em dar passos com os pés abertos para o lado, quase como um pinguim. E na cara, mesmo por debaixo do nariz usava um bigode aparado dos lados, um bigode que infelizmente uns anos depois cairia em desgraça, uma vez que foi o bigode de Hitler, personalidade que iria ser alvo de uma sátira num filme do próprio Charlie Chaplin - O Grande Ditador (1940).


Desta época, os filmes que mais me marcaram de Charlie Chaplin foram The Kid (1921), Gold Rush (1925), City Lights (1931) e Modern Times (1936).

The Kid (1921)


Poderia ter escolhido qualquer um dos filmes que referi anteriormente, pois qualquer um deles tem grande qualidade e graça, mesmo quando vistos com os olhos de hoje. Todavia, tinha de escolher um e resolvi optar por The Kid, a primeira longa-metragem dirigida por Charlie Chaplin, muito provalvelmente por ter sido o primeiro que vi, pelo menos é o que a minha memória indica. Mas não só, é também um filme daqueles que tem o dom de nos levar num carrossel de emoções, do genuíno riso, à emoção capaz de fazer brotar uma lágrima dos nossos olhos. Não é por acaso que o título de abertura versa o seguinte: A comedy with a Smile and perhaps a tear.


The Kid conta a história de The Tramp - um pé rapado que vive no limiar da pobreza na grande cidade - e o garoto - um bebé abandonado num caixote do lixo que viria a ser encontrado por Tramp. Este apesar de todas dificuldades recolhe o bebé e cria-o como se fosse seu. À medida que vai crescendo, o miúdo começa a ajudar Tramp em alguns esquemas para ganhar uns trocos e assim fintar a miséria e a fome. A ligação dos dois é comovente e enternecedora. Porém, uma mãe, a mãe (?) aparece, o que será que vai acontecer?

Apesar da narrativa ser simples, o humor físico de Chaplin aliada à simbiose criada com o garoto, fazem deste filme uma obra extraodinária e intemporal. Encontram-se versões no YouTube, se tiverem interesse e quiserem dar umas boas gargalhadas e, mesmo, soltar uma lágrimazinha fica a sugestão:


Fun Fact: A boa química existente entre Charlie Chaplin e Jackie Coogan (o garoto) foi alimentada pela excelente relação que ambos tinham também fora dos ecrãs. 





domingo, 16 de maio de 2021

#20 Cinema Mudo - Sherlock Holmes Jr. (1924)

 Sherlock Holmes Jr. (1924)

Quando se olha para a história do cinema e para o cinema mudo em particular, há dois nomes incontornáveis, Buster Keaton e Charlie Chaplin. Chaplin é, hoje em dia, mais famoso, principalmente porque a sua carreira foi mais consistente e duradoura, tendo resistido à passagem do cinema mudo para o cinema falado. 

Já Buster Keaton teve muito sucesso durante a década de 1920-30, alcançado através de títulos como Sherlock Holmes Jr. (1924), Steambill Boat Jr. (1928) e o meu favorito, essa saga passada numa locomotiva, The General (1926).


No entanto, após ter assinado com a MGM no ano de 1930, perdeu a liberdade criativa sobre os seus projectos e nunca mais alcançou o sucesso da década anterior. A excepção talvez seja a participação num filme de Charlie Chaplin - Luzes da Ribalta (1953). O único filme em que ambos colaboraram. 

Keaton nasceu numa família de artistas de variedades, tendo participado com os seus pais em diversos números que juntavam o teatro e o circo. A sua veia de artista de circo é transportada para os seus filmes em que, além da comédia assente em quedas, perseguições e grandes correrias, se destacam os stunts absolutamente fantásticos - fórmula ainda usada hoje, em filmes como os do Jackie Chan. Outra imagem de marca de Keaton é a sua "Poker Face", apesar dos seus filmes serem pautados pelo humor, Keaton mantém sempre uma expressão facial neutra, nunca esboçando um sorriso sequer. O seu objectivo era deixar ao espectador a interpretação das emoções e dilemas morais das suas personagens. 

De todos os filmes de Buster Keaton resolvi destacar e rever Sherlock Holmes Jr. neste post. Este título conta a história de um remediado projeccionista de cinema, interpretado por Keaton, que tem como objectivo ser um grande detective. Este projeccionista anda a cortejar uma moça de classe média/alta, oferecendo-lhe presentes comprados com o pouco dinheiro que possui. No entanto, um pretendente rival rouba um relógio ao pai da moça, penhora-o e com o dinheiro compra um presente ainda mais caro para dar à moça (bandalho). Não satisfeito e de forma a eliminar completamente a concorrência, pega no recibo da loja de penhores e coloca-o no bolso do projeccionista com o objetivo de o incriminar. Não percebendo bem o que lhe aconteceu, o projeccionista inicia uma investigação cheia de peripécias, investigação essa que, todavia, se passa apenas nos seus sonhos. 

Sherlock Holmes Jr. é um filme divertido que ainda hoje se assisste sem qualquer sacrifício. São 44min bem passados. Tem de interessante e inovador a narrativa em que se cruza a realidade com a fantasia (sonho). Provavelmente, o primeiro filme em que tal acontece. Caso queiram assistir, está disponível no YouTube:


Fun Fact: Sherlock Holmes Jr. foi uma das inspirações de Woody Allen em "The Purple Rose of Cairo", filme em que o sonho e a realidade também se cruzam. 


sábado, 8 de maio de 2021

19# Cinema Mudo - Metropolis (1927)

Metrópolis (1927)

Continuando a exploração no arquivo arqueológico das obras mais emblemáticas do cinema mudo que nem um Indiana Jones cinéfilo, resolvi esta semana pegar num dos filmes mais relevantes dessa era e, à data da sua estreia, num dos mais dispendiosos do cinema europeu. Considerado unanimemente um dos expoentes máximos do expressionismo alemão e uma verdadeira obra-prima, falo pois claro de Metropolis (1927) - filme de ficção científica realizado por Fritz Lang. Além de Metropolis, Lang realizou o extraordinário: “M - Eine Stadt sucht einen Mörder”, apesar de grande parte dos leitores deste blogue entenderem perfeitamente o alemão, o título em inglês é “Murderers Among Us” e em Português é simplesmente “Matou” (realmente somos um povo simples).

Voltando a Metropolis, a história decorre em 2026, sensivelmente 100 anos depois da estreia do filme, numa cidade com traços arquitectónicos similares a Nova Iorque (Metropolis), governada pelo industrial Joh Fredersen, que vive num alto arranha-céu. Este controla todas as máquinas que fornecem energia à cidade a partir das suas fundações subterrâneas. Estas máquinas são operadas por operários (viva a repetição) que trabalham duramente durante (bis) longas jornadas e vivem em condições precárias. 


Freder filho de Joh, que não faz mais nada da vida a não ser divertir-se, é atraído por Maria para as fundações, onde assiste a um terrível acidente que vitimiza e fere uma série de operários. Freder fica sensibilizado com as dificuldades deste povo marginalizado e tenta chegar à fala com seu pai que pouco liga aos apelos do filho. Face à indiferença e encantado por Maria, decide integrar-se na comunidade operária para perceber as suas dores. Com uma aura de entidade divina, Maria profetiza a chegada de um Mediador (o Coração) que terá um papel fundamental no melhorar de relações entre a Patrão (a Cabeça) e os Trabalhadores (as mãos). Esse mediador será Freder?

E onde entra a ficção científica aqui? Basicamente, a mãe de Freder morreu quando o deu à luz, e um cientista louco que era completamente apaixonado por ela, Rotwang, construiu uma espécie de Frankenstein metálico, cujo objectivo era devolver a vida à sua amada. Não vou revelar se o conseguiu, vejam o filme ;).

A narrativa, assente no binómio patrão, proletariado, é interessante apesar de simplista. Reflecte os avanços ao nível dos direitos dos trabalhadores que se registaram naquele tempo e simultaneamente, a crescente importância das máquinas no contexto industrial. No entanto, a narrativa paralela que envolve ficção científica, é completamente seminal e sem dúvida foi uma influência para muitos filmes do género que se lhe seguiram. Independentemente destas narrativas, ao espectador é oferecida uma bela aventura, que entretém durante as duas horas de duração do filme.  

Visualmente, independentemente da altura em que foi feito, o filme ainda é deslumbrante. Nomeadamente, os efeitos das máquinas das fundações são interessantes, bem como as detalhadas maquetas usadas para dar vida à grande metrópole, onde se vêm aviões, pontes aéreas e edifícios futuristas. Nota ainda de destaque para a enigmática espécie de Frankenstein arraçado de Robocop, criado para dar vida à defunta mãe de Freder. As técnicas e efeitos utilizados neste são consideradas verdadeiramente revolucionários.

Um aspecto curioso relativo à caracterização dos actores é a utilização de uma exagerada maquilhagem. Essencialmente, faces aclaradas e batom nos lábios com o objectivo evidente de realçar as expressões, algo importante num filme mudo. 

Eis o trailer:


Fun Fact: Para desespero de Fritz Lang, Adolf Hitler e Joseph Goebbels eram grandes fãs do filme. Goebbels encontrou-se com Lang e disse-lhe que ele poderia ser nomeado ariano honorário, apesar de sua origem judaica. Goebbels disse a ele "Sr. Lang, nós decidimos quem é judeu e quem não é." Lang partiu para Paris naquela mesma noite.


sábado, 1 de maio de 2021

18# Cinema Mudo - A Viagem à Lua (1902)

O cinema mudo atingiu o seu auge nas duas primeiras décadas dos anos 20 do século passado. No entanto, as suas origens remontam ao final do século XIX. Nesse período os irmãos Lumière com o seu cinematógrafo começaram a produzir pequenos filmes documentais e, pela primeira vez, ofereceram ao grande público a possibilidade de ter uma experiência cinematográfica, mediante o pagamento de um bilhete. Estes filmes eram essencialmente documentais e geralmente um retrato da realidade. Pouco tempo depois, outro francês, o ilusionista Georges Méliè começa a produzir as primeiras obras de ficção, já com argumentos trabalhados e efeitos visuais inovadores. 

A Viagem À Lua (1902)

No dealbar do século XX, Méliè produz o seu filme mais icónico, A Viagem à Lua (1902) - um filme de ficção científica (na altura pelo menos), baseado em dois romances - De la Terre à la Lune de Júlio Verne e The First Men in the Moon de H.G. Wells - cuja narrativa se centra num grupo de pioneiros que viajam até à Lua e nela encontram um planeta com uma atmosfera respirável e seres extraterrestres que por ali habitavam. É impressionante o quão antigo é o sonho da viagem do Homem à Lua, assim como a crença em seres alienígenas. 

Na minha humilde opinião, esta obra tem uma estética verdadeiramente notável e até atraente. Desde o guarda-roupa detalhado, até às imagens com elevado grau artístico que vão surgindo na tela, tudo foi pensado ao pormenor. A esse respeito recordemos a icónica imagem do foguetão no "olho" da Lua:

Coitada da Lua...parece o Camões...

Apesar de não ser dos preferidos de Méliès, a partir deste filme, a sala de cinema passou a ser vista como um dos locais de eleição para contar histórias, mesmo as impossíveis. 

A Viagem à Lua encontra-se disponível no Youtube (são apenas 15 min): 

Fun Fact: Parece que a pirataria remonta aos primórdios do cinema, senão vejamos: Méliès tinha como objectivo distribuir o seu filme nos Estados Unidos e lucrar muito com isso. No entanto, técnicos dos filmes de Thomas Edison fizeram cópias ilegais tendo-as distribuído por todo o país. Méliès ficou a chuchar no dedo e foi à falência, enquanto o filme se tornou num enorme sucesso.