sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Ciclos - Comédias anos 90 - Doidos por Mary (1998) / American Pie (1999)

5ª e 6ª Feiras - Doidos por Mary (1998) / American Pie (1999)

O fim de semana aproxima-se velozmente, portanto é a altura certa para encerrar o Ciclo de Comédias dos anos 90 com duas sugestões agradáveis: Doidos por Mary (1998) e American Pie (1999). Não são obras-primas, mas como são filmes que já passaram imensas vezes na televisão e que quase toda gente já viu são ideais, enquanto se passeia pelas brasas, para ser vistos no sofá nestas tardes de Verão. 

Por falar em brasas (peço desculpa pelo abuso de linguagem), Doidos por Mary é um filme que, como o próprio título indica, possui uma narrativa cuja acção se desenvolve em volta da mui garbosa Mary. Personagem interpretada pela deslumbrante Cameron Diaz, esta mulher alta, loura, com um olhar cativante é um autentico íman de homens. Cada tiro, cada melro. Ou melhor, cada tiro, cada pombinho, explicando: cada homem que a conhece, cada homem que por si se apaixona.

E ao longo do filme surgem uma série de pobres coitados que, enfeitiçados e quase ensandecidos pela beleza de Mary, tentam conquistá-la. Entre os pretendentes constam: 

-Ted (Ben Stiller): o amigo totó do liceu de sorriso metálico, nunca conseguiu verdadeiramente assumir a paixão adolescente que tinha por Mary e que agora tenta o reencontro. Protagoniza uma das cenas mais dolorosas da história do cinema, basta visualizarem uma relação entre estas duas palavras, pénis + fecho eclair (ver primeira cena do trailer, feliz ou infelizmente censurada);

- Matt Dillon - o detetive de ar azeitola contratado por Ted para encontrar Mary, que quando a acha, apaixona-se e tenta logo marcar dates, aproveitando-se da informação privilegiada que tinha obtido nas buscas; 

-Tucker (Lee Evans) - o paciente de fisioterapia de Mary, alguém com uma deficiência motora, ou seja, teoricamente com poucas chances de lutar por Mary, no entanto, parece ser o único que verdadeiramente se preocupa com ela (parece...).

- Outros, muitos outros...

E a história é basicamente a luta destes galitos apaixonados em busca de arrebatar o coração da pobre Mary, que a única coisa que tem culpa é ser realmente bonita. É um filme divertido, levezinho (se fosse uma bebida seria um chopinho), com bons actores e algumas reviravoltas inesperadas. Realizado por Bobby e Peter Farrelly (esse mesmo, o realizador de Green Book), este título foi um estrondoso sucesso de bilheteira, c. $370m de facturação face a um orçamento de apenas $23m, o que é caso para dizer que realmente todos andávamos doidos por Mary.


Fun Fact: Matt Dillon e Cameron Diaz namoravam há uns 3 anos na altura em que o filme foi rodado, no entanto iriam terminar a relação pouco depois da estreia. (este fun fact foi digno da passadeira vermelha).

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American Pie, o primeiro filme realizado pelos irmãos Weitz, estreou no Natal de 99 e rapidamente se tornou um enorme êxito entre os adolescentes da altura, atingindo uma receita global de bilheteira de c. $235m. O sucesso foi de tal ordem que deu origem a um franchise, que conta neste momento com 3 sequelas - American Pie 2 (2001), American Pie, O Casamento (2oo3) e American Reunion (2012) - e ainda 5 spin-offs - Band Camp (2005), The Naked Mile (2006), Beta House  (2007), The Book of Love (2009) e Girl's Rules (2020).



O filme de 99 conta a história de 4 amigos - Jim (Jason Biggs), Oz (Chris Klein), Kevin (Thomas Nicholas) e Finch (Eddie Thomas) - que, após um dos maiores cromos da escola - o Sherminator (Chris Owen) - aparentemente ter dormido com uma miúda, fazem um pacto: perder a virgindade até ao Baile de Finalistas (o famoso Prom).  


Jim é o totó e o desastrado de serviço que só por milagre conseguirá atingir o objetivo. Ao longo do filme podemos acompanhar as suas descobertas sexuais...Para mim, as cenas que têm mais piada são aquelas em que o pai (Eugene Levi) apanha o filho (Jim) com a boca na botija. Sendo mais claro, a masturbar-se (isso mesmo, com a mão na cobra zarolha), numa situação com uma meia, noutra com uma tarte. Mas sempre que acontece, com calma e paciência, este pai meio atarantado resolve dar conselhos ao filho, ficando sempre um enorme desconforto no ar.


Oz é o atleta que se apaixona pela menina do coro. Kevin é o tipo que namora desde sempre com a mesma miúda. E por fim Finch, que é o intelectual bem falante, com inclinação para mulheres mais velhas... O filme ainda conta com algumas personagens marcantes mas estereotipadas, com destaque para o javardola (vá, o porcalhão), Stiffler (Seann William Scott). 
  
A narrativa não tem muito de original, já nos anos 80 havia filmes de adolescentes deste género, basta relembrar o filme Porky's (1981), em que um grupo de adolescentes tem como único propósito perder a virgindade. Quanto ao humor, é básico e, apesar de libertino, quase infantil. Mas no fim das contas, o filme teve sucesso! Muito provavelmente por se adequar ao público-alvo: adolescentes básicos, quase infantis, com borbulhas a efervescer no rosto e buço selvagem, em busca da descoberta do sexo oposto, num mundo ainda pré-redes sociais e, para muitos, pré-internet.  

Fun Fact: O argumentista, Adam Herz, quando entregou o guião aos estúdios apresentou-o com o título, "Untitled Teenage Sex Comedy That Can Be Made For Under $10 Million Which Studio Readers Will Likely Hate But I Think You Will Love". Tendo passado para "Easter Great Falls Hight" e por fim, "American Pie".

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Ciclos - Comédias anos 90 - As Good as it Gets (1997)

 4a Feira As Good as it Gets (1997)



Atenção, atenção! As Good as it Gets foi das poucas comédias a merecer reconhecimento pela Academia (*).  Recebeu 7 nomeações na edição de 1998, incluindo para melhor filme, acabando por perder para Titanic (apesar da música da Céline Dion), que nesse ano, ganhou nada mais nada menos do que 11 Oscars (mas nenhuma nomeação sequer para o Leo Di Caprio). Mesmo assim, o filme realizado por James L. Brooks conseguiria arrecadar 2 estatuetas douradas: melhor Actor Principal para Jack Nicholson e melhor Actriz Principal para Helen Hunt. Depois de rever o filme e as performances  verdadeiramente notáveis destes dois actores, considero justíssima a atribuição destes prémios.

A história não foge muito à de uma típica comédia romântica. Jack Nicholson é o rezingão Melvin Udall, um escritor com um transtorno obsessivo-compulsivo do género: não calca linhas dos azulejos ou calçadas, e é obcecado pela higiene. Por exemplo, só usa pratos e talheres descartáveis e só utiliza sabonetes uma vez. Ainda por cima tem laivos de misoginia, racismo e homofobia. Portanto, estamos perante um tipo afável. Mas apesar de ser o que em termos técnicos se chama um calhau com olhos, dois seres começam a derreter lentamente o coração de pedra de Melvin. Por um lado, o cão (Verdell) do seu vizinho homossexual, Simon Bishop (Greg Kinear). Numa cena inicial até se vê Melvin a atirar o cão para o lixo, no entanto, quando é "obrigado" a tomar conta do animal por incapacidade de Simon, apaixona-se pelo bicho. Em cenas seguintes, é possível observar Melvin a passear o cachorrinho pela rua (ver abaixo) e a alimentá-lo com generosas doses de bacon (o colesterol do cão, upa-upa, a continuar assim teria um ataque cãordiaco, desculpem). 

O outro "ser" é a empregada de balcão do restaurante onde Melvin costuma almoçar, Carol Connelly (Helen Hunt). A única empregada com paciência para as taras e manias (agora lembrei-me de Marco Paulo) de Melvin, apesar de por vezes ser durona com ele. Aos poucos vão-se aproximando e a comédia romântica desenvolve-se no sentido em que todas as comédias românticas se desenvolvem, neste filme porém, com a graciosidade do talento de Nicholson e Hunt.

Hoje em dia, há muitas comédias cujas piadas são disparadas de forma torrencial com o objetivo de prender o espectador, mas com clara perturbação da lógica da narrativa. Por isso, sabe bem ver um filme como As Good as it Gets, cujas piadas são bem e pacientemente construídas  em torno da narrativa, em oposto a outros filmes, em que a narrativa parece um mero anexo de uma batelada de graçolas. Na minha opinião, este aspecto torna este filme uma referência no género da comédia. Eis o trailer:


Fun Fact: O cão que interpreta Verdell permaneceu em casa de Jack Nicholson durante toda a rodagem do filme. 


(*) - A comédia costuma ser um parente pobre no que a prémios da Academia diz respeito. Em 92 edições, poucas foram as vezes em que um filme deste género ganhou o Óscar para melhor filme. Nos últimos 50 anos e excluindo musicais, apenas me lembro de 3: Annie Hall, Forrest Gump e Slumdog Billionaire. 


sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Ciclos - Comédias Anos 90 - The Mask

3ª Feira - The Mask (1994)


Ssssssssssssssssmokin!!! Provavelmente, The Mask é um dos filmes que mais vi na vida. Quando estreou ainda era catraio, mas aquela cassete do tipo da máscara verde, que faz lembrar senhoras que usam cremes faciais antes de dormir ou alguém com uma gastrite severa, já se sentia perfeitamente em casa dentro do meu videogravador. O filme estreou em 1994 e apesar de um orçamento modesto, apenas $23m, foi um enorme êxito, tendo atingindo uma facturação de $351m. Tornou-se rapidamente, levando em consideração o investimento inicial, na adaptação de BD  da história do cinema mais rentável (c. 1430% de ganho). Apenas,recentemente, foi ultrapassada pela adaptação de Joker (c. 1525%). 

Estes números  confirmam a sensação que pairava nas minhas memórias de juventude, a de ter existido uma verdadeira Maskmania (infelizmente estamos a viver outra) e do filme ter sido um grande sucesso no público mais juvenil.  Recordo-me perfeitamente de ter visto na RTP, a série de desenhos-animados criada na sequência do filme (1995) e do merchandising  associado ao filme circular pela escola, por exemplo, máscaras, brinquedos e lancheiras. 

The Mask foi realizado por Chuck Barker, um director com uma carreira pouco brilhante, apesar de contar no seu curriculum com alguns filmes conhecidos, tais como, Eraser (1996) e Scorpion King (2002) - filme que marca a estreia de Dwayne Johnson como actor principal, que até lá, andava noutras lutas (literalmente). Sem embargo, em The Mask fez um excelente trabalho, desde a escolha do elenco, aos magníficos efeitos especiais, passando pelos cenários coloridos, até à história com bom nível de comicidade, e não esquecendo a banda sonora, está tudo no devido lugar.

Se os efeitos especiais desempenham um papel de relevo neste filme, bastante bons para altura diga-se, e que por vezes conseguem criar a sensação ao espectador de estar dentro de um desenho-animado, o grande destaque tem de ser dado ao elenco, nomeadamente a Jim Carrey e Cameron Diaz. 

Em 1994, Jim Carrey ainda estava longe de ser uma estrela mundialmente conhecida. Era um actor com background do standup e tinha atingido nesse ano, o seu primeiro sucesso no cinema com o filme Ace Ventura. Quando em The Mask pode finalmente apresentar-se ao mundo, dando vida a uma personagem tão carismática, que oscila entre o perfeitamente normal e o completamente insano, utilizando para isso o seu imenso talento para o humor físico, a sua fama não parou mais de crescer, apesar de muita gente o achar irritante(*)

A personagem é Stanley Ipkiss, um pacato bancário, tímido e solteirão, daquele tipo de pessoas que evita todo e qualquer confronto com medo de magoar o outro. Um dia, por mero acaso, encontra uma máscara misteriosa no meio de um rio. Quando a experimenta, descobre que a máscara tem poderes sobrenaturais (é a do Deus nórdico Loki), e com o seu uso transforma-se num super-herói malvado, quase uma espécie de cruzamento entre o diabo da Tasmânia e o Bugs Bunny. Com a máscara os sentimentos recalcados no acanhado Ipkiss explodem, fazendo com que este, atuando quase como um desenho-animado tresloucado, comece a fazer coisas verdadeiramente alucinantes, permitindo-lhe também seduzir a deslumbrante Tina Carlyle, interpretada por uma sedutora e hipnotisante Cameron Diaz. Lembrando um pouco a história do Obélix, Ipkiss com a máscara verde parece um tipo que caiu num caldeirão, não de poção mágica, mas de ácidos. 

Talvez não saibam mas Cameron Diaz estreou-se neste filme, com uma interpretação de um papel de  Femme Fatale bem ao estilo de Jessica Rabbit. Com este filme ganhou fama e durante os anos 90 a sua notoriedade atingiu o auge, tornando-se numa das meninas bonitas (que expressão à velho) de Hollywood. A sua beleza e sensualidade, bem com química com Jim Carey fica patente em cenas como a da dança no Coco Bongo, uma das minhas favoritas do filme:


Ssssssmokin!!!!!

Fun Fact: A colocação da máscara e respectiva caracterização de Jim Carrey demorava cerca de 4 horas.

(*) - Recentemente vi uma série brilhante cujo actor principal é Jim Carrey, a série chama-se Kidding e recomendo vivamente.   

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Ciclos - Comédias Anos 90 - Big Lebowski

Para desenjoar de ciclos mais sisudos e como no Verão sabem bem saladas, melancia e coisas mais levezinhas, o próximo ciclo será dedicado a comédias, mais precisamente às da década de 90. Resolvi escolher 5 filmes que marcaram a minha infância/adolescência e que, sempre que estão a passar na TV boto o olhinho, vejo e revejo e quase sempre fico mais bem disposto. Esta selecção não tem propriamente obras-primas (talvez nem parentes afastadas), no entanto, no género da comédia até são filmes de certa forma consensuais, a saber:

- The Big Lebowski (1998)
- The Mask (1994)
- As Good as it Gets (1997)
- American Pie (1999)
- Doidos por Mary (1998)

Na minha opinião, todos estes títulos são cómicos sem ser demasiado patetas, ou seja, não resvalam para filmes tipo Academia de Polícia (seria até um ciclo interessante, porque são filmes tão maus que quase dão a volta) ou alguns filmes do Adam Sandler. Adicionalmente, reúnem bons elencos, recheados de mestres na arte do humor e paródia suficiente para estimular a libertação de gargalhadas, nem que seja num Domingo pela tardinha. 

2ª Feira - The Big Lebowski (1998)



Resolvi começar este ciclo em grande e com o grande Lebowski. É um filme que quando estreou passou um pouco despercebido do grande público, contudo paulatinamente foi ganhando aura de película de culto, sendo hoje considerado uma obra icónica (muito graças à figura do Dude) e um grande inspirador de memes.


De forma sucinta, mas não telegráfica:


- The Big Lebowski é Irmãos Cohen: Escrito, produzido e realizado por Joel e Ethan Cohen, este filme não foge aos cânones da sua obra - filmes de crime com um traço cómico, cujas personagens principais são peculiares e se envolvem em situações invulgares, exemplos; Barton Fink (1991), Fargo (1996) ou No Country For Old Man (2007). Os irmãos Cohen, para mim, são uns dos maiores contadores de histórias (storytellers soa mais fino) dos últimos 30 anos e The Big Lebowski não foge a esta regra. Para quem gosta do género, recomendo a série Fargo da Netflix. 

- The Big Lebowski é coincidência: Neste filme, a história gira em torno de Jeff Lebowski (Dude), e das trapalhadas em que se envolve a partir do momento em que é confundido com outro Jeff Lebowski (qual a probabilidade de haver dois?), tendo sido atacado por 2 capangas que tinham como objectivo recuperar uns dinheiros devidos pela mulher do outro Lebowski, a um realizador de filmes pornográficos. A partir daqui as peripécias são muitas e complicadas de explicar aqui sem spoil, o melhor é mesmo ver o filme. A narrativa contém alguns plot holes, mas a quantidade de cenas épicas é tal que se desculpam algumas falhas do guião.

The Big Lebowski é Dude (a personagem principal do filme): em Português a tradução mais próxima de "Dude" será " o Gajo". Um tipo que vive o dia-a-dia sem preocupações, dando a ideia que as únicas coisas que importam para a sua vida são mulheres, marijuana e bowling.  De certa forma, acho que a personagem do Dude é idolatrada porque muitos de nós gostaríamos de ser como ele. Ter a capacidade ou falta de consciência para não ligar ao que os outros pensam e fazer o que dá na real gana, como por exemplo, ir ao Supermercado de sandálias e robe. Interpretado magnificamente por Jeff Bridges, o Dude tornou-se quase um Deus da religião (vide fun fact) dos praticantes do Carpe Diem. 



- The Big Lebowski é John Goodman: O ator desempenha um dos papéis mais desconcertantes da carreira e segundo o próprio, um dos que lhe deu mais prazer- o irascível Walter Sobchak, veterano do Vietname e companheiro de Bowling de Lebowski. Com o temperamento equivalente a uma panela de pressão em ebulição, Walter tenta ajudar Lebowski a resolver as trapalhadas em que este se meteu, mas inevitavelmente apenas consegue tornar as coisas piores. A quantidade de frases épicas proferidas por esta personagem é larga, mas vou destacar a seguinte: Life does not stop and start at your convenience you miserable piece of shit.


- The Big Lebowski é um conjunto de actores secundários incríveis: Philip Seymour-Hoffman, Julianne Moore, Steve Buscemi, Sam Elliot e Jon Polito são só alguns dos nomes que compõe o ramalhete de atores talentosos, alguns deles com papéis pequenos mas notáveis. No entanto, gostaria de destacar John Turturro e a personagem "Jesus Quintana" - o arquirival de Lebowski no bowling e um tipo um tanto ou quanto peculiar. Os irmãos Cohen deixaram Turturro introduzir algumas ideias para personagem e o resultado foi o seguinte:


- The Big Lebowski é riso: Se não tiverem nada para fazer, ver este filme é o equivalente a duas horas bem passadas. 

Fun Fact:  Existe um movimento religioso baseado no Dude: The Church of the Latter-Day Dude".