quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Advento 2025 - Lista Final

Finalizado o calendário de Advento, é altura de apresentar a lista final. O conjunto de filmes escolhidos, teve por base dois critérios fundamentais: i) obras que vi ou revi recentemente e das quais gostei (ou seja, valeu o meu gosto duvidoso); ii) filmes que se enquadrassem com a quadra natalícia.

Procurei ainda que a lista fosse equilibrada quer em termos de géneros (há dramas, terror, comédias, animação, ação, documentários), quer em termos de antiguidade (há clássicos, mas também filmes estreados ao longo de 2025). Mas chega de paleio, eis a lista final:


1/24 – Minority Report (2002)
2/24 – As Noites de Cabíria (1957)
3/24 – A Vida de Chuck (2024)
4/24 – Nem Guerra Nem Paz (1975)
5/24 – As Aventuras de Tintim (2011)
6/24 – John Candy: I Like Me (2025)
7/24 – O Silêncio dos Inocentes (1991)
8/24 – Lavagante (2025)
9/24 – O Grande Ditador (1940)
10/24 – O Agente Secreto (2025)
11/24 – Weapons (2025)
12/24 – Kill Bill Vol. 2 (2004)
13/24 – Sinners (2025)
14/24 – [REC] (2007)
15/24 – Gremlins
16/24 – Some Like It Hot (1959)
17/24 – The Bucket List (2007)
18/24 – Clube dos Poetas Mortos (1989)
19/24 – Boogie Nights (1997)
20/24 – Dragonfly (2025)
21/24 – A Morte de Estaline (2017)
22/24 – Harakiri (1962)
23/24 – Toy Story 3 (2010)
24/24 – Nightmare Before Christams (1993)
 



20 Filmes de Natal (ou para não me chatearem o juízo, 20 filmes de Natal ou cuja ação decorre durante o Natal)

Oh oh oh! Segue uma lista de 20 filmes de Natal ou cuja ação decorre no durante natal. E é para a menina e para o menino, para a tia solteirona, para o tio bebado, para a avó que adormece a meio, para o avô surdo, para a mãe galinha e para o pai fanfarrão que adora filmes de ação. (atualização do ano passado) 


-Violent Night (2022)
-Sozinho em casa (1990)
-Arma Mortífera (1987)
-Kiss, Kiss, Bang, Bang (2005)
-Tokyo Godfathers (2003)
-O Tesouro de Natal (1996)
-Batman Returns (1992)
-Dr. Seuss' How the Grinch Stole Christmas (2000)
-Die Hard (1988)
-It's a Wonderful Night (1946)
-O Amor Acontece (2003)
-Nightmare before Christmas (1993)
-Gremlins (1984)
-The Holdoveres (2023)
-Klaus (2019)
-Jumanji (1995) são só dois minutos, mas conta...
-Polar Express (2004)
-Bad Santa (2003)
-Elf (2003)
-A Christmas Story (1983)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Advento 2025 - 24/24 - The Nightmare Before Christmas (1993)

The Nightmare Before Christmas (1993)

Cheira a Natal. Já se vêm tapetes de meninos Jesus pendurados nas varandas como se fossem cair ao chão, gambiarras berrantes e aos olhos irritantes nas caleiras das casas. O bacalhau está de molho e o peru grosso para no forno não pensar. O óleo está nas frigideira, pronto a fritar sonhos para todos os que são filhós de Deus...  


E porque a noite de Natal se está a aproximar, nada melhor do que em The Nightmare Before Christmas falar. Obra saída da cabecinha pensadora de Tim Burton, ainda quando era animador da Disney nos anos 80. A gaveta fez bem ao projecto que foi amadurecendo e de um pequeno conto surgiu numa longa metragem em 1993. Tim Burton acabou por não poder realizar o filme, devido a impedimentos contratuais ligados à produção de Batman. Colaborador habitual de Burton, Elfman (nome apropriado para este filme) foi o criador da extraordinária banda sonora, dando voz ao personagem principal, Jack  the Skellinghton, enquanto este canta. Claramente, a música é um dos pontos fortes do filme. Elfman confessou que escrever as 10 faixas para este filme foi o trabalho mais fácil que teve na sua vida, pois considera que tem muitas parecenças com Jack. 

Resumidamente, The Nighmare Before Christmas conta a história de Jack Skellinghton, o Pumpkin King da Halloween Town, que está farto da sua vida repetitiva, centrada em exclusivo no dia das bruxas. Um dia e de forma acidental, entra na Christmas Town e descobre que existe o Natal. Fascinado com a ideia e com o espírito, resolve juntar os habitantes e criar um Natal à maneira de Halloween Town. Para o efeito rapta o Pai Natal, a quem chama Sandy Claws, assume o seu lugar e começa a preparar a entrega de presentes, alguns deles bastante diferentes do habitual….

Não sendo propriamente desajustado para um público infantil, devido ao lado sombrio que possui, é claramente direccionado para uma audiência mais adulta. Esteticamente é uma obra magnífica, marcada pelo estilo de Tim Burton em toda a sua plenitude, podendo encontrar-se vários elementos habitualmente usados pelo realizador nos seus filmes. Por exemplo, o recurso a personagens sinistras, mas com bom coração - Eduardo Mãos-de-Tesoura, Jack, etc. Para os fãs de Burton é obrigatório, para quem gosta de uma boa história de animação com uma agradável banda sonora também. 


Fun Fact: Marilyn Manson fez uma cover da música This Is Holloween, uma das primeiras a ouvir-se no filme.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Advento 2025 - 23/24 - Toy Story 3 (2010)

Toy Story 3 (2010)

Sou teu amigo, sim! Toy Story 3 é uma bomba de emoções, capaz de fazer brotar a lágrima mais profunda do maior calhau com olhos. Raios os partam! Sempre que vejo este filme, confesso que também acabo a soluçar. 

Neste capítulo 3 da saga, Andy vai sair de casa para ir para faculdade, momento em que passa pelo dilema de escolher que bens/objectos leva consigo. Será que vai levar algum dos seus velhos brinquedos consigo? 

A ida para faculdade marca o fim da adolescência, a saída debaixo das saias da mãe e os primeiros passos solitários no mundo real. Toda esta transição apela à mais vigorosa nostalgia, algo explorado de forma muito eficaz neste filme. 

Portanto, Toy Story 3 é daqueles filmes para miúdos que os adultos adoram. Tem humor, emoção, uma imaculada animação e ainda muita ação. 

Fun Fact: o Ken e a Barbie têm em Toy Story 3 papéis relevantes. Algo digno de registo é a continua troca de outfits de Ken. Ao todo Ken utilizou 21 mudas de roupa.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Advento 2025 - 22/24 - Harakiri (1962)

 Harakiri (1962)

Harakiri de Masaki Kobayashi é um daqueles filmes em que os factos relevantes da narrativa vão sendo desvendados passo a passo, elevando paulatinamente a curiosidade do espetador sobre o desfecho. Figurativamente é como a cozinha lenta, em que a carne está na panela em lume brando durante horas. O resultado final, tanto na cozinha como neste filme, é magistral.


Um filme de imagens fortes, cuja história versa sobre a forma como por vezes as aparências iludem e como um pouco de compaixão pode ter um efeito exponencial na vida de quem mais precisa.

Fun Fact: Seppuku e Harakiri  significam ambos cometer suicídio ritual em japonês. No entanto, seppuku é o termo formal, derivado dos caracteres kanji para «hara» (barriga) e «kiri» (cortar); harakiri é o termo mais grosseiro e menos educado para este acto.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Advento 2025 - 21/24 - A Morte de Estaline (2017)

 A Morte de Estaline (2017)

A Morte de Estaline, de Armando Iannucci, é um retrato satírico extremamente bem conseguido do regime soviético, explorando várias das suas máculas, nomeadamente:

- O kissing assing (*) ao líder é o aspeto mais presente ao longo de todo o filme e é levado ao extremo, sobretudo pelos membros do seu governo. Esta atitude mantém-se mesmo após a sua morte.

- A censura constante, que gera um medo permanente de qualquer deslize verbal. No filme, chega-se ao ponto de filhos denunciarem os próprios pais.

- As purgas incessantes. No fundo, este sistema não tolerava oposição viva por muito tempo. Há uma cena particularmente hilariante em que decidem suspender as purgas e, na Sibéria, um pelotão está a executar prisioneiros. A ordem para parar chega por telefone, mesmo a meio da fila. A expressão do prisioneiro seguinte, que se salva por um triz, a olhar para o último que acabou de levar um tiro, é impagável.

- As conspirações. Se já existiam durante a vida de Estaline, após a sua morte intensificam-se ainda mais. Os vários membros do comité comportam-se como galos à luta por um poleiro. Contudo, tudo é feito pelas costas uns dos outros.

Apesar de o filme ter uma linha narrativa sólida, apresenta vários momentos que parecem sketches. Um exemplo memorável é quando uma orquestra é obrigada a repetir um concerto que já tinha terminado, apenas porque Estaline queria ouvir a gravação. Como metade do público já se tinha ido embora, foi necessário ir buscar pessoas à rua para evitar o eco na sala. O responsável do estúdio diz então: “tragam pessoas mais gordas, assim precisamos de menos”, ao que um músico da orquestra responde: “vão buscar a minha mulher, ela vale por cinco”.

Claro que o filme é uma caricatura, mas é perturbador constatar como várias democracias ocidentais começam, cada vez mais, a assemelhar-se a práticas típicas do regime soviético.

(*) Na nossa bela língua materna: lambe-botas em Portugal ou puxa-saco no Brasil.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Advento 2025 - 20/24 - Dragonfly (2025)

Dragonfly (2025)

Dos filmes que tive oportunidade de ver na última edição do MoteLx, gostaria de destacar Dragonfly, uma espécie de Intouchables à inglesa, centrado numa relação de amizade improvável.

Elsie (Brenda Blethyn) é uma mulher idosa que vive sozinha e já depende da ajuda de assistentes sociais para realizar algumas tarefas domésticas básicas, como tomar banho. Colleen (Andrea Riseborough) é a sua vizinha: vive sozinha com um cão, aparenta enfrentar dificuldades económicas e sobrevive graças a subsídios do Estado. Além disso, Colleen revela um comportamento algo destrambelhado e socialmente desajustado.

Aos poucos, Colleen começa a ajudar Elsie em pequenas tarefas do dia a dia. A relação entre as duas aproxima-se naturalmente e transforma-se numa amizade inesperada. No entanto, tudo muda quando o filho de Elsie começa a desconfiar que Colleen poderá estar a aproveitar-se da vulnerabilidade da mãe. A partir desse momento, o filme envereda por um caminho mais sombrio e ambíguo, com a tensão a aumentar progressivamente até ao final.

No fundo, Dragonfly, de Paul Andrew Williams, é uma reflexão pertinente sobre a solidão dos idosos. Quantas histórias não ouvimos de pessoas deixadas em camas de hospital ou “depositadas” em lares, raramente visitadas pela família? O filme faz lembrar o célebre sketch dos Gato Fedorento, em que o elemento sénior é deixado num “velhão”, uma espécie de ecoponto para velhos: “No chão não, filho. No velhão.” ;"E o que fazem ao idoso?"; “Não interessa, já não chateia.” No fundo, camas de hospital e lares são um autêntico velhão. 

Advento 2025 - 19/24 - Boogie Nights (1997)

 Boogie Nights (1997)

Boogie Nights, de Paul Thomas Anderson, é um filme estreado em 1997 que retrata a ascensão e queda do ator pornográfico Dirk Diggler. Apesar de a história ser ficcional, inspira-se no percurso de vida e profissional de John Holmes, um famoso ator pornográfico dos anos 70. Reza a lenda que o seu talento era enorme… se é que me percebem.


É importante salientar que Boogie Nights pode ser visto como uma extensão de The Dirk Diggler Story (1988), um mockumentary realizado por Paul Thomas Anderson ainda no liceu, quando tinha apenas 17 anos.

Apesar de violento e trágico em vários momentos, o filme apresenta também um forte teor cómico, resultante da conjugação da excentricidade das personagens com a enorme qualidade do elenco, que inclui Mark Wahlberg, Julianne Moore, Burt Reynolds, Don Cheadle, John C. Reilly, William H. Macy e Philip Seymour Hoffman.

Fun fact: Leonardo DiCaprio foi inicialmente sondado para interpretar o papel principal de Dirk Diggler, mas teve de recusar por já estar comprometido com Titanic (1997). Anos mais tarde, o ator afirmaria que um dos maiores arrependimentos da sua carreira foi não ter participado em Boogie Nights. Finalmente, em 2025, teria a oportunidade de trabalhar com Paul Thomas Anderson no filme Batalha Atrás de Batalha.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Advento 2025 - 18/24 - Clube dos Poetas Mortos (1989)

Clube dos Poetas Mortos (1989)

Oh Captain! My Captain! O Clube dos Poetas Mortos é daqueles filmes que têm o condão de nos fazer meditar sobre a vida.

A história centra-se num grupo de jovens estudantes do liceu, numa das escolas mais exigentes dos EUA, a Academia Welton (apelidada pelos alunos de Hellton). Esta academia é uma verdadeira máquina de formatar executivos, mais do que uma instituição dedicada a formar homens de pensamento livre. Para além da escola, os próprios pais exercem uma tremenda pressão sobre os filhos, exigindo que se concentrem nos estudos e evitem quaisquer distrações.

A chegada do novo professor de Inglês, Keating (Robin Williams), vem abalar este paradigma. Keating não tem um método de ensino convencional, desafiando os alunos a pensar de forma livre, a sair da zona de conforto, a seguir o mote Carpe Diem (aproveitar o dia) e, no fundo, a procurar o seu verdadeiro eu. Incentivados pelo professor, alguns alunos ressuscitam o Clube dos Poetas Mortos, uma espécie de seita benigna dedicada à criação e celebração da poesia.

Apesar da empatia evidente entre alunos e professor, a escola e a comunidade não estão preparadas para este tipo de abordagem pedagógica. Mais cedo ou mais tarde, os dois universos acabam por colidir — e de forma dramática.

Vale sempre a pena revisitar este filme, nem que seja para sentir alguma nostalgia dos tempos de liceu e de faculdade: das amizades que se criam e duram para a vida, dos sonhos que tínhamos — a maior parte deles não concretizados.

Termino com um merecido destaque para Robin Williams, numa das performances mais inspiradas da sua carreira, contracenando com atores então debutantes ou quase debutantes, nomeadamente Ethan Hawke e Robert Sean Leonard (*), que no filme interpretam alunos.

Fun fact: a escola Welton não existe; as cenas foram filmadas principalmente na St. Andrew’s School, em Delaware, EUA.
(*) Sim, é o “chocho” do Wilson na série Dr. House.


quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Advento 2025 - 17/24 - The Bucket List (2007)

The Bucket List (2007) 

Rob Reiner, falecido recentemente, ganhou fama como ator na série All in the Family (anos 70). No entanto, nas décadas seguintes viria a destacar-se sobretudo como realizador, construindo uma carreira notável com um conjunto de filmes bem-sucedidos em vários géneros — drama, comédia, terror, entre outros. Eis alguns dos títulos mais marcantes da sua filmografia:

  • This Is Spinal Tap (1984)
  • The Sure Thing (1985)
  • Stand by Me (1986)
  • The Princess Bride (1987)
  • Misery (1990)
  • A Few Good Men (1992)
  • Ghosts of Mississippi (1996)

A partir de meados dos anos 90, a sua carreira deixou de ser tão pujante. Ainda assim, gostaria de sugerir um filme de 2007: The Bucket List.

A temática central do filme é a morte, mas abordada de forma descontraída e cómica, sem deixar de lado um certo dramatismo — um verdadeiro feel-good movie com um travo melancólico. Rob Reiner contou com dois atores que dispensam apresentações: Jack Nicholson e Morgan Freeman, que interpretam dois doentes terminais com cancro. Ao conhecerem-se na fase final das suas vidas, desenvolvem uma amizade improvável e passam a discutir — e a viver — a melhor forma de aproveitar os seus derradeiros momentos.

É um filme divertido, com bons diálogos, que vale claramente a pena ver.

A morte é algo que me assusta, não tanto pelo facto de poder ser dolorosa ou não, mas sobretudo por não saber o que acontece a seguir. Na minha ótica, depois de morrermos, existem três hipóteses:

  1. Não se passa mais nada: voltamos a ser pó. As nossas memórias, a alma e os sentimentos perdem-se para sempre.
  2. Vamos para um sítio pior: uma espécie de inferno, para junto do nosso amigo Lúcifer, a brincar um pouco com o fogo.
  3. Vamos para um sítio melhor: algo semelhante a um céu com nuvens de algodão-doce e cascatas de chocolate.

Enfim, grandes mentes debruçaram-se — e continuam a debruçar-se — sobre este tema todos os dias, e nenhuma conseguiu dar uma resposta universalmente aceite. Obviamente, não serei eu a dá-la. Mas fica a grande questão no ar: depois de morrer, morremos?

 

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Advento 2025 - 16/25 - Some Like It Hot (1959)

 Some Like it Hot (1959)

Ora, aí está um título extremamente sugestivo!  o prometido é devido e este artigo ( vá pseudo-artigo), vai ser dedicado a um dos temas que mais interessa aos homens, heterossexulmente falando, as mulheres. 

Se muitas mulheres conseguem com facilidade disfarçar o seu interesse por um ser do sexo masculino, já o homem tem sérias dificuldades em ser discreto. Pegando numa analogia piscatória, a mulher pesca com uma cana, pacientemente esperando que o peixe morda o anzol, enquanto o homem pratica a pesca de arrastão, lança a rede em direcção a todos os peixes graúdos e do seu agrado esperando apanhar o maior número possível. Mas muitas vezes ao contrário que se possa pensar, a pesca com uma cana consegue ser mais eficaz. Pois se o peixe que picar for de fraca qualidade, pode sempre ser de novo atirado ao mar. Enquanto que no arrastão a selecção por vezes é feita de forma deficiente, a probabilidade de haver peixe mau na rede é elevada, já para não referir que o melhor peixe pode rabiar para fora da rede. 

O homem viu evoluir o seu gosto pelo tipo de mulher que aprecia, ao longo dos séculos. Se antigamente, gordura era formosura, nos dias de hoje magreza é beleza. Claro que há gostos para tudo! Mas é aqui que entra o título deste post. Some Like it Hot é um filme de 1959, realizado por Billy Wilder, com os enormes Tony Curtis e Jack Lemmon e a incomparável Marilyn Monroe. Actriz que tinha formas bem arredondadas, não sendo gorda não era propriamente um esqueleto. Era equilibrada, contudo neste filme penso que até estaria ligeiramente fortezinha.  É um filme muito engraçado, que é uma caricatura do cortejamento do homem dos anos 60, à mulher e toda a dança nupcial envolvente. O filme tem um facto curioso, pois é dos primeiros em que grandes actores fazem de travestis. Alguns rejeitaram o papel, por não acharem digno o suficiente. Por isto e por muito mais, vale a pena ver, trata-se de uma excelente comédia, que reflecte o que disse antes, o homem não pode ver um rabo de saias que vai logo à pesca. 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Advento 2025 - 15/24 - Gremlins

Gremlins  (1984)

Vivia eu a minha pré-adolescência, quando me cruzei pela primeira vez com este filme de Joe Dante, Gremlins. Nessa altura vi mais uma ou outra vez a película, mas já não me recordava ao certo de todos os pormenores. Para efeitos de calendário de advento e, sendo que a ação do filme decorre no Natal, resolvi revê-lo.

Já pouco me lembrava da história, contudo recordava-me perfeitamente de uma coisa. Havia três regras que se tinham de respeitar para que os Gremlins não causassem problemas:

1. Não expô-los a luzes fortes

2. Não os molhar com água

3. Não os alimentar depois da meia-noite.

Para quem não é desse tempo, ou simplesmente nunca viu nenhum dos dois filmes da série, os Gremlins eram um género de macaquinhos adoráveis. Não resistiam a luzes fortes. Se os molhassem multiplicavam-se. Mas o pior era quando os alimentavam depois da meia-noite. Se estes macaquinhos adoráveis comessem depois da hora estipulada ficavam perversos, transformando-se em horríveis monstros.


Como com a idade vamos ficando picuinhas, há uma das regras dos Gremlins que me causa confusão. Que é a que diz respeito, ao facto de eles não se poderem alimentar depois da meia-noite. É uma regra que está incompleta e sendo assim pode criar bastantes dúvidas. Em primeiro lugar, é nos dito que estes animaizinhos não se podem alimentar depois da meia-noite, mas não nos é dito quando termina o período de jejum. Não sabemos a partir de que horas podemos voltar a alimentar os bichos. A partir das 6h da manhã? A partir das 11? Ao meio-dia tecnicamente é depois da meia-noite, ainda não lhe podemos dar comida? Pois é um problema sem resposta. 

Outra questão relativamente a este aspecto, diz respeito à localização do Gremlin. A história passa-se nos Estados Unidos, os Gremlins têm o seu relógio certo por esse local. Mas e se viajarem? Por exemplo, se eu tiver um Gremlin e o trouxer para Portugal. A até que horas o posso alimentar? Até à meia-noite local ou até à meia.noite dos USA? É porque quando é meia-noite nos USA, em Portugal são pelo menos 5h da manhã. 

O último problema relacionado com este tópico diz respeito à mudança de horário. Como sabem para cada período do ano existe um horário. O horário de Verão e o horário de Inverno. Será que os Gremlins acertam automaticamente a sua hora limite de alimentação? Ou tem um horário fixo? De Inverno podem alimentar-se até a meia-noite, mas no verão podem alimentar-se até à uma da manhã?  

O meu objectivo com esta brincadeira foi por a nu o problema da importância da completude das regras. No nosso dia-a-dia, quando as leis ou as regras não são claras, muitos problemas podem aparecer e podemos ser tramados por um Gremlin qualquer!

domingo, 14 de dezembro de 2025

Advento 2025 - 14/25 - [REC] (2007)

 [REC] (2007)

Este calendário de advento está muito tétrico e… vai continuar.

REC é um filme de terror espanhol, realizado por Jaume Balagueró e Paco Plaza, muito ao estilo de The Blair Witch Project, utilizando a técnica de found footage.

O espetador é desafiado a acompanhar a jornalista Ângela Vidal (Manuela Velasco) e o seu cameraman Pablo (Pablo Rosso) numa reportagem aparentemente banal a um quartel de bombeiros. Quando a sirene toca para atender uma ocorrência num prédio residencial, a equipa de reportagem segue com os bombeiros. Tudo decorre de forma ligeira e amistosa até que, ao chegarem ao edifício, se deparam com acontecimentos bizarros e alarmantes. O terror vai começar!

O filme é inteiramente rodado na perspetiva da câmara do repórter de imagem, Pablo (estilo POV), o que transmite ao espetador a sensação de estar presente na ação, intensificando os sentimentos de claustrofobia e angústia.

REC foi um grande sucesso, tornando-se um filme de culto e inspirando várias obras do mesmo género. Teve sequelas, embora nenhuma tenha alcançado o impacto e a relevância do original.

Um aspeto que adoro neste filme é a sua duração: apenas uma hora e dezoito minutos, tempo suficiente para encher as fraldas...

Fun fact: o filme foi rodado em locais reais; não foi construído qualquer cenário especificamente para as filmagens

sábado, 13 de dezembro de 2025

Advento 2025 – 13/24 – Sinners (2025)

Sinners (2025)

Já dizia a cantilena: se um Michael B. Jordan encanta muita gente, dois Michael B. Jordan encantam muito mais…

Sinners é mais um filme que marca a colaboração entre o realizador Ryan Coogler e Michael B. Jordan, depois de Creed e Black Panther. Desta vez, a narrativa centra-se em dois irmãos gémeos, Smoke e Stack — ambos interpretados por Jordan — com um passado turbulento ligado ao mundo do crime. Em plena Grande Depressão, após vários anos em Chicago, regressam à sua cidade natal com o objetivo de montar um clube de música blues.

Compram um espaço, contratam músicos reconhecidos e abrem um clube que pretende ser um verdadeiro grito de revolução cultural. Algumas rivalidades aqui e ali vão apimentando a narrativa, tudo parece relativamente banal… até que a noite cai…
Como devem ter percebido, as reticências são um alerta para um volte-face narrativo: quando o filme parece seguir um determinado caminho, muda abruptamente de direção, chegando mesmo a alterar o seu género.

Destaque absoluto para a música, o verdadeiro coração do filme, com um papel fundamental na ligação entre as personagens e na própria construção do espaço e do tempo da história.

Como diria Sócrates, Sinners é porreiro, pá!

Fun fact: muitas das performances musicais foram gravadas ao vivo no set, com os membros do elenco a tocar e a cantar em conjunto com músicos de blues profissionais.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Advento 2025 - 12/24 - Kill Bill Vol.2 (2004)

 Kill Bill Vol 2 (2004)

O Bill (David Carradine) é uma verdadeiro biltre e Beatrixx (Uma Thurman) não é nada Kidda, até lhe chamam Black Mamba (*). Aliás, todos os envolvidos nesta história de vingança são feios, porcos e maus. É um filme que dispensa apresentações, ao melhor estilo de Tarantino, com sangue, violência, bandas sonoras orelhudas, diálogos bizarros e muitas referências a filmes do passado (ex: Por um Punhado de Dólares).  


Fun Fact: Em Reservoir Dogs (1992), a personagem de Michael Madsen tenta matar um polícia, jogando-lhe com um jerrycan de gasolina em cima, com a intenção de queimá-lo vivo. Neste filme, o mesmo jerrycan gasolina pode ser visto na rolote de Budd (Michael Madsen), numa cena em que a Noiva (Uma Thurman) tenta entrar.

(*) – Era também a alcunha de Kobe Bryant, antigo jogador da NBA.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Advento 2025 - 11/24 - Weapons (2025)

Weapons (2025)

Quem diz que o melhor do mundo são as crianças precisa de ver Weapons de Zach Cregger…Aqui há canalha (*) a dar com um pau, a querer dar com um pau e a levar com pau… Um filme de terror (light como a época natalícia aconselha), com mistério e vários salpicos cómicos. Talvez um dos melhores filmes do género deste ano.

Fun Fact: De acordo com a revista Time Out, nos dias mais movimentados de rodagem do filme, a produção recebia mais de 170 crianças. Coordenadores de trabalho infantil foram contratados para manter as crianças entretidas/ocupadas quando não estavam a filmar.

(*) – Regionalismo que significa garotada






quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Advento 2025 - 10/2025 - O Agente Secreto (2025)

 O Agente Secreto (2025)

Pelo segundo ano consecutivo, o cinema brasileiro apresenta um filme com tração suficiente para ter um bom desempenho na época de prémios. No ano passado foi Ainda Estou Aqui, de Walter Moreira Salles Jr.; desta feita, o filme é O Agente Secreto (*) de Kleber Mendonça.
É daqueles filmes que deve — e merece — ser visto no cinema para se aproveitar a viagem, sem distrações. Destaco a caracterização do Brasil dos anos 70, que é sublime. Nota-se um extremo cuidado em compor cada elemento cénico: objetos simples, automóveis, música, vestuário das personagens, etc. As próprias personagens parecem transportar a missão de representar a sociedade da altura. São um pouco caricaturais, o que ajuda a perceber o exato papel de cada uma na história. Existem as pessoas comuns, os ativistas, os polícias e políticos corruptos, etc.


Wagner Moura é um “tropa de elite” da representação: nunca vai mal e, com este desempenho, “arrisca-se” a ser nomeado para o Oscar de melhor ator.

(*) Na sessão de cinema a que fui, as duas miúdas que estavam no banco à minha frente vieram claramente ao engano. Devem ter pensado que Agente Secreto seria um filme de ação e não um filme em que é necessário estar atento, sendo impossível acompanhar a narrativa ao mesmo tempo que se olha para o telemóvel. Obviamente, saíram da sala muito antes de o filme terminar. Gen Z…

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Advento 2025 - 9/24 - O Grande Ditador (1940)

O Grande Ditador (1940)

Nos tempos que correm, rever um filme como O Grande Ditador, de Charles Chaplin, é um pouco assustador, porque fica a sensação de que a história está prestes a repetir-se. Quando populistas com ambições imperialistas chegam ao poder em potências económicas e/ou bélicas, torna-se mais provável o escalar de conflitos militares de larga escala e o ataque a minorias. Aconteceu nos anos 30/40 do século passado e parece estar a acontecer agora.


Assim, O Grande Ditador é uma sátira intemporal ao modus operandi dos ditadores: culto da personalidade, investimento militar, falta de empatia, censura, corrupção e, em certa medida, loucura. Por este motivo, parece ser uma excelente altura para ver ou rever o filme, porque qualquer semelhança com a realidade atual talvez não seja mera coincidência.

Fun fact: Adolf Hitler proibiu o filme na Alemanha e em todos os países ocupados pelos nazis. Todavia e alegadamente, a curiosidade falou mais alto, levando o ditador a mandar vir uma cópia através de Portugal. Segundo alguns relatos, ele viu o filme duas vezes, mas nada ficou registado quanto à sua reacção. Dizem que terá rido apenas uma vez — durante a cena da “cadeira de barbeiro”, entre Hynkel e Napaloni. Charles Chaplin terá comentado: “Daria qualquer coisa para saber o que ele pensou.” A Alemanha Ocidental suspendeu finalmente a proibição em 1958. 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Advento 2025 - 8/24 - Lavagante (2025)

 Lavagante (2025)

António-Pedro Vasconcelos foi uma personalidade incontornável do cinema português. Não apenas pelas obras que realizou — O Lugar do Morto (1984), Jaime (1999), Call Girl (2007) ou Os Imortais (2003) — mas também pelo contributo que, ao longo de décadas, procurou dar ao ecossistema cinematográfico nacional. Criou, presidiu e dinamizou diversas associações culturais ligadas à sétima arte. Foi colunista e crítico. Foi professor e um pedagogo de cinema. Respirava cinema e era um talentoso contador de histórias. O seu legado, espero e acredito, jamais será olvidado.



Lavagante foi, muito provavelmente, o seu último grande projeto. Infelizmente, Vasconcelos não chegou a concretizá-lo devido à sua morte em 2024. Todavia, Mário Barroso pegou no seu argumento — inspirado no livro de José Cardoso Pires — e conseguiu dar-lhe vida no grande ecrã.

Aspetos positivos:

  • O retrato histórico e político que oferece ao espetador, reforçado pela opção estética do preto e branco, que acentua o tom melancólico de um Portugal preso à ditadura.
  • O desempenho dos atores, com destaque para a inesperada performance de Júlia Palha como femme fatale.

Aspetos negativos:

  • Em alguns momentos, o ritmo revela-se demasiado lento, com diálogos extensos que denunciam certa fidelidade excessiva à vertente literária.
  • O filme parece-me ter sofrido de alguma insuficiência orçamental, o que limita sempre opções criativas. Infelizmente, é algo muito comum no cinema nacional.

Em suma, Lavagante parece-me uma digna homenagem à memória de António-Pedro Vasconcelos.

(*) Tinha ainda outra grande virtude: era um adepto fervoroso do Sport Lisboa e Benfica. Alguns de vós talvez considerem esta parte discutível…

domingo, 7 de dezembro de 2025

Advento 2025 - 7/24 - O Silêncio dos Inocentes (1991)

O Silêncio dos Inocentes (1991)

Está na hora de acrescentar clássicos a este calendário de advento. O filme de hoje é O Silêncio dos Inocentes, de Jonathan Demme, um dos melhores thrillers psicológicos dos anos 90.

A estrutura narrativa de um policial tradicional, extremamente eficaz na criação de suspense, combina-se com as magníficas interpretações de Anthony Hopkins — talvez o papel mais icónico da sua carreira — e de Jodie Foster. A química entre ambos eleva o drama psicológico a outro nível e é um dos fatores decisivos para o impacto duradouro do filme.

Outro elemento que intensifica o tom do filme é o facto de a personagem central, Dr. Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), estar presa por canibalismo. No contexto da narrativa, este aspeto tem uma função ambivalente: tanto contribui para a tensão e ameaça latente em várias cenas, como é usado pontualmente com um toque de humor negro, como nesta famosa fala:

Hannibal Lecter: “Um recenseador uma vez tentou testar-me. Comi-lhe o fígado com favas e um bom Chianti.”

Anthony Hopkins incorpora Hannibal Lecter de forma absolutamente marcante, criando um dos grandes vilões da história do cinema — uma figura tão inquietante que rivaliza com ícones do terror como Freddy Krueger ou o palhaço Pennywise (It).


Fun Fact: Para preparar o papel, Hopkins estudou vários casos reais de criminosos violentos e chegou a visitar prisões e assistir a julgamentos, procurando compreender padrões de comportamento que pudesse integrar subtilmente na interpretação.

 

sábado, 6 de dezembro de 2025

Advento 2025 - 6/24 - John Candy: I Like Me (2025)

 John Candy: I Like Me (2025)

Nos últimos tempos têm surgido documentários sobre figuras do cinema, música ou desporto que mais não são do que exercícios de propaganda, pobres em profundidade biográfica e demasiado controlados na forma como apresentam os acontecimentos. Alguns parecem episódios  anhosos do Alta Definição, só faltando mesmo o Daniel Oliveira, aquele que faz chorar. Felizmente, John Candy: I Like Me, realizado por Colin Hanks e produzido por Ryan Reynolds, foge a essa tendência.



A combinação de depoimentos de amigos, colegas e familiares, juntamente com imagens de arquivo e vídeos caseiros, traça um retrato vívido da personalidade de John Candy. Um ator canadiano de coração enorme, mas frágil, que vivia numa insegurança constante apesar do seu talento natural para fazer rir. A morte prematura do pai marcou-o profundamente, deixando-lhe o temor persistente de que teria um destino semelhante. Infelizmente, acabou por se concretizar: John Candy faleceu com apenas 44 anos, embora — como tantas figuras anteriores aos anos 2000 — parecesse ter mais idade do que aparentava.

Candy foi grande em todos os sentidos. A sua corpulência era simultaneamente marca distintiva e maldição. Sempre que emagrecia, surgiam menos oportunidades de trabalho, porque o público queria o “Candy rechonchudo”. No entanto, todo aquele peso em excesso era tudo menos saudável.

Da sua filmografia, lembro-me sobretudo de Spaceballs, a comédia de Mel Brooks, Splash e Férias em Família. Durante muitos anos, para mim, John Candy era apenas o simpático músico de polca que dá boleia à mãe de Kevin em Sozinho em Casa. Não imaginava que Candy e Catherine O’Hara tinham sido parceiros de comédia no “Saturday Night Live” canadiano, o Second City.

Fun Fact: Além de ator e realizador, John Candy chegou a ser dono de uma equipa de futebol canadiano, os Toronto Argonauts, tendo mesmo conquistado um campeonato enquanto proprietário.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Advento 2025 - 5/25 - As Aventuras de Tintim (2011)

 As Aventuras de Tintim (2011)

Não há Natal sem uma dose considerável de doces e filmes de animação. Assim, hoje resolvi avançar com um herói de animação clássico. 

O Tintim, cuja poupa não é nada poupada, é uma personagem de BD sobejamente conhecida, criada por Hergé. A sua estreia terá sido numa publicação juvenil belga, no ano de 1929, e desde então as aventuras do jovem repórter e do seu astuto cão, Milu (*), chegaram a diferentes gerações através de vários formatos. Obviamente que a BD é icónica; no entanto, o meu contacto principal com Tintim foi através de uma série franco-canadiana que passou na RTP, algures nos anos 90. O traçado e o aspeto das personagens, assim como as histórias, eram relativamente fiéis aos capítulos da BD. Adorava o tema de abertura, sempre que o oiço, tenho um orgasmo de nostalgia. Fiquem com o vídeo:


Em 2011, Spielberg — que adquiriu os direitos de Tintim em 1983 — realizou As Aventuras de Tintim. Contou na produção com Peter Jackson, e o esforço destes dois senhores do cinema resultou num filme de animação moderno e deslumbrante. Para tal, muito contribuíram a técnica de captura de movimento (usada no Avatar e no Polar Express), a iluminação e o design visual extremamente detalhado, não esquecendo, claro, a banda sonora de John Williams.

Ver este filme foi como visitar um velho amigo de infância. Apreciei saber que continua com os tintins no sítio (peço desculpa), sempre destemido, a viver aventuras com o auxílio do seu Milu e o desauxílio do desastrado e borrachola Capitão Haddock.

(*) A raça do Milu é Fox Terrier. No entanto, parece-se com um Schnauzer Mini. Eu sei, porque tenho um, e quando vou na rua com ele não é raro ouvir: “Lá vai o cão do Tintim.” Se tivessem feito a coleção de cromos de cães do Bollycao, saberiam a diferença e não diziam barbaridades. Hum!

 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Advento 2025 - 4/25 - Nem Guerra Nem Paz (1975)

Nem Guerra Nem Paz (1975)

Acredito que nem toda a gente aprecie o humor de Woody Allen, ainda menos numa altura em que o realizador está caído em desgraça (*). No entanto, para os apreciadores, Nem Guerra Nem Paz é um espécime obrigatório.

Woody Allen desempenha o papel de Boris Grushenko, um soldado medroso, desajeitado e com pouca apetência para a guerra, ao contrário dos irmãos musculados e destemidos. Boris ama a prima Sonja, interpretada por Diane Keaton, que por sua vez ama um dos irmãos de Boris, algo que o deixa desorientado. Estalando a guerra e as invasões napoleónicas, Boris é chamado a combater e aí é que as peripécias começam.

Mais do que a história, o que dá brilho a este filme são as tiradas magníficas de Woody Allen. Vou destacar dois exemplos: 1.A determinada altura Boris envolve-se com a condessa Alexandrovna. Após uma noite juntos decorre o seguinte diálogo.

Condessa: És o melhor amante que já tive. Boris: Pois é, eu pratico muito sozinho.

Mais à frente, numa discussão sobre o propósito da vida.

Boris: Ah, se Deus me desse um sinal. Se Ele ao menos falasse comigo uma vez. Qualquer coisa. Uma frase. Duas palavras. Se Ele ao menos tossisse.

Sonja: Claro que existe Deus! Fomos feitos à Sua imagem!

Boris: Achas que eu fui feito à imagem de Deus? Olha para mim. Achas que Ele usa óculos?

Sonja: Não com essa armação.

Fun Fact: Nem Guerra nem Paz é uma sátira aos romances russos, especialmente O Guerra e Paz do Tolstoi.

(*) É mau para qualquer um cair em desgraça, mas deve ser particularmente triste para quem vive do humor. A palavra desgraça, numa análise Abel Xaveriana , é a junção do prefixo Des, que pode significar negação e a palavra graça. E um humorista sem graça, é um humorista sem alma.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Calendário de Avento 2025 - 3/24 - A Vida de Chuck (2024)

A Vida de Chuck (2024)

Não há muito tempo, li um livro baseado numa entrevista de João Francisco Gomes a Ricardo Araújo Pereira, cujo título é “O que é que eu estou aqui a fazer?”. É uma conversa deliciosa, sobre a vida depois da morte, a posição da igreja ao longo dos tempos e como o humor pode ser visto como um balsamo para os ateus que acreditam que a morte é o ponto final sem parágrafo da existência humana.

Ora, esta temática está muito em linha com a que está embutida em A Vida de Chuck, filme baseado no livro homónimo de Stephen King. Quando o fim do mundo está próximo e é de conhecimento geral que os cavaleiros do apocalipse estão a chegar, valerá a pena continuar a estudar, a trabalhar, a viver (a sofrer pelo Benfica)? Numa ordem cronológica inversa, o filme começa precisamente com o mundo a terminar numa espécie de contagem decrescente para o seu fim. Contagem essa alinhada com a morte de Chuck (Tom Hiddleston), um doente terminal de cancro. Numa espécie de analepse narrativa, percorremos alguns momentos da Vida de Chuck e como abdicou do seu sonho de dançar para se dedicar ao rígido mundo da contabilidade. (*) Uma das melhores cenas do filme, é precisamente quando Chuck se recorda do seu prazer de dançar, aproveito para sugerir que procurem no youtube.


É realmente uma boa reflexão da vida e da morte, do nosso propósito, das decisões que tomamos na vida e do seu impacto, da nossa pequenez perante um universo obscuro.

Para terminar, deixo o alerta que estamos perante uma obra de Mike Flanagan, mas baseado num conto de Stephen King (If it Bleeds), portanto o espetador pode contar com uma história onde de repente o sobrenatural aparece na teia narrativa.

 (*) O sonho é sempre de alguém que quer ser artista, futebolista ou cantor. Para quando a história de um dançarino ou de um cantor, que nunca alcançou o sonho de criança de ser contabilista ou fiscal das finanças?

Fun Fact: O filho do realizador Mike Flanagan interpreta Chuck na idade de 7 anos.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Calendário de Advento 2025 - 2/24 - As Noites de Cabiria (1957)

Noites de Cabíria (1957)

A prostituição não é propriamente um tema muito natalício (*), mas não podia deixar de incluir nesta lista As Noites de Cabíria, um filme que vi recentemente realizado por Federico Fellini e produzido por Dino De Laurentiis.


Cabíria é uma prostituta que é constantemente enganada, maltratada e humilhada. Todavia, com uma certa ingenuidade e optimismo, nunca deixa de acreditar que a vida pode dar a volta. Esta crença de Cabíria é traduzida no filme através de alguns elementos mais ou menos subliminares. Por exemplo, Cabíria, em várias cenas, aparece a caminhar, dando a impressão de uma procura incessante por um futuro melhor e ao mesmo tempo, realça a instabilidade em que vive.

Apesar das agruras da vida e da sua profissão de má fama (apesar de ser a mais antiga), põe acima de tudo a sua honestidade — algo que contrasta com os homens, mesmo os de ar finório, que a trapaceiam. Os diabos, muitas vezes, vestem Prada.

Giulietta Masina, como Cabíria, tem um desempenho antológico, muitas vezes comparado ao de Charlie Chaplin, tendo em conta toda a sua expressividade e humor físico. O tom infantil e puro que dá à personagem, ajuda a fazer o contraste perfeito com a hipocrisia dos homens e da sociedade.

Fun Fact: o filme ganhou o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro por apenas um voto.

(*) - Não se ponham com bocas porcas, sff, do tipo: não é muito natalício se não tiverem mil paus. (nível javali de javardice).   

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Calendarário de Advento 2025 - 1/24 - Minority Report (2002)

Numa altura em que a inteligência artificial anda mais do que na berra (*), resolvi revisitar um filme que, na minha memória, tinha elementos de inteligência artificial futurista (**). O filme é Minority Report, de 2002, realizado por Steven Spielberg, com Tom Cruise no papel principal. A história centra-se num departamento judiciário que, num universo futurista, consegue antecipar assassinatos que ainda não ocorreram, prendendo os criminosos mesmo antes de estes cometerem os crimes. A antecipação dos crimes é possível através de três humanos (precogs) com poderes de adivinhação e de supercomputadores que traduzem as suas visões em imagens, pistas e nos nomes das vítimas e dos assassinos. No fundo, é um mecanismo de prever o destino dos envolvidos.


Mas será que este sistema é infalível? Ou haverá margem para o livre-arbítrio tomar o lugar do determinismo? E será que, se alguém souber o que vai acontecer consigo no futuro, atuará da mesma forma? E deve-se punir alguém que ainda não cometeu um crime? E deverá a humanidade estar disposta a uma vigilância constante e invasiva? Todas estas questões tornam este filme num interessante exercício filosófico.

Por fim, o aspeto visual tem um tom frio e granulado, o que realça a índole futurista do argumento. Os efeitos especiais, esses, é que não envelheceram muito bem.

Fun fact: os nomes dos três “precogs” são os de três escritores de policiais/mistério: Dashiell Hammett, Sir Arthur Conan Doyle e Agatha Christie.

(*) Não sabia — mas a tempo fui informar-me — que “estar na berra”, além de querer dizer estar na moda, também pode significar o estado de cio de um animal. Notável o significado alternativo e engraçado: “estar na berra” ser uma expressão completamente fora da berra, digna apenas de ser proferida por um carcaças velhas como eu.

(**) Na verdade, é mais inteligência humana sobrenatural, mas em termos de poder de previsão parece algo que a inteligência artificial poderá, de alguma forma, fazer no futuro.