domingo, 25 de julho de 2021

#25 Come and see (1985)

Come and See (1985)

Come and see é um filme de 1985 da autoria de Elem Klimov, sobre os horrores cometidos pelos Nazis durante a Segunda Guerra Mundial, neste caso na Bielorússia. É daquelas obras que vi, sofri, adorei, mas que nunca mais vou voltar a ver. Porquê? Porque é de uma violência psicológica difícil de descrever. Mexeu-me mesmo as entranhas, julgo que acabei o filme com o fígado no lugar dos rins.


Durante a segunda grande guerra, Flyora Gayshun (Aleksey Kravchenko) é um jovem Bielorrusso que encontra uma espingarda durante umas escavações e resolve alistar-se à resistência contra os Nazis, algo que a sua mãe não aprova. A dada altura perde-se do seu pelotão e fica entregue à sua sorte. Deambula de aldeia em aldeia, testemunhando na primeira pessoa as atrocidades que vão sendo cometidas pelos Nazis. Os alemães deixam miséria por onde passam e não satisfeitos com as pilhagens, humilham, brincam e por fim matam todos civis de uma forma horrível… De que forma? Queimando-os vivos. Nem as crianças escapam. E porquê? Puro sadismo, justificado por uma insana vontade de consagrar a raça ariana e a Alemanha perante todos aqueles que são diferentes. Flyora por milagre escapa sempre ileso de um fim trágico. Ileso fisicamente, mas a sua alma está condenada a sequelas difíceis de superar.


Klimov fez um extraordinário trabalho a captar o horror e o drama através da sua lente, conseguindo passar ao espetador uma sensação real de um ambiente hostil e tenebroso. A fotografia é claramente um dos pontos fortes do filme, com sequências de câmara ao ombro muito interessantes.

A história tem salpicos de situações de humor e surrealismo que acabam por funcionar como escapes a uma narrativa que tem picos elevados de tensão. E por fim, uma nota para o desempenho de Kravchenko na pele do protagonista. É simplesmente memorável a forma como consegue oscilar entre momentos mais cómicos e momentos de uma violência e dramatismos extremos.


É precisa coragem para ver, mas na minha opinião é um dos melhores filmes de guerra de todos os tempos.

Fun Fact (desta vez pouco fun): No epílogo do filme é apresentado um dado histórico – “Os Nazis queimaram 628 aldeias bielorrussas com as pessoas lá dentro.

domingo, 11 de julho de 2021

#24 Superman (1978)

Durante esta semana partiu Richard Donner, nome incontornável do cinema americano das últimas décadas. A sua carreira propriamente dita inicia-se na transição entre os anos 50 e 60, altura em que realizou filmes e séries, como por exemplo alguns episódios de Twilight Zone (ou como ficou conhecida em Portugal, a Quinta Dimensão). No entanto, foi a partir de meados dos anos 70 que a sua carreira começou a coleccionar títulos que marcaram gerações e a cultura popular americana. Em 1976 realiza o seu primeiro filme de relevo, The Omen e dois anos depois dá vida na tela a Superman. Nos anos 80 lança Superman II, The Goonies e Leathal Weapon, saga que viria a ter mais 3 filmes. Que streak impressionante. A partir das anos 90, a sua carreira enquanto realizador começa a abrandar, destacando-se apenas Maverick. 


The Superman (1978)

A personagem de Superman dispensa apresentações, a par de Batman é o super-herói mais conhecido da DC Comics. Por isso, a responsabilidade de adaptar a BD ao cinema era enorme. Os produtores abordaram alguns realizadores na berra na altura. Steven Spielberg, Geoge Lucas, William Fridkin entre outros foram alguns dos abordados, mas uns recusaram e outros não tinham disponibilidade. A escolha acabou por recair em Richard Donner, após os produtores assistirem a The Omen (1976). Quando foi contratado, o guião já havia sido escrito por Mario Puzo, mas como Donner não se sentia confortável com a história, contratou Tom Mankiewicz para o rescrever. Se a escolha do produtor e a definição do argumento não foram fáceis, pior ainda foi o processo de selecção do actor que viria a encarnar Super-Homem. Entre os quais, Robert Redford e Paul Newman recusaram o papel e Sylester Stalone ofereceu-se mas neste caso foi este o recusado. A dada altura o desespero era tal que chegaram a abordar o dentista da esposa de um dos produtores para fazer umas audições. Finalmente, Christopher Reeve que já havia sugerido fez um teste e acabou por ficar com o papel. Como não tinha o físico adequado à personagem, teve de fazer treinos duríssimos para ficar com um caparro de encher o olho e, já agora, o fato.


O filme começa com uma sequência bastante inspiradora, apesar de ser claramente inspirada na cena de abertura do primeiro filme da Guerra das Estrelas, até a música é do mesmo autor, John Williams. 

A primeira parte do filme (enfadonha) relata ao espectador a origem do Superman e a razão pela qual foi enviado do seu planeta natal (Krypton) em direcção à terra, momentos antes deste explodir . Foi a forma que o seu pai, Jor-El (Marlon Brando), encontrou para o salvar. A partir daqui acompanhamos a vida do Superman, a maior parte do tempo escondido atrás da figura do trapalhão Clark Kent, desde a sua juventude até ingressar no Jornal Daily Planet, onde conhece Lois Lane (Margot Kidder).

Apesar de ter algumas cenas/aspectos interessantes, como por exemplo, a cena em que apanha uma bala com a mão para salvar Lane, tem também outros absurdos e que não fazem qualquer sentido. Vou apresentar algumas das minhas irritações (contem spoils): 

- Para começar ainda em garoto, quando cai na terra vindo do espaço e é encontrado pelo casal Kent, levanta uma carrinha de caixa aberta com a mão. Ora em vez deste casal fugir a sete pés por estar na presença de um Alien ou chamar as autoridades, não. Resolvem adoptar o miúdo, dizendo que é de um familiar longínquo. E a segurança social não diz nada!?

- Já enquanto jornalista do Daily Planet, Clark Kent não utiliza mais do que um par de óculos para esconder a sua identidade. Algo meio ridículo principalmente para Lois Lane. Ela devia averiguar se não tem cataratas, pois é impossível não ver que o seu colega de trabalho é o mesmo que a está sempre a salvar. 

- Por falar em Lois Lane, tudo acontece à mulher. Tem um acidente de helicóptero, momento em que é salva pela primeira vez pelo Superman. Depois é assaltada e só não leva com uma bala no bucho porque o Super não deixa. E já perto do fim do filme, enquanto conduzia, ocorre um terramoto em que o seu carro é engolido por uma falha tectónica. Lois, vá ao professor Karamba tratar do mau olhado (e aqui o mau olhado tem dois sentidos...)

- Por fim, a roupa do Superman é icónica. Mas a capa serve para quêP Para além de não dar jeito para esconder debaixo de uma camisa, pode perfeitamente ficar presa em portas ou elevadores e atrapalhar algum salvamento do planeta. Para não falar que tem ar de se enxovalhar com muita facilidade. 

Irritações à parte, o filme tem algo de mágico. Só assim pode ter tido o estrondoso sucesso que teve e permanecido na imaginário de quem o viu por tanto tempo. Foi talvez o primeiro filme de super-heróis a deixar uma marca no cinema. Talvez porque se apresentou no ecrã um homem que voa e tem uma força extraordinária, poderes que qualquer ser humano gostaria de algum dia ter. Anos mais tarde e ironia das ironias, Christopher Reeve, o actor que vestiu a capa de Superman, acabaria por ficar paraplégico após uma queda de um cavalo. 


Fun Fact: A ideia de utilizar o Símbolo com um"S" nas roupas de Jor-El, semelhantes às do fato do Super-Homem, partiu do próprio Marlon Brando.