domingo, 21 de junho de 2020

Ciclos - Stanley Kubrick - A Clockwork Orange

4ª Feira - A Clockwork Orange (1971)




Já dizia a minha avó: Laranja de manhã é ouro, à tarde é prata e à noite mata! Um ditado que, apesar de ter alguma antiguidade, se pode aplicar a este filme. Uma vez que o seu visionamento a uma hora tardia, poderá matar umas boas horas de sono. 

A razão é simples - A Clockwork Orange - obra adaptada de um romance de Anthony Burgess, é a vários níveis doentio e complexo. Retrata uma realidade distópica algures no UK, em que o enredo se centra num bando de jovens liderados por Alex DeLarge (Malcom McDowell), que tem comportamentos violentos (ultra violentos, a expressão do filme) e execráveis sem sentir qualquer remorso. Espancamentos a mendigos, assaltos  violentos e violações são o pão nosso de cada noite. A sensação que fica é que estes jovens sentem um enorme prazer com a prática destes hediondos actos. 

Numa das cenas mais icónicas do filme, Alex num assalto, com o auxílio dos seus compinchas, espanca e viola uma mulher, enquanto obriga marido a assistir ao horror do acto, tudo isto enquanto assobia e canta o clássico, I'm Singing in a Rain. Kubrick pagou 10.000$ pelos direitos da música só para esta cena: 


Alex, apesar de ser um menino dos papás, que finge estar doente para não ir à escola, vive apenas para espancar, violar e ouvir Beethoven. Todavia, após traição dos seus companheiros, é condenado e preso por 40 anos. Para ser libertado de imediato aceita ser alvo de uma experiência científica que, alegadamente, corrigiria todo o seu desvio comportamental. No fundo, é sujeito a uma lavagem cerebral que envolve o visionamento de filmes violentos. O objectivo é simples, desenvolver nojo à prática de atrocidades. Na cena ilustrada abaixo, em que decorre uma sessão de visionamento, Alex declara: It's funny how the colors of the real world only seem really real when you watch them on a screen.




As temáticas desta obra são absolutamente claras. Primeiro a moralidade, ou melhor a imoralidade, sendo claro o objectivo do autor de traçar uma linha inequívoca que separe o bem e o mal. Segundo, e como resposta à imoralidade dos jovens, a Psicologia, utilizada pelo governo de forma totalitária através de técnicas agressivas (lavagens cerebrais), para corrigir comportamentos. No entanto, um arrependimento levado a cabo à força e de forma artificial, será eficaz na erradicação da causa raiz do comportamento desviante? Ou o verdadeiro arrependimento é aquele que, com o tempo, a consciência do próprio desenvolve? Fica a questão. 

Kubrick é um perfeccionista e se há filme em que essa característica parece evidente é este. Os cenários e o guarda-roupa são vanguardistas e coerentemente obscenos. A música de Beethoven distorcida por sintetizadores cria-nos a sensação de estar no amanhã (por vezes estranho). Aliás, ainda nos dias de hoje, os adereços deste filme gritam futurismo e parecem saídos de uma película de Tim Burton. 

Por fim, gostaria de destacar a presença de Portugal no filme, através de um magnífico exemplar de louça das Caldas (um sempre em pé), que aparece a dada altura: 


Fun Fact: O filme não esteve disponível para exibição pública no Reino Unido entre 1973 e 2000. Os clubes de vídeo britânicos ficaram tão inundados com pedidos de encomenda do filme, que alguns começaram a colocar cartazes que diziam: "Não, não temos A Clockwork Orange"

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