domingo, 14 de junho de 2020

Ciclos - Stanley Kubrick - Dr. Strangelove

3ª Feira - Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb (1964)


Dr. Strangelove, além de ser um filme com um dos maiores títulos da história do cinema, é uma das melhores sátiras sobre guerra-fria. Baseado no livro "Red Alert" de Peter George, esta obra de Kubrick consegue retratar a tensão que se viveu neste período da história (entre o fim da 2ª Guerra Mundial e a queda do muro de Berlim), nomeadamente a ameaça de um conflito nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética, utilizando humor inteligente para o fazer. Fica patente o equilíbrio de forças que vigorava entre estes dois blocos e a sensação de que se houvesse uma primeira agressão directa, tal tornaria inevitável uma guerra nuclear à escala global com efeitos nefastos para toda a humanidade. Na minha opinião, podia e devia ser promovido o seu visionamento e análise nas aulas de história. Julgo que seria uma forma eficaz de aumentar o interesse dos alunos sobre este tipo de matérias e talvez uma boa forma de demonstrar que o humor, por vezes, é a melhor maneira de abordar os assuntos mais delicados. 

Relativamente ao roteiro do filme, começa a desenvolver-se a partir de uma ordem de bombardeamento nuclear a bases militares em território russo, por parte do paranoico General Americano, Ripper (Sterling Hayden) - que acredita que a Rússia irá fazer um ataque químico contra os EUA, por isso pretende antecipar-se. Uma ordem aparentemente sem retorno, visto que a única pessoa que sabe o código para cancelar o ataque é o próprio general Ripper, que se encontra barricado numa base da força aérea americana. A única esperança para obter o código e assim evitar o ataque, é seu colaborador Capitão Lionel Mandrake (Peter Sellers) - um oficial da RAF que se encontra também nessa base e a única pessoa capaz de aceder a Ripper. 

Entretanto é convocada uma reunião de emergência na sala de guerra do Pentágono, onde membros de altas patentes militares americanas, o Presidente dos Estados Unidos (Peter Sellers) e o embaixador Russo (Peter Bull) tentam perceber se é possível evitar o ataque que, a acontecer, desencadearia uma resposta automática e inexorável da defesa russa, apelidada de Doomsday Device. Segundo o embaixador russo, o Doomsday Device uma vez accionado não pode ser mais parado, e poderá provocar um acidente nuclear cujos efeitos radioativos se fariam sentir por 100 anos na terra, ou seja, seria o apocalipse (ou o fim do mundo em cuecas). 

Na reunião e numa fase em que o desastre parece inevitável, é consultado Dr. Strangelove (Peter Sellers). Trata-se de um ex-nazi (ou não) especialista em assuntos nucleares que, aventa a hipótese no caso de ativação do Doomsday Device, da humanidade se poder refugiar no subsolo. No entanto e não sendo possível salvar a totalidade da raça humana,  Dr. Strangelove apresenta critérios que, no seu entender, ajudariam a purgar a humanidade dos mais fracos (hum, planos antigos?).

Nota de destaque para Peter Sellers, que tem uma performance ao nível santíssima trindade, fazendo recair o seu espírito santo cómico, sobre três personagens completamente diferentes:

- o cauteloso (e talvez medricas) - Presidente dos Estados Unidos

- o audaz  - Capitão Lionel Mandrake


 - o louco e nazi - Dr. Strangelove

A sua versatilidade que o torna capaz de fazer várias personagens num só filme, já havia ficado patente em Lolita (ver post aqui). TOdavia, em Dr. Srangelove ainda consegue ser mais sublime. Reza a lenda que Sellers terá improvisado a maioria das suas falas neste filme.

Posto isto, recomendo vivamente o visionamento de Dr. Strangelove (são só 90 mins). Stanley Kubrick na sua única incursão na comédia, ousou fazer um filme sobre um assunto delicado à época, conseguindo criar algo verdadeiramente cómico sem ser pateta, satírico sem tomar facções e ao mesmo tempo instrutivo sem ser maçador. Curiosamente, o filme teve como consequência a alteração de políticas, para que eventos como os retratados não viessem a ocorrer na realidade. Termino desta vez com as cenas finais do filme, ao som de Vera Lynn - We'll meet again:


Fun Fact: Numa versão alternativa do filme, extraterrestres estariam a observar os acontecimentos a partir do espaço.

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