Metrópolis (1927)
Continuando a
exploração no arquivo arqueológico das obras mais emblemáticas do cinema mudo que
nem um Indiana Jones cinéfilo, resolvi esta semana pegar num dos filmes mais
relevantes dessa era e, à data da sua estreia, num dos mais dispendiosos do
cinema europeu. Considerado unanimemente um dos expoentes máximos do expressionismo alemão
e uma verdadeira obra-prima, falo pois claro de Metropolis (1927) - filme de
ficção científica realizado por Fritz Lang. Além de Metropolis, Lang realizou o
extraordinário: “M - Eine Stadt sucht einen Mörder”, apesar de grande parte dos
leitores deste blogue entenderem perfeitamente o alemão, o título em inglês é “Murderers
Among Us” e em Português é simplesmente “Matou” (realmente somos um povo
simples).
Voltando a Metropolis, a história decorre em 2026, sensivelmente 100 anos depois da estreia do filme, numa cidade com traços arquitectónicos similares a Nova Iorque (Metropolis), governada pelo industrial Joh Fredersen, que vive num alto arranha-céu. Este controla todas as máquinas que fornecem energia à cidade a partir das suas fundações subterrâneas. Estas máquinas são operadas por operários (viva a repetição) que trabalham duramente durante (bis) longas jornadas e vivem em condições precárias.
Freder filho de Joh, que não faz mais nada da vida a não ser divertir-se, é atraído por Maria para as fundações, onde assiste a um terrível
acidente que vitimiza e fere uma série de operários. Freder fica sensibilizado com as
dificuldades deste povo marginalizado e tenta chegar à fala com seu pai que
pouco liga aos apelos do filho. Face à indiferença e encantado por Maria, decide integrar-se
na comunidade operária para perceber as suas dores. Com uma aura
de entidade divina, Maria profetiza a chegada de um Mediador (o Coração) que terá
um papel fundamental no melhorar de relações entre a Patrão (a Cabeça) e os Trabalhadores (as
mãos). Esse mediador será Freder?
E onde entra a ficção científica aqui? Basicamente, a mãe de Freder morreu quando o deu à luz, e um cientista louco que era completamente apaixonado por ela, Rotwang, construiu uma espécie de Frankenstein metálico, cujo objectivo era devolver a vida à sua amada. Não vou revelar se o conseguiu, vejam o filme ;).
A narrativa, assente no binómio patrão, proletariado, é interessante apesar de simplista. Reflecte os
avanços ao nível dos direitos dos trabalhadores que se registaram naquele tempo
e simultaneamente, a crescente importância das máquinas no contexto industrial. No
entanto, a narrativa paralela que envolve ficção científica, é completamente
seminal e sem dúvida foi uma influência para muitos filmes do género que se lhe
seguiram. Independentemente destas narrativas, ao espectador é oferecida uma bela
aventura, que entretém durante as duas horas de duração do filme.
Visualmente, independentemente da altura em que foi feito, o filme ainda é deslumbrante. Nomeadamente, os efeitos das máquinas das fundações são interessantes, bem como as detalhadas maquetas usadas para dar vida à grande metrópole, onde se vêm aviões, pontes aéreas e edifícios futuristas. Nota ainda de destaque para a enigmática espécie de Frankenstein arraçado de Robocop, criado para dar vida à defunta mãe de Freder. As técnicas e efeitos utilizados neste são consideradas verdadeiramente revolucionários.
Um aspecto curioso
relativo à caracterização dos actores é a utilização de uma exagerada
maquilhagem. Essencialmente, faces aclaradas e batom nos lábios com o objectivo
evidente de realçar as expressões, algo importante num filme mudo.
Eis o trailer:
Fun Fact: Para desespero de Fritz
Lang, Adolf Hitler e Joseph Goebbels eram grandes fãs do filme. Goebbels
encontrou-se com Lang e disse-lhe que ele poderia ser nomeado ariano honorário,
apesar de sua origem judaica. Goebbels disse a ele "Sr. Lang, nós decidimos
quem é judeu e quem não é." Lang partiu para Paris naquela mesma noite.

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