sábado, 18 de julho de 2020

Ciclos - Stanley Kubrick - Full Metal Jacket

Sábado - Full Metal Jacket (1987)





Full Metal Jacket, obra de Kubrick sobre a guerra do Vietname (na verdade anti-guerra), é dos poucos filmes cujo título é tão poderoso em inglês como na sua tradução portuguesa, ainda por cima não sendo literal - Nascido para Matar. E de certa forma, até merecia dois títulos, porque a história apesar de sequencial, tem duas partes bem distintas. 



A primeira coincide com o momento da recruta de um pelotão de fuzileiros, constituído por jovens americanos de todas as raças e castas, que se preparam para entrar na guerra do Vietname. Na verdade preparam-se para algo que vai mudar as suas vidas para sempre. Na cena inicial, acima apresentada, pode-se assistir a estes aspirantes soldados que, com um ar inocente e jovial, rapam o cabelo. O que acaba por ser uma bela ilustração do que significa a preparação e a consequente ida para a guerra. A perda da inocência e o abandono momentâneo (ou às vezes definitivo) do quotidiano. A sua vida por alguns anos, tal como o seu cabelo, será rapada em nome de uma causa, que causa? Muitos destes jovens nunca souberam bem qual, mas foram em representação de uma bandeira, de uma pátria. 




Na recruta, os treinos, conduzidos por um austero (mas típico) Sargento Hartman (Lee Harmey, falecido em 2018), são agressivos com a finalidade de disciplinar estes jovens rapazes e prepará-los para cenários de conflito armado. No fundo o grande objectivo, além do treino militar, é arrancar à força estes jovens da adolescência e fazer deles homens disciplinados, até quando respiram. Neste pelotão destacam-se o anafado e pouco atlético, Leonard Lawrence (Vincent D'Onofrio), o que lhe valeu a atribuição do apelido de "Gomer Pyle" por parte de Hartman e J.T. Davis (Matthew Modine), praticamente o único amigo de Pyle e o palhacito do grupo, o que lhe valeu a alcunha de "Joker". Pyle após dificuldades iniciais encontra em Joker uma ajuda e consegue melhorar nos treinos e encontrar a sua vocação - o tiro sniper - em que se destaca dos demais. No entanto, depois de ter sido encontrado um Donut (artigo ilegal) nos pertences do Pyle, todo a sua unidade teve de pagar com exercícios físicos. Por causa desta situação, os restantes companheiros de pelotão passaram a odiar Pyle e este viu-se abandonado e excluído. Mergulhado num alheamento geral, a partir daqui a sua única obsessão passa a ser a sua sniper rifle, sentindo que esta arma é quase uma extensão natural do seu corpo. Até parece que ficou possuído pelo cântico que enaltece a importância da rifle (tradicional no exército americano), entoado a determinada altura do filme:



This is my rifle. There are many like it, but this one is mine.
My rifle is my best friend. It is my life. I must master it as I must master my life.
Without me, my rifle is useless. Without my rifle, I am useless. I must fire my rifle true. I must shoot straighter than my enemy who is trying to kill me. I must shoot him before he shoots me. I will. (*)

Esta primeira parte, para mim, contem dos melhores minutos da história do cinema que culminam numa cena climáx, cuja intensidade torna difícil a transição para a segunda parte, a guerra do Vietname propriamente dita. Não sendo mau cinema, a segunda parte não consegue atingir o patamar da primeira. Na minha opinião até fica ligeiramente abaixo de outros títulos da mesma década, Platoon, Apocalipse Now e The Deer Hunter, por exemplo). Todavia, a mensagem que passa também é clara, por muito e bom treino que um soldado tenha, nada prepara verdadeiramente um jovem/homem para uma guerra, muito menos quando esta não faz qualquer sentido.




Contudo, a qualidade da filmagem de Kubrick é inquestionável e transversal a todo o filme, mantendo como em outras das sua obras, os seus planos impecáveis e o seu movimento de câmara característico. É engraçado terminar este ciclo, com o primeiro filme que vi do realizador, há muitos anos numa sessão da RTP, ainda sem capacidade para perceber o que foi e o que implicou a Guerra do Vietname, mas já com a sensação de estar perante um grande filme. Felizmente, a minha opinião manteve-se ao longo dos anos, ainda mais depois de perceber o seu contexto histórico.


(*) Fun Fact: Na minha adolescência fui apreciador da banda de heavy metal Fear Factory e durante algum tempo, uma das músicas tinha uma passagem que me era familiar. Essa passagem vim a descobrir que era de Full Metal Jacket, precisamente a que referi anteriormente- #My Rifle is my best friend..." (a partir do 2min20seg). 
PS: Atenção esta música não deve estar ao alcance de crianças. 


Próximo Ciclo: Comédias dos anos 90.

domingo, 12 de julho de 2020

Ciclos - Stanley Kubrick - Barry Lyndon

6ª Feira - Barry Lyndon (1975)



Barry Lyndon é provavelmente o filme que transpira mais opulência na filmografia de Stanley Kubrick. Além dos palácios e locais de filmagem especialmente cuidados para retratar uma Inglaterra/Irlanda aristocrata do sex. XVIII, nota de destaque para o impressionante guarda-roupa. Fatiotas para todas as ocasiões, desde fatos e vestidos de gala para finos jantares, até fardas militares com todos os adereços adequados a qualquer patente. Para o realizador, estes elementos não são superficiais, antes pelo contrário, são elementos fundamentais para dar credibilidade à narrativa e contribuem para a magia do cinema: criar a ilusão ao espectador a sensação de estar na pele dos protagonistas, qualquer que seja a história, qualquer que seja a época. 






Apesar de toda a opulência dos cenários e guarda-roupa, da excelente fotografia (a luz é natural na grande maioria das cenas) e da magnífica banda sonora - ganhou 4 óscares, precisamente nestas categorias técnicas - o filme foi um fracasso comercial. Custou cerca de 11 milhões de dólares e apenas lucrou pouco mais de 200 mil euros. A narrativa lenta, a duração do filme (3h05m) e o facto de ser muito menos irreverente do que os dois filmes anteriores do realizador (Laranja Mecânica e Dr. Strangelove), provavelmente contribuíram para a menor aceitação por parte do grande público. No entanto e talvez por se aproximar mais ao "género de cinema europeu", tenha tido uma melhor recepção precisamente na Europa. Todavia, o tempo tem sido bom para esta obra, parece que tal como um bom vinho precisava de respirar, e hoje em dia figura em muitas listas de melhores filmes da história do cinema.


A narrativa, baseada no romance William Makeapeace Thackeray, conta a história de Redmond Barry (Ryan O'Neal). A sua juventude na Irlanda, a sua paixão pela prima (Gay Hamilton) e o duelo à pistola (*) com o seu noivo o Capitão Inglês John Quin (Leonard Rossiter); a fuga e a participação na guerra dos 7 anos, o ingresso do exército inglês e a deserção para o lado prussiano (**); a sua amizade e associação (basicamente ajuda nas batotas) com o jogador de cartas a dinheiro, Chevalier; e por fim, a sua relação com a mais que rica Lady Lyndon (Marisa Bereson). Resumidamente, a história retrata a ascensão e queda de um homem, que teve a virtude de aproveitar as oportunidades que a vida lhe foi dando e, após se tornar rico através do casamento com Lady Lyndon, a fraqueza de não conseguir resistir às tentações da luxúria e do jogo. 

(*) Algo que ajudaria a tornar a justiça mais eficiente seria resolver contendas processuais, em que não há acordo entre as partes, através de duelos ao pôr-do-sol, não com armas de fogo, mas usando por exemplo, pistolas de paint ball. 

(**)  A um covarde no exército inglês chamavam, pussy, no prussiano, prussy...


Por fim, destaque para a extraordinária banda sonora e para o título principal, Sarabande de George Friedrich Haendel, uma música que fica no ouvido e que é mais um complemento à opulência do próprio filme. É daquelas que se encrosta no ouvido e que não sai nem à lei da espátula.



Fun Fact:  A produção do filme teve de se mudar da Irlanda para Inglaterra, após Kubrick ter visto o seu nome na lista negra do I.R.A. devido à filmagem de soldados ingleses em solo irlandês.  

sábado, 4 de julho de 2020

Ciclos - Stanley Kubrick - The Shining

5ª Feira - The Shining (1980)


The Shining foi o filme de suspense/terror realizado por Kubrick em 1980, a seguir ao fracasso de bilheteira que foi Barry Lyndon (1975). Baseado num romance do produtivo Stephen King, esta obra retrata a história de Jack Torrance (Jack Nicholson), um professor e escritor recuperado de um problema de alcoolismo e da sua família: a sua mulher, Wendy Torrance (Shelley Duval) e o seu filho Danny (Danny Lloyd). 

Jack parece uma pessoa pacata que consegue um emprego como zelador do Overlook Hotel no Colorado, fechado e completamente isolado durante o Inverno. As condições que lhe são oferecidas permitem-lhe levar a sua mulher e o seu filho consigo, conseguindo ainda a tranquilidade necessária para escrever. No entanto, o Hotel está manchado por um crime macabro: no inverno anterior, o antigo zelador enlouqueceu e matou toda a sua família de forma violenta.

Quando a família chega ao Hotel, começa a perceber-se que Danny tem poderes sobrenaturais - a capacidade de visualizar episódios horrendos passados e a possibilidade de comunicar telepaticamente com outras pessoas. Nomeadamente, consegue comunicar com o cozinheiro do hotel, Dick Halloran (Scatman Crothers), que recebe a família e parece ter o mesmo tipo de poderes. A esta capacidade, Halloran apelida de Shining, referindo o seguinte:

"Some Places are like people, some shine and some don't". 

Esta frase enigmática pode, na minha opinião, ser usada para resumir o filme. Uma vez que a partir deste momento, Jack começa a enlouquecer e progressivamente torna-se agressivo, ficando a dúvida se por efeito de algum assombramento do Hotel ou se por ter caído de novo no vício do álcool. No meio da loucura em que mergulha, parece encarnar a pele do antigo zelador e inicia uma perseguição à sua mulher e filho. 

Na altura em que Stephen King escreveu o livro, encontrava-se ele próprio dependente do consumo de bebidas alcoólicas, pelo que a história tem um carácter, de certa forma biográfico. Por esse motivo, quando analisamos a narrativa ao pormenor, podemos vislumbrar várias camadas: um hotel assombrado e uma possessão vs. a violência doméstica e a destruição de uma família que o álcool pode desencadear. Apesar de tudo, King não terá ficado satisfeito com a adatpação de Shining ao grande ecrã tendo afirmado:

"The Shining is like a big, beautiful cadillac without engine inside it"

The Shining, sendo do género de terror, não é aquele típico filme em que se vêm constantemente litradas de sangue, vísceras a sair da barriga ou outro tipo de cenas violentas. Mais do que assustador (apesar de poder tornar as unhas num snack), é tenso e tem a capacidade de deixar o espectador desconfortável com o drama psicológico que se vai adensando. Kubrick consegue este propósito através de cenários e adereços pormenorizados, de uma fotografia que cria uma atmosfera misteriosa e uma banda sonora que eleva a tensão. Gosto particularmente da utilização da técnica de câmara móvel, como por exemplo, nas cenas de Danny com o triciclo. 


Destaque final para os actores - Jack Nicholson é absolutamente extraordinário, fazendo aquilo que faz melhor - encarnar personagens com a alguma dose de loucura. Fica na memória a cena do machado em que Nicholson atira de improviso uma das frases mais icónicas do cinema: "Here's Johnny!" (ver clip abaixo) - frase utilizada por EdMcMahon, que durante 3o anos introduziu dessa forma Johnny Carson no Tonight Show, o apresentador do programa. Por seu lado, Shalley Duvall parece ter sido um pouco "mal tratada" por Kubrick e por Nicholson porque, para além de ser ignorada e marginalizada por ambos, por vezes era alvo de sustos entre filmagens. Pode ser que tenha sido para tornar mais real a timidez e o medo sentido pela personagem mais autêntico durante as cenas, quem sabe? 


Fun Fact: Jack Nicholson para ficar propositadamente inquieto para o papel, comeu durante duas semanas apenas sandes de queijo, algo que ele detesta.