Full Metal Jacket, obra de Kubrick sobre a guerra do Vietname (na verdade anti-guerra), é dos poucos filmes cujo título é tão poderoso em inglês como na sua tradução portuguesa, ainda por cima não sendo literal - Nascido para Matar. E de certa forma, até merecia dois títulos, porque a história apesar de sequencial, tem duas partes bem distintas.
A primeira coincide com o momento da recruta de um pelotão de fuzileiros, constituído por jovens americanos de todas as raças e castas, que se preparam para entrar na guerra do Vietname. Na verdade preparam-se para algo que vai mudar as suas vidas para sempre. Na cena inicial, acima apresentada, pode-se assistir a estes aspirantes soldados que, com um ar inocente e jovial, rapam o cabelo. O que acaba por ser uma bela ilustração do que significa a preparação e a consequente ida para a guerra. A perda da inocência e o abandono momentâneo (ou às vezes definitivo) do quotidiano. A sua vida por alguns anos, tal como o seu cabelo, será rapada em nome de uma causa, que causa? Muitos destes jovens nunca souberam bem qual, mas foram em representação de uma bandeira, de uma pátria.
Na recruta, os treinos, conduzidos por um austero (mas típico) Sargento Hartman (Lee Harmey, falecido em 2018), são agressivos com a finalidade de disciplinar estes jovens rapazes e prepará-los para cenários de conflito armado. No fundo o grande objectivo, além do treino militar, é arrancar à força estes jovens da adolescência e fazer deles homens disciplinados, até quando respiram. Neste pelotão destacam-se o anafado e pouco atlético, Leonard Lawrence (Vincent D'Onofrio), o que lhe valeu a atribuição do apelido de "Gomer Pyle" por parte de Hartman e J.T. Davis (Matthew Modine), praticamente o único amigo de Pyle e o palhacito do grupo, o que lhe valeu a alcunha de "Joker". Pyle após dificuldades iniciais encontra em Joker uma ajuda e consegue melhorar nos treinos e encontrar a sua vocação - o tiro sniper - em que se destaca dos demais. No entanto, depois de ter sido encontrado um Donut (artigo ilegal) nos pertences do Pyle, todo a sua unidade teve de pagar com exercícios físicos. Por causa desta situação, os restantes companheiros de pelotão passaram a odiar Pyle e este viu-se abandonado e excluído. Mergulhado num alheamento geral, a partir daqui a sua única obsessão passa a ser a sua sniper rifle, sentindo que esta arma é quase uma extensão natural do seu corpo. Até parece que ficou possuído pelo cântico que enaltece a importância da rifle (tradicional no exército americano), entoado a determinada altura do filme:
This is my rifle. There are many like it, but this one is mine.
My rifle is my best friend. It is my life. I must master it as I must master my life.
Without me, my rifle is useless. Without my rifle, I am useless. I must fire my rifle true. I must shoot straighter than my enemy who is trying to kill me. I must shoot him before he shoots me. I will. (*)
Esta primeira parte, para mim, contem dos melhores minutos da história do cinema que culminam numa cena climáx, cuja intensidade torna difícil a transição para a segunda parte, a guerra do Vietname propriamente dita. Não sendo mau cinema, a segunda parte não consegue atingir o patamar da primeira. Na minha opinião até fica ligeiramente abaixo de outros títulos da mesma década, Platoon, Apocalipse Now e The Deer Hunter, por exemplo). Todavia, a mensagem que passa também é clara, por muito e bom treino que um soldado tenha, nada prepara verdadeiramente um jovem/homem para uma guerra, muito menos quando esta não faz qualquer sentido.
Contudo, a qualidade da filmagem de Kubrick é inquestionável e transversal a todo o filme, mantendo como em outras das sua obras, os seus planos impecáveis e o seu movimento de câmara característico. É engraçado terminar este ciclo, com o primeiro filme que vi do realizador, há muitos anos numa sessão da RTP, ainda sem capacidade para perceber o que foi e o que implicou a Guerra do Vietname, mas já com a sensação de estar perante um grande filme. Felizmente, a minha opinião manteve-se ao longo dos anos, ainda mais depois de perceber o seu contexto histórico.
(*) Fun Fact: Na minha adolescência fui apreciador da banda de heavy metal Fear Factory e durante algum tempo, uma das músicas tinha uma passagem que me era familiar. Essa passagem vim a descobrir que era de Full Metal Jacket, precisamente a que referi anteriormente- #My Rifle is my best friend..." (a partir do 2min20seg).
PS: Atenção esta música não deve estar ao alcance de crianças.
Próximo Ciclo: Comédias dos anos 90.







