domingo, 7 de fevereiro de 2021

6# Filme da Semana - The Ballad of Buster Scruggs (2018) / No Country For Old Men (2007)

Após o primeiro post, resolvi orientar a rubrica "Filme da Semana" no sentido de fazer um post por semana, mas debaixo de um chapéu temático mensal. Ou seja, em cada mês haverá um tema - Fevereiro será dedicado à carreira dos irmãos Coen. Mas contrariando o título, e sendo eu um grande apreciador da obra dos Coen, vou sugerir/analisar não um mas dois filmes por semana durante este mês.

A carreira dos irmãos Coen teve início nos anos 70, mas apenas começou a ter notoriedade na transição dos anos 80 para os 90.  Blood Simple (1984), Raising Arizona (1987) e Miller's Crossing (1990) foram títulos que mereceram reconhecimento da crítica e começaram a fidelizar público. Durante as três décadas seguintes, os êxitos não pararam de se somar, sempre com grande consistência, nomeadamente ao nível da qualidade dos argumentos.  

Existem algumas características transversais à maior parte dos filmes dos irmãos Coen, a saber:

  • Muitas das suas histórias têm como ponto de partida um crime que correu mal e que partir daí prosseguem em tramas intrincadas e em que o surgimento de coincidências é bastante comum.
  • A narrativa normalmente tem personagens fortes e bem desenvolvidas, quase sempre expostas a grandes dilemas morais. Estas personagens muitas vezes são originárias de uma América profunda e esquecida, universo que os Coen conhecem bem, uma vez que são naturais do Minnesota. Há quem chegue a sugerir que as suas obras fazem parte de uma corrente apelidada Midwestern Gothic. 
  • O tom cómico costuma estar presente, muitas vezes com nuances de humor negro e salpicos de non sense.
É uma receita que não falha e que até já deu origem a uma série, Fargo (homónima ao filme).

The Ballad of Buster Scruggs (2018) 

Vou ser como as crianças e deixar o melhor para fim. Isto é, considero os filmes dos Coen dos anos 90  os mais interessantes da sua carreira, por isso, decidi começar pelos mais recentes da lista que elaborei.

The Ballad of Buster Scruggs é uma compilação de seis violentos contos escritos pelos Coen. O primeiro centra-se em Buster Scruggs (Tim Blake Nelson) - um pistoleiro/cantor que se vê envolvido num jogo de Poker, num saloon perdido no nada, muito mal frequentado. Algo não corre bem e o jogo acaba com Scruggs a assassinar um dos seus oponentes, Joe.  Na sequência e após alguma cantoria, há um duelo à pistola entre Scruggs e o irmão de Joe. Esta história contribui para o título do filme e serve de mote para os restantes contos. 


Para não fazer spoil não vou desenvolver mais. Porém posso garantir que os  elementos dos filmes Coen, anteriormente referidos, estão presentes neste conjunto de histórias passadas no velhinho e longínquo oeste americano. 



A minha opinião é que esta obra tem um bom índice de entretenimento, personagens bem trabalhadas e como está dividido em pequenas histórias, obriga o espectador a estar muito atento à acção que se vai desenrolando, sem no entanto ser maçador. Destaque para o elenco que conta com alguns nomes improváveis, como é o caso do excêntrico músico Tom Waits (imagem acima). 

Este título de 2018 tem a particularidade de ter estreado nos cinemas e uma semana depois na Netflix, estando disponível na plataforma. Sinais dos tempos. Se gostam do trabalho dos Coen, não percam a oportunidade de ver.

Fun Fact: Foi o primeiro projecto dos irmãos Coen filmado no formato digital.


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No Country For Old Men (2007) 

O vencedor do Oscar para melhor filme em 2008 foi No Country for Old Men (PT: Este País não é para Velhos), obra adaptada e realizada pelos irmãos Coen. Trata-se de um filme cujo título não podia vir mais a propósito da situação atual - com o coronavirus à solta e a atacar de forma mais agressiva os nossos anciãos, não é Este País que não é para Velhos, é o próprio mundo. 


No Texas profundo, Llewelyn Moss (Josh Brolin), um caçador que vagueava numa zona deserta em busca de presas, deparou-se com uma cena de crime - vários carros cravejados de balas e corpos espalhados pelo chão (um verdadeiro Texas...). No meio da confusão encontrou uma mala cheia de dinheiro (2 milhões de dólares) e vários fardos de droga (fardo é um bom nome para droga, uma vez que serve também para a palha dos burros).

Em vez de chamar a polícia, a ganáncia falou mais alto e resolve ficar com o pilim (graveto, grana, cacau), algo que fez do próprio um alvo, começando a ser perseguido pelo assassino profissional, Anton Chigurh (Javier Bardem). Começa o jogo do rato e gato, sendo que o gato vai matando todos aqueles que lhe aparecem à frente.

Com a matança em crescendo, Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones) um experiente xerife funcionalmente letárgico, vai-se deparando com os horrendos crimes para os quais não tem meios de combate. Sentindo-se, à medida que o tempo vai passando, cada vez mais ultrapassado e velho para dar resposta à catadupa de acontecimentos e à guerra entre cartéis de droga, começa a vaguear na sua mente uma ideia...  a ideia que aquele país já não era para velhos.

 


No Country for Old Men é um clássico produto dos irmãos Cohen, uma intrincada história de crime passada numa qualquer zona profunda dos Estados Unidos, com bons atores e uma fotografia bastante competente, neste caso de Roger Deakins (um dos melhores do meio). Algo interessante neste filme é o ritmo da narrativa, que vai dos "0 aos 100"muito rapidamente, devido à oscilação existente entre as cenas calmas e nostálgicas do xerife Bell e as cenas de suspense e violência desencadeadas por Anton Chigurh. 

A propósito de Chigurh, Javier Bardem tem um desempenho extraordinário, criando um vilão que, apesar do cabelo à Beatriz Costa, é verdadeiramente aterrador e tão frio que chega a ser sobrehumano. Para mim um dos melhores(piores) vilões da história do cinema. Algumas das peculiaridades desta personagem são decidir o destino das vítimas através do arremesso de uma moeda ao ar (ver abaixo) e executar as mesmas recorrendo a uma garrafa de gás comprimido.


Fun Fact: Quando Joel Coen e Ethan Coen abordaram Javier Bardem sobre o papel de Chigurh, ele disse: "Eu não conduzo, falo mal inglês e odeio violência". Os Coens responderam: "É por isso que te ligamos." Bardem disse que aceitou o papel porque tinha o sonho de participar num filme dos irmãos Coen.


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