quinta-feira, 11 de junho de 2020

Ciclos - Stanley Kubrick - Lolita

2ª Feira - Lolita (1962)

Lolita é um nome que sempre me soou a proibido, até mesmo maldito, apesar de não conhecer nem a obra literária de Nobokov, nem tão pouco o filme de Kubrick até o ter visto ontem. Todas as referências que tinha da cultura popular indicavam-me que se tratava de uma obra carregada de erotismo e perversidade. Todavia e ao contrário do que estava à espera, constatei que essa carga existe, mas não de uma forma explícita, materializada em cenas escaldantes entre uma menor e um homem de meia idade, mas antes de uma forma completamente subliminar, deixando a imaginação do espectador conceber os moldes íntimos desta relação nada ortodoxa. 


A narrativa desta obra desenvolve-se em torno de Humbert Humbert (James Mason), um professor europeu de meia idade, que chega aos Estados Unidos para ensinar francês numa faculdade. Antes de começar a leccionar, resolve aproveitar para tirar umas férias na cidade balnear de Ramsdale. Fica alojado na casa de Charlotte Haze (Shelley Winters), uma viúva que vive com a sua filha de 14 anos, Lolita. A escolha do alojamento teve por base, o encanto fulminante que Humbert teve por uma Lolita (Sue Lyon) de fato de banho no jardim e com uns óculos em forma de coração (ver cartaz acima), no momento em que a mãe lhe mostrava a casa. Apesar de passado pouco tempo, ter iniciado uma relação conjugal com Charlotte, a sua paixão era Lolita. Ao longo do filme, uma personagem misteriosa vai inquietando a alma de Humbert - Clare Quilty (Peter Sellers) um argumentista de programas de TV, ficando no ar a ideia que poderá saber da paixão de Humbert e Lolita. Mas qual será o seu papel nesta trama?

Nobokov além de ter escrito o romance, colaborou com Kubrick no argumento deste filme de 1962. Todavia, existem diferenças consideráveis entre o filme e o livro, devido a adaptações que Kubrick fez com receio da censura da época, sendo as principais as seguintes (Wikipedia):

- Lolita no livro tem apenas 12 anos, enquanto no filme Sue Lyndon tinha 14.
- Todas as passagens de sexo explícito retratadas no livro não foram utilizadas no filme, ficando apenas subentendido que aconteciam. 
- O nome Lolita no livro apenas é utilizado por Humbert, como o seu apelido privado. Enquanto no filme a maioria das personagens utiliza o nome Lolita. 
- A persongem de Humbert no filme é retratada de uma forma quase simpática, no livro a sua personagem é a de uma pessoa completamente desequilibrada mentalmente, com uma tara sexual por meninas mais jovens, capaz de acções brutais.
- A personagem de Quilty apenas tem relevo mais para o final do livro, enquanto no filme tem uma forte presença desde o início. 

Não sendo o filme mais conhecido de Kubrick, Lolita é uma das suas obras mais interessantes e complexas. O realizador conseguiu, na minha opinião, providenciar uma história capaz de provocar sentimentos ambíguos, desde a empatia à completa repulsa por Humbert, com salpicos de humor à mistura. Consegue, de forma eficaz, prender o espectador  no drama psicológico das personagens do início ao fim.

O trabalho de todos os actores é brilhante: James Mason, o oscilante Prof. Humbert, Peter Sellers, o desconcertante Quilty, Sue Lyon a ingénua Lolita e Shelley Winters, a apaixonada Charlotte. Mereciam maior reconhecimento, mas a controvérsia e o conservadorismo da época não o permitiram.

Por fim, gostaria de destacar o momento em que Humbert conhece Lolita de óculos em forma de coração. Uma cena com uma aura única, que mistura inocência e depravação e,que, no fundo, poderá ser uma boa ilustração de todo o filme. 




Fun Fact: O filme acabaria por não ter qualquer corte da censura, apesar da sua classificação ter sido para "Maiores de 16 anos". Curiosamente, seria um filme que a própria Lolita não poderia ver. 


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