domingo, 24 de maio de 2020

Ciclo - Clint Eastwood

O ciclo desta semana é dedicado a um dos mais velhos realizadores em actividade, Clint Eastwood (o Manoel de Oliveira americano...), que apesar da idade não pára de fazer filmes. Vai completar 90 anos para a semana e parece não abrandar o ritmo. Desde o ano 2000 realizou 17 filmes, mas também em 2000 era um rapaz novo de 70 anos. 

Começou por ficar célebre como actor em filmes de guardadores de vacas, ou em Americano -Cowboys, com evidente destaque para a trilogia de Western de esparguete de um tal Sérgio Leone: Por um Punhado de Dólares (1963),  Por mais uns Dólares (1965) e Bom, Mau e o Vilão (1966). Mais tarde foi Dirty Harry (1971) e escapou de Alcatraz (1979). A partir da década de 70 começou a acumular funções, tendo começado a realizar, produzir e compor as bandas sonoras dos seus filmes, mas mantendo o papel de protagonista em alguns dos títulos. 

Na sua longa carreira conta, entre actor, realizador e produtor com 11 nomeações para os óscares, tendo ganho o galardão por 4 vezes - 2 em Unforgiven e 2 em Million Dollar Baby (realizador mais velho a ganhar um óscar).

No entanto, neste post será visada a carreira de Eastwood como realizador. O seu olhar matador e a voz sussurada, além de ícones da cultura popular, deverão ser ferramentas úteis para a direcção de um filme. Acredito que a sua figura intimide os actores e que tal os "obrigue" a fazer grandes performance e logo no primeiro take. A sua filmografia tem mantido um nível elevado. Ouso afirmar que Clint é como o vinho do Porto, as suas qualidades têm ficado apuradas ao longo dos anos. Tornou-se num exímio contador de histórias e o cinema muito lhe deve. 

Só na passada década (2000-2010) apresentou filmes simplesmente marcantes, como por exemplo, Mystic River (2003), Million Dollar Baby (2004), Letters from Iwo Jima (2006), Changeling (2008), Gran Torino (2008) e Invictus (2009)...até cansa só de escrever. 

Antes de avançar para as minhas escolhas, apresento 3 fun facts sobre o realizador:



1º - O poncho que utiliza na trilogia dos dólares foi sempre o mesmo e segundo se consta nunca foi lavado (estiveram para chamar ao terceiro filme, O Bom, o Mau e o Porco...).



2º - Um grande éxito da banda Gorillaz tem o seu nome - Clint Eastwood.

3º - Quando realiza não diz "action" nem "cut", limita-se a dizer "ok", "go ahead" ou "it's enough of that". O Tom Hanks explica isto melhor do que eu:


Contra Fun Fact - Apesar de ter participado em alguns Western Spaghetti, o seu sonho era abrir um restaurante italiano chamado Western Canelloni. 

Segue a selecção de filmes, que teve apenas uma premissa- 5 filmes, 1 por década.

Década de 70 - Pistoleiro do Diabo (1973)

O primeiro filme que escolhi foi O Pistoleiro do Diabo, apresento o nome em português, pois é mais impactante do que High Plains Drifter. E se calhar foi o seu título que me levou a seleccionar esta obra para a década de 70. Confesso que tinha algum desconhecimento sobre os filmes realizados por Eastwood neste período, por isso a escolha, não sendo completamente aleatória porque vi alguns trailers, foi um tiro no escuro (não se tratasse de um filme de pistoleiros).

Logo nos primeiros minutos do filme entrei em estado de choque: o que os meus olhos e ouvidos estavam a receber não era o tradicional filme de cóbois, mas um Western Sci-Fi. Desde a tétrica música inicial fiquei inquieto, ao ponto das unhas servirem de snack para aguentar o nervosismo. E se a música me deixou inquieto, pior me deixaram as cenas dos 25 minutos seguintes, de uma violência inesperada e nada normal em filmes deste género.

De seguida o filme retoma alguma normalidade, seguindo um roteiro que narra a história de um vingador desconhecido, The Stranger (Clint Eastwood), numa cidade esquecida do oeste. No entanto, este estranho parece mesmo estranho, pois começa a desvendar uma aura de ser supremo - tem uma pontaria mortífera e parece ter um escudo que reflete as balas adversárias (ou então os outros têm a mesma pontaria da irmã Lúcia).

Nesta obra, a realização de Clint Eastwood é claramente influenciada por Sergio Leone, o que é normal após a colaboração de ambos em filmes anteriores. Não é por acaso, que em jeito de homenagem, aparece uma lápide no cemitério com o nome "Sérgio Leone" inscrito (uma homenagem macabra, convenhamos).



Spoiler Alert - Fun Fact: Numa das cenas mais hilariantes do filme, um anão é nomeado Mayor da cidade.



Década de 80 - Bird (1988)

Bird é um filme ao ritmo do jazz e uma homenagem que Clint Eastwood quis fazer a este género musical. Baseado em factos verídicos, o argumento gira em torno de Charlie "Bird" Parker (Forest Whitaker), um virtuoso saxofonista que vai para Nova York nos anos 4o, para tocar em bares e clubes da cidade. No entanto, cai nas malhas da droga e a sua vida torna-se uma montanha russa com cada vez mais baixos do que altos. Nesta sua caminhada, encontra uma mulher/companheira (Diane Venora) que nunca o abandona, apesar dos delírios provocados pelo abuso dos consumos de alcóol e droga (parece que a sua vida se rege pelo tema do Marylin Manson -I don't like the drugs, but the drugs like me).

Considero que este filme é essencial para os amantes de Jazz, mas bastante repetitivo e confuso para os restantes dos espectadores. Achei desnecessária o uso de flashbacks e  aborrecidos os inúmeros números (repetição sempre, fascismo nunca mais) musicais em que é exposto o virtuosismo de Charlie.


Neste tipo de filmes sobre músicos fico sempre com vontade de comprar um instrumento e aprender a tocar. Ainda vi uns saxofones no OLX, mas depois lembro-me que sou duro de ouvido e desprovido de ritmo. Não tenho dedos de pianista, unhas para tocar guitarra ou língua para o saxofone...

Fica na memória o talento de Whitaker, equivalente ao seu tamanho. É sem dúvida um actor talentosissímo, galardoado com o óscar de melhor actor no Último Rei da Escócia (2006), um filme que recomendo vivamente.


Fun Fact: No fim do filme é deixada a seguinte dedicatória: This picture is dedicated to musicians everywhere.

Década de 90 - Unforgiven (1992)

Unforgiven, além de ser o título de uma das melhores canções dos Metallica, é um dos melhores filmes de Clint Eastwood. Foi o seu último Western, mais, o ponto de exclamação no género que o tornou famoso. 

Unforgiven narra a história de Will Munny (Clint Eastwood), um ex-assassino a soldo, viúvo, que  aceita um último trabalho, com o objectivo de  dar um futuro melhor aos seus filhos. O trabalho consiste em vingar uma prostituta esfaqueada na cidade de Big Whiskey (uma cidade patrocinada por Jack Daniels). No entanto, o xerife da cidade (Gene Hackman) captura um dos cúmplices de Munny, Ned Logan (Morgan Freeman), alterando tudo o que havia sido planeado. 

Algumas das críticas negativas que li consideram o filme pejado de clichés, e se calhar é verdade.O Western à data era um género muito batido e fora de moda. Todavia e apesar dos clichés, Unforgiven, através duma narrativa centrada em personagens de personalidade não linear, interpretadas com grande mestria por excelentes actores, reinvetou mais uma vez o género e fica na memória uma bela cobóiada (não sejam preversos).

Eis o trailer, de um dos meus filmes favoritos: 




Fun Fact: Este filme valeu os primeiros óscares a Clint Eastwood (melhor filme e melhor realizador). Algo que contradisse uma declaração do próprio anos antes, que enumerava as razões pelas quais nunca iria ganhar um óscar: "First, I'm not Jewish. Secondly, I make too much money. Thirdly, and most importantly, because I don't give a fuck."


Década de 00 - Mystic River (2003)

A década 2000-10 foi a mais prolifera de Clint Eastwood, basta observar a lista que referi anteriormente. Deste período, resolvi revisitar Mystic River, um filme que já não via há alguns anos. 


O filme começa com um momento marcante - três jovens amigos (Jimmy Markum, Sean Devine e Dave Boyle) brincavam nas ruas da cidade de  Boston. Enquanto inscreviam o seu nome em cimento fresco foram abordados por desconhecidos. Estes desconhecidos apresentaram-se como polícias aos rapazes e conseguiram convencer Dave a seguir com eles no carro. Todavia, estes desconhecidos eram molestadores de crianças e agrediram sexualmente o rapaz que raptaram, até ao momento em que este conseguiu escapar passados 4 dias. No entanto, o trauma nunca haveria de desaparecer. 

Anos passaram e estes 3 amigos seguiram caminhos diferentes, até ao momento em que a filha de Jimmy  (Sean  Penn) aparece morta. Por coincidência (nos bons filmes não há coincidências), o agente policial designado para investigar o crime foi Sean Devine (Kevin Bacon), que identifica alguns suspeitos, entre eles, Dave Boyle (Tim Robbins) à primeira vista uma pessoa inofensiva, mas ainda marcado pelos abusos da sua juventude. Esta é a base de uma história de vidas entrelaçadas com o Mystic River (rio de Boston) como pano de fundo.  

É uma obra que muita gente não gosta por ter pouca acção para um filme policial (se querem acção e futilidade vão ver Michael Bay, pá...). Na minha opinião este filme é muito mais que um policial. É uma história que retrata a importância e a influencia que alguns momentos da infância e juventude podem ter na vida adulta. Há traumas que nunca se apagam, há laços que nunca se quebram.

Sean Penn e Tim Robbins (o condenado de Shawshank) ganharam os óscares de melhor actor e melhor actor secundário desse ano, algo merecido pelo brilhante desempenho de todo elenco. 

Por fim gostaria de falar da opção de Eastwood de gravar em Boston, em vez de seguir a opção dos produtores que era filmar no Canadá para poupar dinheiro. Esta escolha revelou-se acertada, o ambiente de Boston trouxe realismo à narrativa. 




Fun Fact: O filme foi rodado em 39 dias. 


Década de 10 - Ricard Jewell (2019)

Ricard Jewell, o último filme de Eastwood, é a confirmação que realizador continua a ser um excelente contador de histórias e que mantém o nível dos últimos 20 anos.


O argumento baseia-se na história verídica de Richard Jewell (Paul Walter Hauser), um segurança que salvou centenas de vidas durante um concerto dos Jogos Olímpicos de Atlanta (1996), e na forma de como passou de herói a principal suspeito do atentando, com especial destaque para o papel da opinião pública nestes casos.

Richard Jewell era uma personagem peculiar. Com 35 anos ainda vivia com a mãe, era um fanático de armas e apaixonado pela autoridade, tinha mesmo o sonho de se tornar polícia. No entanto, devido ao seu aspeto patusco, e gordinho, parecia que não fazia mal a uma mosca. Seria esta pessoa capaz de planear um atentado? Terão de ver o filme para descobrir (ou então transferir-me por MBway 30 euros).

Lamentavelmente foi um filme quase ignorado nos óscares, merecia mais reconhecimento.





Fun Fact: O comité olímpico não autorizou a utilização do logótipo dos 5 anéis neste filme.



E assim se conclui esta pequena reflexão da carreira de Clint Eastwood, um realizador que já tinha barba durante a segunda guerra mundial (pelo menos buço), mas que não pára de oferecer obras para o grande público apreciar.

Quando um ciclo se encerra, outro principia e na próxima semana será visada a carreira do polémico realizador, Roman Polanski.

Até mais ver!

P.S.: Sugestões de temas para próximos ciclos serão bem-vindas 

sábado, 16 de maio de 2020

Ciclos - Christopher Nolan - Inception

6ª Feira - Inception (2010)

O ciclo dedicado a Christopher Nolan encerra com, provavelmente, o seu título mais sonante, Inception (2010).

Segundo a sinopse da Warner Bros,  Dom Cobb (Leonardo Di Caprio) é um ladrão/espião empresarial (vá, um artista) que é capaz de roubar segredos valiosos durante os sonhos, penetrando profundamente no subconsciente da mente, precisamente no momento em que esta se encontra mais vulnerável. Apesar da sua mestria, tornou-se num alvo de mandatos internacionais e pior, na esfera pessoal parece ter perdido quase todos aqueles que amava, nomeadamente os seus filhos e a sua mulher Mal (Marion Cotillard). Tem uma derradeira oportunidade para se redimir. Não com um último roubo, mas com o inverso: A introdução de uma ideia na mente de Robert (Cillian Murph), dono de um enorme conglomerado, algo capaz de alterar o bem-estar da humanidade. Para tal reúne uma equipa para o ajudar, entre elesArthur (Joseph Gordon-Levitt), Eames (Tom Hardy) e Saito (Ken Watabe). Curiosamente, se juntarmos as primeiras letras das personagens principais obtemos a palavra DREAMS

Se me pedissem a mim para resumir o filme, simplesmente recorria ao poema, "Pedra Filosofal", de António Gedeão:

"Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida. 
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança. "

Assim, na minha opinião este filme realizado e escrito por Christpher Nolan tem uma elevada carga poética e, de certa forma, até utópica. Baseio esta ideia, na capacidade que a obra tem de nos levar a imaginar que é possível existir um mundo em que podemos viver dentro dos nossos sonhos, mais, que podemos ser arquitectos dos nossos sonhos. De tornar possível o impossível. De plantar sonhos e esperar que germinem. De querer adormecer e não acordar. 

E como se o conceito base não fosse suficiente, o filme oferece-nos acção de cortar a respiração, enaltecida por orgasmos visuais proporcionados por inovadores efeitos especiais. A mesa está posta, o prato principal confeccionado, mas não podemos esquecer o acompanhamento - a excelente banda sonora do Chef Hans Zimmer - a melodia perfeita para nos embalar e, eventualmente, para nos acordar:



Recomendo este filme vivamente, para mim a melhor obra de Nolan. No entanto, deixo uma advertência: é um filme complexo, quase ao nível de fazer um cubo mágico de olhos vendados. Para perceber a história, é necessária uma atenção equivalente à de cirurgião durante um transplante de coração.

Fun Fact: Na sua versão de DVD, o filme tem uma duração precisa de 8.888 segundos.  

E assim se conclui esta pequena reflexão da carreira de Christopher Nolan, um realizador que não pára de coleccionar êxitos. Mas quando um ciclo se encerra, outro principia e na próxima semana será visada a carreira de Clint Eastwood (enquanto realizador).

Até mais ver!

P.S.: Sugestões de temas para próximos ciclos serão bem-vindas




domingo, 10 de maio de 2020

Ciclos - Christiphor Nolan - The Prestige

5ª Feira - The Prestige (2006)

The Prestige é um verdadeiro duelo de titãs pela consagração na magia, Christian Bale vs. Hugh Jackman. A narrativa é dividida em três passos como num truque de ilusionismo, o que de resto é referido no preâmbulo do filme:

"Every great magic trick consists of three parts or acts. The first part is called "The Pledge". The magician shows you something ordinary: a deck of cards, a bird or a man. He shows you this object. Perhaps he asks you to inspect it to see if it is indeed real, unaltered, normal. But of course... it probably isn't. The second act is called "The Turn". The magician takes the ordinary something and makes it do something extraordinary. Now you're looking for the secret... but you won't find it, because of course you're not really looking. You don't really want to know. You want to be fooled. But you wouldn't clap yet. Because making something disappear isn't enough; you have to bring it back. That's why every magic trick has a third act, the hardest part, the part we call "The Prestige"".

E, assim, o filme segue numa battle incessante pela obtenção do truque mais impressionante, doa a quem doer, sofra quem sofrer. Não chega fazer um coelho sair da cartola, é preciso fazer uma cartola sair do coelho.

Michael Caine desempenha brilhantemente o papel de mestre mais velho dos dois mágicos e funciona como ponto de equilíbrio, ora pendendo para o lado Bale, ora para o lado de Jackman. No entanto, o verdadeiro ilusionista é Christopher Nolan que, habilmente, consegue, como num espectáculo de magia, manter o suspense até ao cair do pano.

Fun Fact: A palavra Prestige (prestígio) tem origem no latim praestigium que significava ilusão.



P.S.: O autor deste blogue é tão preguiçoso, que aproveitou um texto do ciclo do Christian Bale em vez de fazer um novo...

sábado, 9 de maio de 2020

Ciclos - Christopher Nolan - Batman Begins

4ª Feira - Batman Begins (2005)


Por estes dias os morcegos estão caídos em desgraça, não bastava o Ben Affleck ser o actual Batman, como agora estão a ser responsabilizados pelo desencadeamento desta epidemia que nos assola. 

No entanto, seria impossível não falar  de Batman num ciclo dedicado a Christopher Nolan. O realizador conseguiu revitalizar o franchise da DC Comics no grande ecrã, tendo a trilogia atingido grande sucesso. Apesar do filme mais aclamado ser o Dark Knight, em que o falecido Heath Ledger desempenha o papel de Joker (ou no Brasil, Coringa), o filme que alterou o paradigma da filmografia do super-herói de Ghotam City, através das lentes de Nolan, foi Batman Begins (2005) - o primeiro da trilogia. 

Ao contrário dos filmes anteriores, em que o centro da narrativa era Batman (Christian Bale), este centra-se mais no homem que veste o fato, Bruce Wayne, do que propriamente no super-herói. A história remete-nos para as origens do homem-morcego.

A infância de Wayne tem momentos que definem a  sua personalidade negra e cheia de remorsos. Nomeadamente, a queda num fosso cheio de morcegos (qual Obélix) - algo que marca o inicio da ligação com estes mamíferos alados, e o momento em que assiste ao assassinato dos pais - situação que julga ter ocorrido por sua culpa. Após este último acontecimento abandona a cidade de Ghotam.

Mais tarde, jovem/adulto, segue um processo de treino na Ásia com os seus mentores Henri Ducard e R As Al Ghul (com este nome devia ser filho de pais gagos), em que aprende a lidar com os seus medos e com a sua infância. Na minha opinião, é interessante o desenvolvimento da personagem de Bruce Wayne, a maneira como tem de lidar com o passado e a forma como torna os seus medos em força (deu à personagem muito mais humanidade). Finalizado o treino, sente que deve tornar Ghotam um sítio melhor, através de justiça, não de vingança. Estes dois conceitos são muito importantes ao longo da narrativa do filme.

Apesar das boas premissas e do cativante duelo interior de Bruce Wayne, o filme torna-se um pouco banal quando começa a dar demasiado ênfase aos gadgets (nessa parte parece que entrámos num qualquer 007) e a perseguições de auto-estrada.  Existem também alguns plot holes que não vou desenvolver para não fazer spoil. E para terminar os aspectos negativos, o filme não tem um vilão à altura da grandeza da interpretação de Christian Bale, para mim "o melhor Batman". 

Sem embargo e apesar das questões mencionadas anteriormente, o que sobressai é a capacidade técnica de Nolan e a forma como consegue, através do uso de cores escuras e de uma competente banda sonora de Hans Zimmer, criar um sentimento lúgubre em torno de Bruce Wayne/Batman, é verdadeiramente notável.

Também o elenco é de grande categoria (parece uma saraivada de estrelas), ora notem:
-Michael Caine (2 óscares)
-Gary Oldman (1 óscar)
-Morgan Freeman (1 óscar) 
-Tom Wilkinson (nomeado para 2 óscares)
-Liam Neeson (nomeado para 1 óscar)
-Katie Holmes (ex-mulher de Tom Cruise)
-Cillian Murphy (o Peaky F**ing Blinder)
-Jack Gleeson (quem? o porco do King Joffrey no Game of Thrones). 





Para terminar e em jeito de aparte, quero dizer que o Batman é o meu super-herói favorito. Porquê? Porque no fundo é um gajo, não tem superpoder algum. Quer dizer, é um gajo mas cheio de massa (carcanhol, pilim, cacau, graveto) com capacidade para adquirir o último grito em gadgets e assim lutar contra o crime (agora que penso um bocadinho é um pouco como o Iron Man da Marvel).

Fun Fact: Segundo o Fictional Forbes 15, Bruce Wayne é a sexta personagem ficcional mais rica, com uma fortuna avaliada em 6,8 mil milhões de dólares. Confira a lista:




domingo, 3 de maio de 2020

Ciclos - Christopher Nolan - Insomnia

3ª Feira - Insomnia (2002)


Insomnia é inspirado num filme sueco, com a diferença que a história se desenrola numa pequena cidade do Alaska em vez de se passar na Suécia. O efeito é o mesmo, são dois sítios que em certas alturas do ano não anoitece completamente (quando muda a hora nestes sítios não há aquelas lamurias do "ai, agora anoitece tão cedo...", por outro lado não há sunsets...). 


Resumindo,
A adolescente Kay Connell é encontrada morta, vítima de estrangulamento, o que espoletou o início de um investigação por dois agentes vindos LA, Will Dormer (Al Pacino) e Hap Eckart (Martin Donovan). Estes agentes estão envoltos numa confusão dentro do seu departamento, em que Hap irá denunciar Dormer por adulteração de provas num caso anterior. No Alaska contarão com a ajuda da polícia local, nomeadamente Ellie Burr (Hillary Swank).

Spoiler Alert

Durante as buscas pelo assassino (Robin Williams), Dormer atinge mortalmente a tiro Hap Eckart, tendo o próprio ficado na dúvida sobre a se o fez de forma propositada ou acidentalmente. Essa dúvida advém do nevoeiro que estava e de Dormer não conseguir dormir naquela região que tem luz 24h por dia. Essa falta de descanso deu lugar a algumas alucinações. A partir de meio do filme as olheiras de Al Pacino estavam assim:







Nolan consegue exponenciar a condição desesperada de Dormer, o seu sentimento de culpa e a incapacidade de dormir, através de imagens lentas e a certas alturas desfocadas, sempre acompanhadas de uma banda sonora inquietante. A fotografia é excelente, fazendo-nos sentir que estamos no meio do Alaska (a meio do filme até tive de vestir um kispo).

Dos filmes que seleccionei para este ciclo, Insomnia é, quase de certeza, o que menos pessoas associam a Christopher Nolan. Na minha opinião não tem o reconhecimento que merece. Não é um simples filme sobre um crime numa cidade recôndita no Alaska. É um ensaio sobre a culpa e sobre a transposição da barreira da idoneidade e da decência. Que motivos nos fazem ultrapassar a barreira? Como vivemos com isso? Vale tudo para fazer prevalecer o bem comum?

Por fim, destaque para o brilhante desempenho do elenco (tem 3 vencedores de óscares), nomeadamente, Robin Williams que faz um brilhante assassino, um papel nas antípodas do que foi o seu registo habitual na comédia.

Fun Fact: O nome da personagem principal - Dormer - vem do Francês, Espanhol e Português, dormir. Curiosamente é aquilo que a personagem não faz.