terça-feira, 2 de junho de 2020

Ciclos - Roman Polanski

Pol de Polaco, Pol de Polémico, Pol de Polanski. Roman Polanski nasceu em Paris em 1933, mas três anos mais tarde foi viver com os seus pais para a Polónia, a terra das suas origens. Entretanto, rebentou a segunda grande guerra em 1939 e a Polónia foi invadida pela Alemanha Nazi. A família de Polanski, dada a sua origem judaica, foi remetida para o gueto de Cracóvia. Mais tarde, os seus pais foram levados para campos de concentração, o pai para a Áustria e a mãe para Auschwitz. O pequeno Roman conseguiu escapar ao gueto tendo-se passado por católico, mas não conseguiu escapar a uma infância de maus tratos e de miséria.

Na sua juventude tornou-se actor e posteriormente viria a ingressar na escola de cinema de Lodz. Pouco depois começou a realizar curtas e em 1962 estreia a sua primeira longa - Faca na Água - tendo de imediato recebido uma nomeação para melhor filme estrangeiro (o primeiro polaco a consegui-lo). Vai então para França, onde continua a fazer filmes, alcançando a aclamação da crítica, nomeadamente com Repulsa (1965) e com Beco (1966). Pouco depois segue para o Estados Unidos, onde realizou Rosemary's Baby (1968).

No entanto em 1969, a sua mulher - a actriz Sharon Tate - iria ser brutalmente assassinada por membros da família Manson. Após este trágico acontecimento, o realizador refugiou-se na Europa, tendo apenas voltado em 1974 aos Estados Unidos para a realizar Chinatown.

Quando a sua carreira parecia estar a voltar a uma trajectória ascendente, Polanski foi preso por sodomizar uma miúda de 13 anos durante uma sessão fotográfica, tendo assumido a culpa (pelo menos em parte) dos factos ocorridos. Conseguiu escapar ao julgamento porque fugiu para França (tinha passaporte francês), onde não existe acordo de extradição com os EUA. 

A partir daqui a sua carreira parecia confinada (estou farto desta palavra...) a filmes de menos relevância. Até que em 2002, estreia O Pianista, um filme de enorme sucesso que valeu ao realizador um Óscar para melhor realizador, um Palma de Oiro, um Bafta e um Cesar. Recentemente estreou J'accuse, um filme com boa aceitação da crítica, mas envolto em polémica por causa do passado obscuro de Polanski. 

Na minha opinião, a principal qualidade de Polanski, enquanto realizador, julgo que seja a sua capacidade de manter o suspense no ponto certo. Concordo, assim, com Kim Catrall na entrevista que apresento abaixo (ver 1min30seg para a frente):



Antes de avançar para as minhas escolhas, apresento 3 fun facts (desta vez pouco fun) sobre o realizador:

1) Quando tinha 12 anos encontrou soldados nazis na floresta, que para praticarem tiro ao alvo, o obrigaram a segurar objetos.

2) O assassinato de Sharon Tate e a família Manson aparecem retratados no último filme de Quentin Tarantino, Once Upon a Time de Hollyood. 

3) Não regressa aos EUA desde 1978, devido ao caso de sodomia referido anteriormente. 

Segue a selecção de filmes, com especial foco nas décadas de 60 e 70, a era dourada do realizador.


2ª Feira - Repulsa (1965)

Para começar, Repulsa é um grande nome para um filme de terror (e também o nome de uma vilã dos Power Rangers, Rita Repulsa). Enquadrado na trilogia "dos apartamentos" de Polanski, Repulsa narra a história de Carol Ledoux (Catherine Denouve), uma jovem que trabalha num salão de beleza e que partilha um apartamento com a sua irmã Helen (Yvone Furneaux). Aos poucos vais ganhando aversão ao namorado da irmã (Ian Hendry), por sentir o seu espaço invadido.

A aversão transforma-se em paranóia, levando Carol a sentir repulsa não só pelo namorado da irmã mas pelos homens em geral. Polanski vai, através de elementos que criam desconforto  - toque de telefone de repente, sinos de igreja, som do tique-taque de um relógio durante a noite, a imagem de um coelho temperado (nunca mais como coelho) - misturando a realidade com a imaginação de Carol. Cada vez mais alheada da realidade, Carol começa a tornar-se cada vez mais antissocial e alheada de tudo o que a rodeia (torna-se num animal anti-social). 

Repulsa é um thriller psicológico que, através da mestria de Polanski (brilhantes planos com a câmara de mão)  e um extraordinário desempenho de Denouve, mantém o suspense em níveis elevados até ao final, mexendo com as entranhas mais profundas que temos. E o melhor elogio que lhe posso fazer é dizer: este filme fez-me sentir repulsa!



Fun Fact: Foi o primeiro filme britânico, cuja censura deixou passar uma cena em que se ouve um orgasmo. 
  
3ª Feira - Rosemary's Baby (1968)


Na linha de Repulsa, este é mais um filme de terror psicológico de Polanski, cuja maioria da acção decorre num apartamento. Neste caso, um jovem casal mudou-se para um apartamento com algum requinte em Nova Iorque. Ela - Rosemary, dona de casa (Mia Farrow), ele - Guy Woodhose, um actor (John Cassavetes) em busca de um novo sucesso. Os vizinhos aparentemente amorosos começam a apresentar comportamentos peculiares e a parecer demasiado intrometidos (quais não são), chegando a envolver-se na decisão do casal de ter um filho.


Depois de um pesadelo, em que Rosemary sente ter sido violada pelo Diabo, engravida. A partir daqui começa a sentir náuseas, alucinações e aos poucos  afasta-se do seu ciclo de amigos. Em contrapartida, Guy consegue um papel de bastante relevo. O filme segue nesta dicotomia entre o sucesso de Guy e a dor psicológica de Rosemary (Teremos aqui um alegoria ao papel da mulher no mundo do trabalho?). Os vizinhos estranhamente parecem ter planos para o bebé, mas que planos? 

É um filme perturbador, com elementos satânicos e que me fez suar em bica em algumas cenas (troquei de t-shirt 5 vezes e o lençol nessa noite também teve de ser trocado). Mia Farrow consegue transmitir-nos toda a dor de uma personagem que se sente desamparada, incapaz de confiar em alguém. Eis o trailer, que no fim declara: "Suggested to mature audiences":




Fun Fact: A cena em Mia Farrow comeu um fígado é verdadeira, apesar da actriz já ser vegetariana na altura da rodagem do filme



4ª Feira - O Inquilino (1976)

Como não há duas sem três, o inquilino é o terceiro filme de terror psicológico de Polanski cuja a ação decorre, quase na totalidade, num apartamento. 

O argumento gira em torno de Trelkovsky - personagem interpretada pelo próprio Polanski - um empregado de escritório, que aluga o quarto de uma mulher que se tentou suicidar, ficando às portas da morta, a egiptóloga Simone Choule. Apesar da renda baixa do apartamento, os habitantes do prédio são tudo menos hospitaleiros. Desde a Porteira pouco simpática, passando pelo senhorio austero, até aos vizinhos carrancudos, ninguém parece querer facilitar a vida ao novo inquilino. Finalmente, Simone Choule falece, no entanto e estranhamente, Trelkovsky começa paulatinamente a ser "possuído" da vida de Choule. Começa com os pequenos hábitos, como a fumar a mesma marca de tabaco de Choule, passando para coisas mais bizarras, como vestir as roupas da antiga inquilina. 

É um thriller perturbador que parece saído de um romance de Kafka. O filme obriga a um exercício permanente ao espectador: perceber onde termina a realidade e começa a paranóia. 

Finalizada esta trilogia, é possível afirmar que Polanski demonstrou que para fazer um bom filme de terror não são precisos seres aterradores ou litradas de sangue. Na verdade, a receita pode ser simples simples: apelar aos receios mais básicos e às pequenas perturbações mundanas e com isto despertar monstros em mentes frágeis, incapazes de resistir à pressão da sociedade. 



Fun Fact: Roman Polanski dobrou as suas partes na versão italiana do filme.


5ª Feira - Chinatown (1974)


Se me pedirem uma sugestão para um filme policial, com mistério e uma bela trama, Chinatown é a primeira opção que me vem à cabeça. É uma obra com um argumento de Robert Towne - ganhou um óscar com este filme e é também o argumentista de Missão impossível - muito bem delineado e com o suspense muito bem gerido pela mão de Polanski.

J. J. Guites (Jack Nicholson), um detetive privado, é contratado pela mulher de Hollis Murray, um importante engenheiro da companhia das águas da cidade de L.A., para investigar um suposto envolvimento do marido com uma amante. Todavia, Murray aparece morto pouco depois do início das investigações, que já haviam conseguido revelar a existência de outra mulher na sua vida. E a partir daqui a história segue à boleia do talento Faye Dunaway e Nicholson, que passa metade do filme com o nariz assim (ninguém lhe manda pôr o nariz onde não é chamado):



Não vou adiantar mais da história, para não fazer spoil. Mas garanto-vos que, apesar de ser a cores, Chinatown é um dos melhores filmes Noir da história do cinema.

Fun Fact: Jack Nicholson aparece em todas as cenas do filme.  

6ª Feira - The Pianist (2002)


Existem muitos filmes sobre a 2ª Guerra Mundial, mas nenhum, na minha opinião, que retrate tão bem a humilhação e a degradação da vida dos judeus na Polónia como o Pianista. À medida que o filme avança assistimos ao declínio da família Szpilman, uma família judaica da classe média, a partir do momento em que as tropas alemãs invadem o território polaco. Passam de uma vida confortável para um gueto, do gueto para campos de concentração, de campos de concentração para...bem...depende da sorte, mas na maioria das vezes a morte.


Esta obra é baseada numa autobiografia num sobrevivente do holacausto, Wladyslaw Szpilman (espero ter escrito bem) a personagem principal do filme, um pianista de sucesso numa estação de rádio, que ao longo do filme vai encontrando forma de, com audácia e com sorte, ir escapando ao destino da maior parte do seu povo naquele país, a morte. 

Adrien Brody desempenha brilhantemente o papel deste pianista (aprendeu a tocar piano para desempenhar o papel), nomeadamente a capacidade de retratar um homem que passou por enormes privações, nomeadamente a fome. Valeu-lhe, justamente, o óscar para melhor ator.

Por fim, Polanski, ele próprio um sobrevivente do Holocausto, pode utilizar toda a sua experiência de vida para oferecer realismo a esta obra intemporal sobre a desgraça e a vergonha humana. Engraçado notar o desvanecimento das cores do filme, à medida que a vida da cidade de Varsóvia se vai degradando. 




Fun Fact: Durante a rodagem do filme na Polónia, Polanski conheceu um homem que ajudou a família do próprio realizador a sobreviver ao holocausto. 

E assim se conclui esta pequena reflexão da carreira de Roman Polanski, um realizador genial ,marcado por acontecimentos trágicos e por um crime imperdoável. Esquecendo os defeitos do autor, a obra é sublime.

Quando um ciclo se encerra, outro principia e na próxima semana será visada a carreira do polémico realizador, Stanley Kubrick

Até mais ver!

P.S.: Sugestões de temas para próximos ciclos serão bem-vindas .

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