sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Advento 2020 - 25/25 - The Godfather (1972)

 No confina-confina e volta a confinar, resolvi fazer um género de calendário de advento com algumas sugestões cinematográficas até ao dia natal. A ideia é simples: 25 dias, 25 filmes. 

The Godfather (1972)

Depois de passada a consoada, espero que tenham tido uma noite feliz e que estejam ainda com a barriguinha cheia. Chegou o fim do advento e simultaneamente este calendário cinematográfico. Tentei intercalar clássicos intemporais, alguns títulos recentes de que gostei e ainda alguns filmes mais natalícios. 


Contudo ainda falta apresentar o derradeiro filme - o número 25 - para tão ilustre posição resolvi escolher The Godfather (Poderoso Chefão no Brasil). Foram 4 os motivos que me levaram a esta opção: 1) inegavelmente é um dos melhores filmes de sempre; 2) o Natal é o dia da família, The Godfather é o filme da família; 3) uma parte considerável da acção decorre no Natal e 4) a primeira vez que o vi, foi num dia de Natal, aliás vi a trilogia toda nesse mesmo dia. 


The Godfather é uma obra-prima realizada por Francis Ford Coppola, baseada num romance de Mario Puzo e com banda sonora de Nino Rota. A história centra-se na família Corleone, família ligada à máfia italiana em Nova Iorque e cujo Padrinho (o Chefão) é Vito Corleone (Marlon Brando). As primeiras cenas decorrem durante o casamento da filha de Vito, Connie (Talia Shire, a mulher de Rocky), em que entre as festividades, é possível observar vários convidados a pedir favores e a prestar vassalagem ao Padrinho (o chamado beija mão). Estes primeiros minutos são sublimes, Brando tem um desempenho ímpar como Vito, impondo respeito com a sua voz áspera, olhar sem expressão e os maneirismos típicos de alguém com muito poder. Tudo isto enquanto faz festinhas na barriga de um gatinho. Não vou adiantar mais da narrativa para não fazer spoil, mas irei fazer uma breve apresentação do dos principais elementos do núcleo da família Corleone, a saber:

- Vito Corleone (Marlon Brando): o Padrinho, o homem mais poderoso. Controla polícias, políticos e juízes. Tem a seus pés um conjunto de vassalos. Violento sempre que é preciso e implacável com aqueles que não lhe são leais.

- Sonny Corleone (James Caan): Filho mais velho e o primeiro na linha de sucessão. No entanto, a sua irascibilidade e impetuosidade, mesmo perante assuntos banais ,não parecem compatíveis com o papel de futuro Padrinho.  

- Tom Hagen (Robert Duvall): O filho adoptivo de Vito é o conselheiro e o advogado da família. É o menos emotivo, talvez por não ser de origem italiana, sendo de longe o mais ponderado. É de uma lealdade extrema, mesmo em situações em que é ultrapassado na hierarquia. Muitas vezes é a voz da razão.

- Fredo (John Cazale): O irmão do meio, mentalmente débil e parece quase sempre alheado da realidade e dos negócios da família. É cobarde e talvez tenha um ligeiro atraso, não lhe sendo por isso confiadas tarefas de responsabilidade. 

- Michael (Al Pacino): Herói de guerra, o filho mais novo no início do filme demarca-se da família, considerando-se alguém que não praticava certos actos. Durante o casamento da irmã chega a afirmar à sua namorada e futura mulher, Kay (Diane Keaton): That's my family Kay, not me! No entanto, os acontecimentos subsequentes, demonstraram precisamente o contrário. Michael irá romper com a moralidade e tornar-se no natural sucessor do pai. 

Francis Ford Coppola criou um verdadeiro épico do cinema. Em The Godfather tudo é perfeito. Para terminar gostaria de destacar: o magnífico desenvolvimento da história e das personagens, em aumento de tensão até ao desfecho de cada acto; e o magnífico elenco que dispensa apresentações. 

Fun Fact: Marlon Brando colocou algodão nas bochechas durante a sua audição para o papel de Vito Corleone. O seu objetivo era dar um ar de bulldog à personagem. Durante a rodagem do filme, usou uma prótese usada por um dentista. 

Advento concluído! Espero que tenham gostado das sugestões e que vão acompanhando os novos posts deste blogue. 



quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Advento 2020 - 24/25 - Sozinho em Casa (1993)

No confina-confina e volta a confinar, resolvi fazer um género de calendário de advento com algumas sugestões cinematográficas até ao dia natal. A ideia é simples: 25 dias, 25 filmes. 

Sozinho em Casa (1990)

A escolha do filme de hoje é óbvia e talvez por isso algo irritante. Se por um lado as pessoas estão fartas da história do garoto ricaço, que fica sozinho em casa e que depois se diverte a fazer bullying aos ladrões que tentam assaltar a sua casa. Por outro, é um grande conforto saber que vai dar um Sozinho em Casa nestes dias. É quase um sinal de normalidade e de que tudo está bem. É o bacalhau na mesa e Kevin McCallister na TV. Mas o desgaste começa-se a sentir. Sinal disso mesmo é o facto de neste ano, este filme não fazer parte da grelha dos canais generalistas (pelo menos à data). Apenas descobri uma sessão do Sozinho em Casa 2 para a véspera de Natal no AXN, relativamente ao primeiro filme nada encontrei. 

Para minha geração sempre foi o filme com lugar certo nesta altura do ano, mas para as anteriores quais seriam? Música no Coração (apesar de não se passar no Natal)? It's a Wonderful Life?  

Julgo que a história toda a gente conhece, mas resumidamente: a família McCallister, rica e numerosa, vai passar as férias de Natal a Paris e acidentalmente deixa em casa um dos pequenos, Kevin (Macaulay Culkin); sozinho e sem  a possibilidade de entrar em contacto com a família, vê-se perigado quando um par de ladrões (os bandidos molhados), Harry (Joe Pesci) e Marv (Daniel Stern), começam a rondar a casa com o intuito de a assaltar; Kevin apercebendo-se disso, não se acobarda e torna a sua casa numa fortaleza, minando todos os caminhos e passagens com as mais diversas armadilhas, algo que vai surpreender os ladrões... e de que maneira. 

Na realização, o filme contou com um homem responsável por variadíssimos sucessos infanto-juvenis, Chris Columbus. Entre escrita e realização Columbus tem o seu nome ligado a sucessos como, Gremlis, Goonies, Mrs. Doubtfire e Harry Potter. Tantos êxitos não podem ser obra do acaso.

No entanto e na minha opinião, a chave do sucesso desta comédia familiar deve-se em grande parte à escolha acertada dos actores para os principais papéis:

Macaulay Culkin - no papel do arisco, mas fofo Kevin. A naturalidade de Culkin era impressionante para um miúdo daquela idade. Culkin depois do sucesso alcançado em 2 ou 3 filmes enquanto criança, perdeu-se e não entrou em mais nenhum filme relevante. (Rezam as más línguas que ficou tanto vez sozinho em casa que se meteu nas drogas.) 

Pesci e Stern - perfeitos a fazer de bandidos potencialmente perigosos mas absolutamente patetas. Parecem quase saídos de um desenho animado. São eles que proporcionam os momentos mais cómicos, quando caem que nem patinhos nas esparrelas montadas pelo garoto. Pesci foi  uma surpresa, não era de esperar que actor o actor de Goodfellas aceitasse este papel, foi uma adição inesperada mas bastante acertada.


Com ou sem Sozinho em casa, desejo a todos, um feliz natal!

Fun Fact: Catherine O'Hara actriz que fez de mãe de Kevin, revelou em 2014 que Macaulay Culkin ainda lhe chamava "mom". 




quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Advento 2020 - 23/25 - The Nightmare Before Christmas (1993)

No confina-confina e volta a confinar, resolvi fazer um género de calendário de advento com algumas sugestões cinematográficas até ao dia natal. A ideia é simples: 25 dias, 25 filmes. 

 
The Nightmare Before Christmas (1993)

Cheira a Natal. Já se vêm tapetes de meninos Jesus pendurados nas varandas como se fossem cair ao chão, gambiarras berrantes e aos olhos irritantes nas caleiras das casas. O bacalhau está de molho e o peru grosso para no forno não pensar. O óleo está nas frigideira, pronto a fritar sonhos para todos os que são filhós de Deus...  


E porque a noite de Natal se está a aproximar, nada melhor do que em The Nightmare Before Christmas falar. Obra saída da cabecinha pensadora de Tim Burton, ainda quando era animador da Disney nos anos 80. A gaveta fez bem ao projecto que foi amadurecendo e de um pequeno conto surgiu numa longa metragem em 1993. Tim Burton acabou por não poder realizar o filme, devido a impedimentos contratuais ligados à produção de Batman. Colaborador habitual de Burton, Elfman (nome apropriado para este filme) foi o criador da extraordinária banda sonora, dando voz ao personagem principal, Jack  the Skellinghton, enquanto este canta. Claramente, a música é um dos pontos fortes do filme. Elfman confessou que escrever as 10 faixas para este filme foi o trabalho mais fácil que teve na sua vida, pois considera que tem muitas parecenças com Jack. 

Resumidamente, The Nighmare Before Christmas conta a história de Jack Skellinghton, o Pumpkin King da Halloween Town, que está farto da sua vida repetitiva, centrada em exclusivo no dia das bruxas. Um dia e de forma acidental, entra na Christmas Town e descobre que existe o Natal. Fascinado com a ideia e com o espírito, resolve juntar os habitantes e criar um Natal à maneira de Halloween Town. Para o efeito rapta o Pai Natal, a quem chama Sandy Claws, assume o seu lugar e começa a preparar a entrega de presentes, alguns deles bastante diferentes do habitual….

Não sendo propriamente desajustado para um público infantil, devido ao lado sombrio que possui, é claramente direccionado para uma audiência mais adulta. Esteticamente é uma obra magnífica, marcada pelo estilo de Tim Burton em toda a sua plenitude, podendo encontrar-se vários elementos habitualmente usados pelo realizador nos seus filmes. Por exemplo, o recurso a personagens sinistras, mas com bom coração - Eduardo Mãos-de-Tesoura, Jack, etc. Para os fãs de Burton é obrigatório, para quem gosta de uma boa história de animação com uma agradável banda sonora também. 


Fun Fact: Marilyn Manson fez uma cover da música This Is Holloween, uma das primeiras a ouvir-se no filme.


terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Advento 2020 - 22/25 - O Regresso do Rei (2004)

 No confina-confina e volta a confinar, resolvi fazer um género de calendário de advento com algumas sugestões cinematográficas até ao dia natal. A ideia é simples: 25 dias, 25 filmes. 

 
O Regresso do Rei (2004)

A vida são dois dias e o Natal este ano são três, devido ao fim-de semana prolongado. Logo em pandemia e numa altura em que nem sequer os tios chatos aparecem, nada melhor do que aproveitar o tempo vago para ver (ou rever) uma sagazita, enquanto enfia filhós no bucho como se fosse hibernar. Assim, o destaque de hoje vai para o Regresso do Rei e a saga The Lord of Rings.   

Realizado por Peter Jackson e baseado na obra literária de J. R. R. Tolkien, The Return of The King é o terceiro e último capítulo da trilogia The Lord of The Rings. Com a conquista do Oscar para melhor filme, este título marca a consagração da saga, depois de The Fellowship of The Ring e The Two Towers terem também estado nomeados para a categoria mais importante dos prémios da Academia, em 2002 e 2003 respectivamente. 




A narrativa do Regresso do Rei segue a jornada de dois Hobbits (seres anões, mas com uns pés enormes e peludos), Frodo (Elijah Wood) e Sam (Sean Astin), a caminho de Mordor com objectivo de destruir o anel (the One Ring). Os dois pequenos Hobbits, entre tantos perigos, estão entregues à sua sorte e ao seu guia, o repugnante Gollum/Smeágol (na altura a animação de Gollum foi considerada revolucionária). Gollum já possuiu o anel e vive num dilema interior, entre querer ajudar os dois pequenos Hobbits e recuperar o anel para si (o seu precious). 



Paralelamente, decorre a acção em Isengard, onde Galdalf (Ian McKellen), Aragorn (Viggo Mortensen), Legolas (Orlando Bloom), Gimli (John Rhys-Davies) e o Rei Rohan (Miranda Otto) encontram Merry e Pippin, os outros dois hobbits que participam nesta aventura. E a partir deste ponto, a luta entre o bem e o mal segue o seu percurso com os volte-faces habituais deste tipo de histórias. 


Quando se estreou, a trilogia The Lord of Rings apresentou-se como revolucionária ao nível dos efeitos especiais, sendo inegável o seu contributo para o desenvolvimento de novas formas de usar tecnologia no cinema. No entanto, esta saga é muito mais do que um primor técnico. É uma adaptação extraordinariamente bem conseguida das palpitantes aventuras, meio mediavais, meio místicas, criadas por Tolkien. Não é uma simples história do Bem contra o Mal. É uma história de fortes que se tornam fracos, de fracos que se tornam fortes, de fracos que são fortes e de fortes que são fracos. É uma saga intemporal, ideal para ver de empreitada na altura do natal (até rimei, acho que vou pôr num manjerirco).

Destaque final para o elenco, é mesmo uma enorme constelação de estrelas, cujas performances não têm mácula. Além de todos os nomes mencionados anteriormente, não esquecer ainda a presença de outros vultos do cinema, nomeadamente, Christopher Lee como Sauroman, Hugo Weaving como Elrond ou Cate Blanchett como Galadriel. Até entra o Ned Stark...(caso não tenha visto Game of Thrones, ignore esta piada).


Fun Fact:  Um filme normal tem cerca de 200 efeitos especiais, The Return of The King teve 1.487.


segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Advento 2020 - 21/25 - Die Hard (1988)

No confina-confina e volta a confinar, resolvi fazer um género de calendário de advento com algumas sugestões cinematográficas até ao dia natal. A ideia é simples: 25 dias, 25 filmes. 

 
Die Hard (1988)

À entrada da semana do Natal, a recomendação de hoje tinha de recair, quase obrigatoriamente, para o visionamento de um filme típico desta quadra. No entanto, a minha escolha não tem renas, papais noel, duendes ou bonecos de neve. Tem acção de cortar a respiração, tiros, explosões, terroristas e um arranha-céus. Arranha, mas nunca vi nenhum céu a queixar-se, ou chove mais ao pé destes edifícios? Bom... Em alguns pontos do globo (ou no planisfério se acreditar que a terra é plana) é uma tradição ver este filme nesta época. Alguns já adivinharam do que estou a falar. Refiro-me, evidentemente a Die Hard de John Mctiernan.

Em Die Hard, Bruce Willis é John McClane, um polícia de Nova Iorque que vai visitar a sua esposa a L.A. durante as festividades do Natal. Mal chega à cidade dos anjos, McClane segue para a festa de Natal da empresa multinacional em que a mulher trabalha, sedeada num arranha-céus, claro está.  E é aqui que o rabo torça a porca (ou será ao contrário??). Durante a festa, um grupo de terroristas alemães liderado por Hans Gruber (Alan Rickman) sequestra os convidados, com a intenção de roubar $640 milhões em ações. McClane consegue escapar, veste a capa de herói e inicia um combate solitário contra os terroristas.

Para quem gosta do género de ação é um daqueles clássicos que, obrigatoriamente, tem de se assistir de vez em quando. Cenas de cortar a respiração, bons efeitos especiais para a época e um elenco liderado por dois actores em grande forma. Se Bruce Willis é ótimo a fazer de "herói-durão-madafoca”, Alan Rickman não é menos extraordinário a fazer de vilão. Inesquecíveis são as frases épicas que as suas personagens vão disparando ao longo do filme, eis alguns exemplos:

1 - Hans Gruber: Do you really think you have a chance against us, Mr. Cowboy? / John McClane: Yippee-ki-yay, motherfucker.

2 - John McClane: Welcome to the party, pal.

3 - Hans Gruber: [Reading what McClane wrote on the dead terrorist's shirt] “Now I have a machine gun. Ho ho ho.”

4 - Hans Gruber: This time John Wayne does not walk off into the sunset with Grace Kelly. / John McClane: That was Gary Cooper, asshole.

Die Hard é um bom filme para ver no Natal por uma razão simples: a sua violência (q.b.), ajuda a cortar o excesso de doçura da época. Yippee-ki-yay!



Fun Fact: O guarda-roupa do filme dispunha de 17 camisas de manga cava, em diferentes estados de degradação, para a personagem de Bruce Willis.  

domingo, 20 de dezembro de 2020

Advento 2020 - 20/25 - Variações (2019)

No confina-confina e volta a confinar, resolvi fazer um género de calendário de advento com algumas sugestões cinematográficas até ao dia natal. A ideia é simples: 25 dias, 25 filmes. 

 
Variações (2019)

Não podia deixar terminar o advento sem falar de um filme português. A produção lusa é limitada, não há meios, principalmente financeiros. Não obstante, tenho a impressão que o ano de 2019 foi bastante profícuo, sendo exemplo disso, a estreia dos seguintes títulos: A Herdade, Snu, Vitalina Varela e Diamantino. Daqueles que vi, o que gostei mais foi de longe Variações.

Variações, como é fácil de supor é um filme de cariz biográfico, sobre essa personalidade ímpar da música portuguesa dos anos 80 que foi António Variações. António Variações nasceu António Ribeiro em 1944, numa pequena localidade perto de Amares, num Portugal assombrado pela ditadura. Com 12 anos vai para Lisboa, onde trabalha como aprendiz de escritório, caixeiro e barbeiro. Cresce, cumpre o serviço militar, emigra para Londres e depois para Amesterdão onde abraça o ofício de Barbeiro. 

No filme realizado por João Maia, a história começa precisamente com Variações (Sérgio Praia) na Holanda, momento que coincide com as suas primeiras gravações caseiras de músicas que o próprio escreve. Volta a Portugal para trabalhar num cabeleireiro Unissexo. Nesta fase foi ajudado pelo seu bom amigo Fernando Ataíde, empresário que  abriu a discoteca Trumps, personagem interpretada por Filipe Duarte, actor que faleceu este ano. A partir daqui a narrativa centra-se na carreira meteórica de Variações na música até à sua morte aos 39 anos, causada provavelmente pelo vírus da Sida.  

Variações foi um relâmpago que atingiu Portugal. Apareceu de repente sem ninguém esperar, brilhou muito, mas devido à sua prematura morte deixou-nos demasiado cedo. O seu visual diferente e arrojado rompeu estereótipos. A sua música, que misturava pop/rock com fado, foi verdadeiramente inovadora. A  lenda de Variações chegou aos dias de hoje e a sua música ainda ecoa nas rádios e na memória dos portugueses, avivada no ano 2004 pelo projecto "Humanos". É curioso que a sua imagem tenha estado tão presente na cultura popular, apesar de só ter aparecido duas vezes na televisão, em programas do Júlio Isidro. 

O filme captura muito bem a essência da paixão de variações pela vida e pela música. Sérgio Praia fez uma magnifica interpretação de António Variações, das melhores que me lembro no cinema português.    


Fun Fact: Todas as músicas apresentadas no filme foram interpretadas por Sérgio Praia com recurso à sua própria voz.

sábado, 19 de dezembro de 2020

Advento 2020 - 19/25 - Amadeus (1984)

 No confina-confina e volta a confinar, resolvi fazer um género de calendário de advento com algumas sugestões cinematográficas até ao dia natal. A ideia é simples: 25 dias, 25 filmes. 

 
Amadeus (1984)

Estou longe de ser um especialista em música clássica, na verdade, em música no geral. Não sei tocar sequer o "Parabéns a Você" na flauta. No entanto, atrevo-me a dizer que Mozart terá sido dos maiores génios da história da música.

Houve uma altura em que resolvi estudar a ouvir música clássica e Mozart fazia parte das playlists habituais do género. Todavia, era impossível concentrar-me a ouvir as suas obras. É tão sublime, que a atenção resvalava quase sempre da aborrecida matéria, para as hipnotizantes notas que me entravam pelos ouvidos. 

Incentivado (obrigado?) pelo pai, Mozart aos 4 anos já sabia tocar piano e aos 5 começou a compor. Eu e a maior parte das pessoas com essas idades mal sabíamos apertar os atacadores. Na adolescência foi contratado como músico na corte em Salzburgo, aos 15 anos chega a Viena e é na capital austríaca que conquista a fama, apesar de viver quase sempre em dificuldades financeiras. Viria a morrer na miséria aos 35 anos, deixando um legado intemporal, entre os quais, várias óperas, sinfonias e concertos.  O devido reconhecimento apenas surgiria anos mais tarde e o seu génio é louvado ainda nos dias de hoje. 

Em 1984, Milos Foreman deu vida a Mozart no grande ecrã e de uma forma absolutamente extraordinária, através do épico biográfico, Amadeus. A história é narrada por Antonio Salieri (F. Murray Abraham), compositor contemporâneo de Mozart (Tom Hulce), que nutria por ele um misto de fascínio e inveja. Nos seus relatos e em jeito de confissão, considerava que Deus o tinha injustiçado, dando um talento único a uma criatura vulgar e que ele, Salieri, tão casto e devoto não tinha sido agraciado com semelhantes dotes, tendo, imerecidamente, sido esquecido pelo público. Todavia, o ódio que sentia era tão grande como a admiração que tinha por Mozart. Com a sua notável interpretação de Salieri, Abraham mereceu de forma justa o oscar para melhor actor. 

Visualmente, Amadeus é magnífico, boa fotografia, caracterização de cenários e personagens impecáveis. No entanto, a banda sonora, toda ela obra de Mozart, destaca-se, como não poderia deixar de ser. Por isso, recomendo que vejam o filme, se possível, com um bom sistema de som. Nota final para Tom Hulce que, segundo consta, terá estudado música e praticado as peças de Mozart afincadamente, tendo sido o próprio a tocar os instrumentos sem recurso a duplos no filme.


Fun Fact:  O filme reavivou o interesse na obra de Salieri que, até então, estava remetida à obscuridade. 


sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Advento 2020 - 18/25 - The Hunt for Red October (1990)

 No confina-confina e volta a confinar, resolvi fazer um género de calendário de advento com algumas sugestões cinematográficas até ao dia natal. A ideia é simples: 25 dias, 25 filmes. 

 
The Hunt for Red October (1990)


Faleceu no último mês de Outubro Sean Connery, mais do que um actor, um ícone do cinema. Tornou-se famoso vestindo a pele do agente secreto 007-James Bond (tendo participado em 5 filmes da série) e, através do seu sotaque e charme escocês, criou uma personagem que sobreviveu ao passar dos anos e que extravasou os escritos de Ian Fleming. Bond, James Bond será sempre Connery, Sean Connery. 

No entanto, a sua filmografia está longe de se resumir ao papel de 007. Há outros papeis memoráveis na sua longa carreira, como por exemplo em: The Untouchables, The Name of the Rose, Highlander, Time Bandits ou The Hunt for Red October, filme que sugiro hoje. 

The Hunt for Red October (THRO) é uma obra John McTiernan, realizador de Die Hard e Predator, cujo argumento se baseia num romance do Tom Clancy, escritor especializado em romances de espionagem e ciência militar. Clancy foi também o criador de Jack Ryan, personagem principal de vários dos seus romances incluindo THRO. No filme, Ryan é interpretado por um Alec Baldwin ainda com cara de bebé. 

O enredo de THRO decorre em plena guerra fria, em que a ameaça de um conflito com recurso a armas nucleares pairava no ar. Nesta história os russos conseguiram criar um submarino nuclear, o Red October, com a capacidade de passar despercebido nos radares dos inimigos. Este submarino é dirigido por Marko Ramius (Sean Connery), capitão ao serviço da URSS que resolve desertar, tendo como objectivo entregar o submarino aos americanos e assim evitar uma guerra nuclear. 

Apesar de se passar em grande parte num submarino, THRO é um bom filme de acção, que entretém com qualidade. Não é uma obra-prima, mas tem boa fotografia, que passa no teste do tempo, e tem uma banda sonora bastante interessante, a cargo de Basil Paledouris. Acresce a isto, o elenco de luxo com Sean Connery à cabeça, desepenhando de forma sublime o ambíguo Ramius, mas também destaque para Baldwin, Sam Neill, Scott Glenn, James Earl Jones, entre outros. 


Fun Fact: Quando The Hunt for Red October foi lançado em formato VHS, as cassetes eram vermelhas.




quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Advento 2020 - 17/25 - The Two Popes (2019)

  No confina-confina e volta a confinar, resolvi fazer um género de calendário de advento com algumas sugestões cinematográficas até ao dia natal. A ideia é simples: 25 dias, 25 filmes. 


The Two Popes (2019)

Hoje, dia 17 de Dezembro, comemora-se o 83º aniversário do argentino, Jorge Maria Bergoglio, mais conhecido por Papa Francisco. O seu papado (soa-me sempre estranho) tem ficado marcado pelo registo mais aberto e descontraído, contrastando em grande medida com o seu antecessor, o alemão Ratzinger, Papa Bento XVI.

Esta diferença de atitude é retratada em Two Popes, filme de Fernando Meirelles (tinha de ser do realizador de Cidade de Deus) que conta a história da renúncia de Bento XVI (Anthony Hopkins) e respetivas razões que o levaram a abdicar, bem como as peripécias que antecederam a nomeação de Francisco (Jonathan Pryce). No filme os dois papas são retratados como sendo diametralmente opostos, Bento – fechado, ortodoxo, conservador, carrancudo e Francisco – aberto, liberal, progressista, simpático. Em linguagem pré-escolar, o Papa “Mau” e o Papa “Bom”. Claro que uma obra de ficção ganha com a diferenciação marcada das personalidades, algo que na vida real duvido que seja tão evidente, pelo menos na privacidade.

Quanto ao filme? Vê-se como quem bebe um chopinho, é levezinho e diverte, ideal para assistir num Domingo à tarde frio e chuvoso. O enredo em si não é extraordinário, mas tem as artimanhas certas para nos fazer emocionar e, a espaços, sorrir. Há uma cena em que os dois papas comem pizza e bebem fanta, o que tem alguma piada, mas já não via um Product Placement tão descarado há muito tempo.

Destaque final, mas não menos importante, para os desempenhos de Hopkins e Pryce. São duas atuações maiores do que o filme e dada a sua excelência foram merecedoras de nomeações para os oscares.


Fun Fact: Nenhuma das cenas foi filmada no Vaticano, a produção não obteve autorização para o fazer.


quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Advento 2020 - 16/25 - Cinema Paraíso (1988)

 No confina-confina e volta a confinar, resolvi fazer um género de calendário de advento com algumas sugestões cinematográficas até ao dia natal. A ideia é simples: 25 dias, 25 filmes. 


Cinema Paraíso (1988)

Ennio Morricone abandonou-nos no dia 6 de Julho deste ano, tendo deixado um amplo legado de extraordinárias bandas sonoras, muitas entraram para história do cinema.

Felizmente, tive a oportunidade de assistir ao seu último concerto em Portugal, onde o autor italiano, já bastante limitado ao nível da locomoção, agraciou o público com os temas icónicos da sua obra. À medida que as músicas ecoavam no Meo Arena, na minha mente ia-se fazendo, de forma instantânea, a correspondência entre os sons produzidos pela orquestra e as cenas dos filmes, algo que despertou em mim, sentimentos sinceros de nostalgia e emoção.

A sua carreira como compositor de bandas sonoras ganhou notoriedade através da frutífera parceria com Sérgio Leone, sendo exemplo disso: Por um Punhado de Dólares, O Bom, o Mau e Vilão, Era uma Vez no Oeste, etc. Após esta fase dos anos 70, nunca mais parou de compor para cinema e televisão, colaborou com os mais diversos realizadores (Tarantino, Oliver Stone, Brian De Palma, Carpenter, …), sendo-lhe atribuídos créditos em mais de 400 títulos.

Assim, a sugestão de hoje recai sobre um filme italiano cuja banda sonora de Ennio Morricone é das mais marcantes do seu reportório. Refiro-me ao comovente Cinema Paraíso de 1988, realizado por Giuseppe Tornatore. Esta obra  conta a história de Toto, um cineasta bem-sucedido que recebe a triste notícia da morte de Alfredo, seu amigo e projetista da pequena cidade onde cresceu. Graças a esta infeliz novidade, Toto viaja de novo até à sua meninice e recorda os momentos que passou com Alfredo no cinema da pequena cidade. Foi nesta altura que se apaixonou pela sétima arte. Lembra-se por exemplo, dos primeiros filmes que viu, espreitando pelas cortinas nas sessões em que o Padre, como sensor, via os filmes antes das estreias para verificar se havia cenas com beijos com o intuito de as mandar cortar.

(SPOIL ALERT) É interessante perceber, como numa determinada época o cinema era um acontecimento social, em que famílias inteiras partilhavam as sensações que o grande ecrã lhes transmitia. Em cinema paraíso, há várias cenas em que este aspeto é retratado e o momento em que o cinema da cidade arde pode ser entendido como uma metáfora para o fim dessa era, a era dourada do cinema.

 Em Cinema Paraíso é tudo perfeito: o elenco, a guião, o desempenho dos actores, a música, as emoções. Um filme que obrigatoriamente se tem de ver antes de morrer.

Fun Fact: No final de 1956, Itália era o país com mais cinemas da Europa, cerca de 17.000.

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Advento 2020 - 15/25 - Free Solo (2019)

 No confina-confina e volta a confinar, resolvi fazer um género de calendário de advento com algumas sugestões cinematográficas até ao dia natal. A ideia é simples: 25 dias, 25 filmes. 


Free Solo (2018)

Para a sugestão de hoje, resolvi trazer algo diferente para desenjoar dos filmes tradicionais: um documentário e logo o vencedor do Oscar em 2018, Free Solo.

Realizado por Elizabeth Chai Vasarhelyi e Jimmy Chin, Free Solo acompanha a preparação do alpinista (engraçado que só agora me apercebi que alpinista advém da palavra Alpes) Alex Honnold, um grande maluco que pretende escalar a formação rochosa El Capitan, no Parque Nacional Yosemite, sem recurso a qualquer equipamento. Não há cordas, não há ajuda do público, nem picaretas, nem tão pouco paraquedas. Poderá usar unicamente, as mãos, a sua experiência e os tomates (que é preciso tê-los para fazer uma coisa destas). Se escorregar e cair, os destinos mais certos são a cadeira de rodas ou o caixão.

Assim, este documentário centra-se nos treinos de Honnold. Essencialmente, na componente de análise detalhada dos movimentos que terá de executar para escalar o rochedo e na sua preparação mental, algo de extrema importância. Durante o processo somos maravilhados pelas magnificas paisagens do Yosemite, capturadas através de filmagens de vários pontos do rochedo e outras aéreas com recurso a drones. Além da beleza estas imagens ajudam-nos a perceber a dimensão do desafio e a ter uma ideia relativa da altura do rochedo (c. 2000metros), algo que simultaneamente vai criando alguma tensão em quem vê.

Essa tensão desagua no final do documentário, altura para a qual está reservada a tão ansiada tentativa de escalada em modo Free de Honnold, momento de cortar à faca ou de fio da navalha (usem a arma branca que quiserem), cujo final não vou revelar. Vejam 😉.


Fun Fact: As filmagens a partir do rochedo foram realizadas por alpinistas experientes. Não obstante, um dos maiores receios para a produção foi a eventualidade de algum destes cameramans podere causar algum tipo de distração em Hannold. 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Advento 2020 - 14/25 - The Prestige (2019)

No confina-confina e volta a confinar, resolvi fazer um género de calendário de advento com algumas sugestões cinematográficas até ao dia natal. A ideia é simples: 25 dias, 25 filmes. 


The Prestige (2006)

The Prestige é um verdadeiro duelo de titãs pela consagração na magia, Christian Bale vs. Hugh Jackman. A narrativa é dividida em três passos como num truque de ilusionismo, o que de resto é referido no preâmbulo do filme:

"Every great magic trick consists of three parts or acts. The first part is called "The Pledge". The magician shows you something ordinary: a deck of cards, a bird or a man. He shows you this object. Perhaps he asks you to inspect it to see if it is indeed real, unaltered, normal. But of course... it probably isn't. The second act is called "The Turn". The magician takes the ordinary something and makes it do something extraordinary. Now you're looking for the secret... but you won't find it, because of course you're not really looking. You don't really want to know. You want to be fooled. But you wouldn't clap yet. Because making something disappear isn't enough; you have to bring it back. That's why every magic trick has a third act, the hardest part, the part we call "The Prestige"".

E, assim, o filme segue numa battle incessante pela obtenção do truque mais impressionante, doa a quem doer, sofra quem sofrer. Não chega fazer um coelho sair da cartola, é preciso fazer uma cartola sair do coelho.

Michael Caine desempenha brilhantemente o papel de Cutter, mestre mais velho dos dois mágicos e funciona como ponto de equilíbrio, ora pendendo para o lado Robert Angier (Jackman), ora para o lado de Alfred Borden (Bale). No entanto, o verdadeiro ilusionista é Christopher Nolan que, habilmente, consegue, como num espectáculo de magia, manter o suspense até ao cair do pano.


Fun Fact: A palavra Prestige (prestígio) tem origem no latim praestigium e significava ilusão.

domingo, 13 de dezembro de 2020

Advento 2020 - 13/25 - Klaus (2019)

 No confina-confina e volta a confinar, resolvi fazer um género de calendário de advento com algumas sugestões cinematográficas até ao dia natal. A ideia é simples: 25 dias, 25 filmes.  

Klaus (2019)

Neste calendário de Advento não podia faltar um filme de animação. Ainda pensei sugerir um grande clássico da Disney, Dreamworks ou dos estúdios Ghibli, mas resolvi escolher Klaus de Sergio Pablos, produzido em Espanha para a Netflix. Foram 3 os motivos:

1) É um filme natalício, mais precisamente sobre as origens do Pai Natal. A história passa-se numa ilha perdida do ártico, local em que as pessoas são carrancudas, não falam umas com as outras, muito menos através de cartas, onde vai parar um aspirante a carteiro, Jesper (Jason Schwartzman). A Jesper foi atribuída a missão quase impossível de reativar a atividade postal daquele lugar, tendo como quase única aliada a professora local, Alva (Rashida Jones).  Como vai conseguir que pessoas que se odeiam, enviem cartas? Mais, como vai conseguir pôr estas pessoas simplesmente a falar? Ainda na ilha, numa solitária cabana repleta de brinquedos manufaturados, vive Klaus (J.K. Simons), um carpinteiro de idade avançada, corpulento e com umas fartas barbas brancas - lembra alguém? 

2) É daqueles filmes para miúdos que os graúdos adoram ver. Inclusivamente, acredito que haja pais que peçam aos filhos para ver este desenho animado. "Papá quero ver o SaW. Não queres ver antes o Klaus pequenito?"  Apesar de começar num tom sombrio, numa ilha cinzenta com habitantes sisudos, aos poucos o gelo vai-se derrentendo, surgindo momentos de muita ternura, fofura e alguma emoção. Sugiro que tenha um pacote de lenços à mão. Não faltam também momentos realmente cómicos, proporcionadas por algumas personagens meio tresloucadas.  Portanto, é divertido, é fofo, é comovente, é mágico como se pede no natal, e vê-se bem, se possível, a comer Ferrero Rocheres junto à lareira.

 3) Nomeado para o Oscar de melhor filme de animação em 2019, Klaus contou com o contributo de dois gémeos portugueses. Os irmãos Sérgio e Edgar Martins colaboraram no desenvolvimento do filme, nomeadamente nos departamentos de animação e supervisão de storyboard. Numa entrevista ao Observador, Sérgio destacava o facto de Klaus ter sido feito em 2D tecnologicamente avançado - em que cada frame que aparece no ecrã foi desenhado à mão. Ao contrário do que acontece nos filmes 3D - em que as personagens são desenhadas à mão e depois os animadores usam um software para as fazer mover. Pessoalmente, gosto muito mais de ver um filme de animação 2D, em 3d tudo parece insuflado.

Cresci com o aparecimento de grandes clássicos da Disney, Rei Leão, Aladino, Pequena Sereia, Pocahontas, Mulan, etc, ou seja, com uma fasquia muito elevada ao nível de filmes de animação. Por isso, tendo a olhar com alguma sobranceria para a novidade. Não obstante, reconheço que nos últimos anos têm surgido obras de animação muito interessantes e Klaus é disso exemplo.

Fun Fact: A produção e desenvolvimento do filme envolveu artistas de 22 países diferentes.                     


sábado, 12 de dezembro de 2020

Advento 2020 - 12/25 - 12 Angry Men (1957)

No confina-confina e volta a confinar, resolvi fazer um género de calendário de advento com algumas sugestões cinematográficas até ao dia natal. A ideia é simples: 25 dias, 25 filmes.  

12 Angry Men (1957)

Neste dia 12 de Dezembro do mês 12, ou seja, o dia das dúzias, ainda pensei em 12 Indomáveis Patifes mas não podia perder a oportunidade para falar sobre 12 Homens em Fúria (EN: 12 Angry Men).


É um filme magnífico de Sidney Lumet (realizador de Dog Day Afternoon), cujo argumento de Reginald Rose é dos melhores da história do cinema, na minha opinião. Nesta obra, praticamente só o texto e a forma como é interpretado interessam, o resto é acessório ou minimal. Não há cenários, não é relevante a banda sonora. Apenas existem 12 homens a conversar dentro de uma sala. A palavra é a rainha, utilizada de forma magistral pelos atores.

A história de 12 Angry Men é sobre 12 homens que fazem parte de um júri no tribunal, com a com responsabilidade de decidir se um jovem rapaz é inocente ou culpado do assassinato do próprio pai. Caso seja considerado culpado, o rapaz será condenado à morte. A decisão tem de ser unânime, ou seja, terão de chegar a um consenso sobre a culpabilidade do réu. Para tal, reúnem-se numa sala fechada e sem contacto com o exterior para discutir e deliberar sem pressões. Tendo em consideração a historial de marginalidade do acusado e as provas apresentadas durante em julgamento, aparamente claras e inequívocas no sentido da condenação, o caso parece óbvio. 

No início da discussão, onze dos membros do júri presumem que o rapaz é culpado e a apenas um o considera inocente. 11 contra 1. Este desalinhamento unipessoal, provoca alguma irritação nos restantes 11, porque consideram que não há razão nenhuma para não despachar o caso rapidamente, dada a contundência das provas.

No entanto esse homem, o jurado número 8 (Henry Fonda), não desiste de analisar os factos e considera que o caso se deve discutir a fundo, alertando que estão perante a condenação à morte de um ser humano, ainda por cima jovem, que sofreu maus tratos praticamente desde que nasceu. Pede que deixem de lado preconceitos, que não haja comportamentos displicentes e que se concentrem no essencial. Não estão a decidir cousa pouca, estão a decidir se alguém deve morrer ou viver.

Entretanto, inicia uma análise detalhada às provas incriminatórias, semeando a dúvida nos restantes jurados… E fico-me por aqui, aconselho vivamente que vejam o filme para conhecer o desfecho da história.

É uma “master piece”, dos melhores filmes de sempre. Surpreende como é que algo tão minimalista é ao mesmo tempo tão denso e complexo. Termino, citando uma das frases que acompanhou a promoção do filme nos cinemas:

Life Is In Their Hands -- Death Is On Their Minds!


Fun Fact: Com a morte de Jack Klugman em 2012 ( jurado número 5), já nenhum dos “12 homens em fúria” é vivo.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Advento 2020 - 11/25 - Mad Max (2015)

 No confina-confina e volta a confinar, resolvi fazer um género de calendário de advento com algumas sugestões cinematográficas até ao dia natal. A ideia é simples: 25 dias, 25 filmes.  

Mad Max (2015)


Como estamos em tempos que parecem o fim do mundo em cuecas (é mais fim do mundo em máscaras), nada melhor do que a sugestão de um filme que lida com um cenário pós-apocalíptico, Mad Max: Fury Road. Este filme é o quarto filme da série Mad Max (apesar de não ser bem uma sequela, nem um reboot) dirigido por George Miller, um realizador que tem como peculiaridade ter produzido os filmes do Porquinho Babe. 

Num futuro próximo, seria engraçado que Miller criasse um cruzamento entre os dois franchises chamado Mad Babe. Ideia para o guião: o Porco Babe a andar de Mota pelo deserto fora, armado até aos dentes, em muitas aventuras com outros animais falantes, fim. Se já os vi a andar de bicicleta, porque não de mota? (peço desculpa, hoje foi um dia complicado)

Voltando a Fury Road, pode-se dizer que é um filme frenético, cuja acção decorre na sua totalidade na estrada e que conta com um elenco de luxo, encabeçado por Tom Hardy e Charlize Theron. Destaque positivo para a fotografia e banda sonora, que ajudam a criar um ambiente digno de um verdadeiro apocalipse. Um aspecto que trouxe algum realismo às cenas foi a primazia dada aos efeitos especiais práticos (maquilhagem, duplos e afins) em relação aos efeitos criados em computador (CGI). Por isto e por muito mais, é provavelmente um dos melhores filmes de acção dos últimos tempos. Parece algo medieval passado no futuro. Já foi anunciada uma sequela, mas ainda sem data prevista para a estreia. 


Fun Fact: Charlize Theron rapou o cabelo para o papel de Furiosa, o que a obrigou a usar peruca no filme que rodou a seguir, A Million Ways to Die in West.



quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Advento 2020 - 10/25 - Green Mile (1999)

No confina-confina e volta a confinar, resolvi fazer um género de calendário de advento com algumas sugestões cinematográficas até ao dia natal. A ideia é simples: 25 dias, 25 filmes.  

The Green Mile (1999)

Se fosse vivo, Michael Clark Duncan faria hoje 63 anos. E perguntam vocês, quem? Um actor que se destacava essencialmente pelo seu tamanho, mas que, apesar de uma curta carreira (começou tarde e morreu cedo), teve participações marcantes em alguns filmes, principalmente no fim da década de 90 e na primeira dos anos 2000, como por exemplo em Armaggedon, Planet of the Apes e Sin City. Como tinha uma imponente voz grave, também fez algumas dobragens de filmes de animação, sendo a participação no Panda do Kung Fu a mais relevante. Antes de se tornar actor, Michael foi segurança de actores famosos, como Martin Lawrence e Will Smith, o que lhe deu acesso a pequenos papéis no início carreira.

Todavia, o papel mais relevante da sua filmografia é John Coffey em The Green Mile (PT: À espera de um milagre). Graças à sua performance foi nomeado para os globos de ouro e para os Oscares, algo que não sonharia uns anos antes.


The Green Mile é uma obra de Frank Darabont, cujo guião é uma adaptação de um romance de Stephen King. Nesta história passada no Louisiana durante a grande depressão, John Coffey é um afro-americano condenado à morte, por alegadamente ter violado e assassinado duas raparigas. Na prisão e enquanto aguarda no “corredor da morte”, impressiona os guardas pela sua presença mastodôntica, pela sua simpatia e, aos poucos, pela aparente capacidade para realizar milagres. 

Um dos guardas que se torna seu amigo é Paul Edgecomb (Tom Hanks), ele próprio alvo de um milagre quando Coffey, apenas com recurso às suas mãos, o cura de um cancro da próstata. (é de um Coffey destes que o SNS precisa). Como um homem tão bom pode ter praticado crimes tão hediondos? ainda por cima afirma ser inocente... Com esta dúvida na cabeça, Paul inicia uma investigação com o objetivo de apurar os factos reais e, quem sabe, salvar o bom Jonh Coffey da cadeira elétrica. 

É um filme com uma enorme carga emocional e que pode mexer com os sentimentos e ideias de quem o vê. A mim, além de me pôr a chorar baba e ranho (chorar ranho?), pôs-me  refletir no quão desumano e contranatura é a pena de morte. 

Fun Fact: Foram usados 15 ratos durante as filmagens, devidamente treinados durante meses para atuarem da forma pretendida.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Advento 2020 - 9/25 - Paths of Glory (1957)

 No confina-confina e volta a confinar, resolvi fazer um género de calendário de advento com algumas sugestões cinematográficas até ao dia natal. A ideia é simples: 25 dias, 25 filmes. 


Paths of Glory (1957)

A primeira guerra mundial caracterizou-se por longos confrontos nas trincheiras, sem que nenhum dos lados conseguisse ganhar terreno. Por mais de dois anos, o avanço não foi mais de 15km, no entanto as baixas registadas foram elevadíssimas. Estima-se que terão morrido mais de 20 milhões de pessoas em toda a guerra, sendo que 35% das mortes ocorreram nas trincheiras pestilentas e lamacentas.  Um verdadeiro desperdício de homens. É neste cenário, que decorre a ação do filme Paths of Glory.


Em pleno impasse nas trincheiras e sem vantagem percetível, o general francês Paul Mireau (George Macready) ordena ao esquadrão do Coronel Dax (Kirk Douglas), um ataque contra os alemães, cujas probabilidades de sucesso eram praticamente nulas. O objetivo era ser promovido, o resultado: Tragédia. O general para salvar a pele atribui o fracasso aos pobres soldados e como se não bastasse ainda leva três deles a tribunal com acusações de covardia, cuja pena era o fuzilamento (quem se lixa é sempre o mexilhão). Dax não aceita a injustiça praticada para com os seus homens e prontifica-se para ser o seu defensor no tribunal marcial.  Para saber o desfecho vejam o filme 😉.

É uma obra de Stanley Kubrick em que o realizador explora, de forma perfeita, as ironias do argumento e da própria guerra. Recorre a um jogo de contrastes para o fazer: vida tranquila e até com algum requinte das altas patentes, que inclui bons almoços e até bailes vs. vida miserável dos soldados nas trincheiras, que inclui bombas, peste e até ratos.

Tive a oportunidade de rever o filme ontem e o melhor elogio que lhe posso fazer é afirmar que envelheceu muito bem. Apesar de só ter 29 anos quando realizou assinou este título, Stanley Kubrick já demonstrava uma mestria de um realizador com carreira feita.  Impressionou-me o realismo das cenas, tanto pelas imagens como pela qualidade dos efeitos sonoros.  

Por fim, gostaria de destacar o desempenho de Kirk Douglas, perfeito no papel do honesto e correto Coronel Dax. Se fosse vivo, Kirk faria hoje 103 anos, mas infelizmente faleceu em Fevereiro deste ano.

Fun Fact; Winston Churchill afirmou que o filme era uma representação altamente precisa da guerra das trincheiras e do funcionamento às vezes equivoco da mente militar.


terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Advento 2020 - 8/25 - Cidade de Deu (2002)

No confina-confina e volta a confinar, resolvi fazer um género de calendário de advento com algumas sugestões cinematográficas até ao dia natal. A ideia é simples: 25 dias, 25 filmes. 


Cidade de Deus (2002)

Com elevado reconhecimento mundial, Cidade de Deus é um dos filmes falado em Português mais populares de sempre. 

Julgo que o seu sucesso se deve em grande medida à autenticidade das personagens, algumas delas interpretados por habitantes da Cidade de Deus, uma das favelas mais perigosas do Rio de Janeiro. Chama-lhe Cidade de Deus, mas é um inferno para quem lá vive.


O realizador Fernando Meirelles teve a arte de construir um enredo que amarra o espectador do início ao fim do filme.  No centro da história e como narrador temos Buscapé (Alexandre Rodrigues), um rapaz da favela que acompanha os acontecimentos e sonha ser fotógrafo de jornal. Buscapé vai relatando a história da Cidade de Deus e das suas principais figuras - Buscapé, Dadinho/Zé Pequeno, Bené, Cabeleira, Cenoura, Mané Galinha, etc - recorrendo a flashbacks de episódios marcantes da favela entre os anos 60 e 80. A forma como Meirelles reparte as histórias por capítulos e por personagens lembra o estilo de Quentin Tarantino, por exemplo em Pulp Fiction e aguça-nos a curiosidade para saber o seu desfecho. 

Assim de acordo com a forma como Buscapé vai contando a história, pode dividir-se o filme em 3 partes:

1º Parte (anos 60) - Por falta de planeamento e visão, os sem terra e refugiados vão se aglomerando na favela, lugar sem condições que vai agregando pobreza. O crime existe, mas os bandos ainda são amadores, uns vigaristazinhos de bairro. 

2ª Parte (anos 70) - A favela cresce descontroladamente e a explosão do tráfico de droga transforma os bandidos locais em traficantes. Apesar de criminosos e de forma a garantir que os consumidores (meninos de "bem") se sintam seguros para ir comprar droga à favela, estes traficantes mantém alguma ordem. 

3ª Parte (anos 80) - Através do dinheiro da venda de droga, os traficantes armam-se até aos dentes e com o objetivo de dominar o mercado, entram num conflito sangrento. 

E a polícia? Além de subornada para nada fazer, ainda ganha o seu quinhão com a venda de armamento para os dois lados da barricada. 

É um filme violento e brutal, que retrata o pior que existe de desumano no humano. As cenas mais impressionantes, para mim, são aquelas em que crianças que ainda não sabem ler nem escrever matam e roubam como se bebessem água. E um pensamento sobressaiu na minha mente quando acabei de rever o filme: o sítio onde nascemos condiciona sempre o caminho que seguimos. Recomendo vivamente.



Fun Fact: O papel de Mané Galinha é interpretado pelo famoso cantor Seu Jorge. 

 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Advento 2020 - 7/25 - Pulp Fiction (1994)

No confina-confina e volta a confinar, resolvi fazer um género de calendário de advento com algumas sugestões cinematográficas até ao dia natal. A ideia é simples: 25 dias, 25 filmes. 


Pulp Fiction (1994)

Após alguns comentários a posts anteriores, contendo sugestões para incluir um filme de Quentin Tarantino, resolvi escolher 0 título do autor que mais me marcou: Pulp Fiction. Basicamente, porque, ainda na adolescência, foi o primeiro contacto que tive com a obra do realizador, numa sessão obscura da RTP2 e apesar de não estar preparado para violência, lembro-me de ter ficado maravilhado com o filme. Era algo completamente diferente do que tinha visto até então, nomeadamente ao nível de diálogos e estética.

Pulp Fiction traduzido à letra é ficção de polpa, e neste caso de tomate, tendo em conta os litros de "sangue" que são jorrados durante o filme.



Resumidamente, o argumento desenvolve-se através de um esquema de tramas paralelas que, à medida que o enredo vai avançando, começam a convergir e a interceptar-se. Assim, podemos dividir o filme em 4 histórias:

O assalto a uma da lanchonete levado a cabo por Pumpkin (Tim Roth) e Honney Bunny (Amanda Plummer) - claramente inexperientes na arte do crime.


A saga de Vicent Vega (John Travolta) e Jules Winnfield (Samuel L. Jackson) na procura de uma misteriosa mala para um mafioso, Marsellus Wallace (Ving Rhames) - são os man in black de serviço. Atualmente, tendo em conta a quantidade de memes com estas duas personagens, podemos dizer que são verdadeiramente memeráveis. Quem viu o filme não esquece as citações proferidas por Winnfield sempre que vai executar alguém. Ezequiel 25:19, consulte uma bíblia perto de si para saber.


O romance entre Mia (Uma Thurman) e Vincent Vega (tem mesmo nome de personagem de Street Fighter) que protagonizam uma das mais icónicas cenas de dança da história do cinema. Curiosamente, Uma Thurman não gostava muito da música escolhida para a cena, Never Tell de Chuck Berry. No entanto, Tarantino convenceu-a que era absolutamente perfeita. Ficou para a posteridade uma dança que tem tanto de maluca como de cativante. 



combate  de Butch (Bruce Willis), veterano lutador de boxe, que acorda com Wallace  (0 mafioso) um esquema para perder de propósito, obtendo assim grandes ganhos com as apostas - Butch tem como companheira a doce e inocente Fabienne, papel interpretado por Maria de Medeiros, irmã da presidente da câmara de Almada, Inês de Medeiros e filha do maestro José Vitorino de Almeida (momento passadeira vermelha). 


Na minha opinião, é o melhor filme de Tarantino e um dos meus filmes preferidos. Desde a qualidade do argumento, aos diálogos, que através do recurso ao storytelling, dão uma sensação de naturalidade à narrativa. Sem esquecer o elenco, que se adapta na perfeição às personagens e por fim, a quantidade de cenas estonteantes, algumas delas permanecerão na memória da cultura popular por muito tempo. 

Um pouco como Reservoir Dogs, este filme foi uma pechincha. Custou cerca de $8 milhões e teve um lucro de bilheteira de aproximadamente $200 milhões.

Fun Fact: A palavra Fuck é proferida 65 vezes.