Após o primeiro post, resolvi orientar a rubrica "Filme da Semana" no sentido de fazer um post por semana, mas debaixo de um chapéu temático mensal. Ou seja, em cada mês haverá um tema - Janeiro será dedicado a filmes não falados em inglês. Depois do alemão, do coreano e do francês, esta semana a sugestão recai sobre um filme falado em espanhol.
The Skin I Live In (2011)
É a primeira vez que este cantinho blogosférico sobre cinema dedica um post sobre um filme do mais famoso cineasta da península ibérica, Pedro Almodóvar.
A carreira de Almodóvar atrás das câmaras começou nos anos 80 com Pepi, Luci, Bom (1980), obra identificada com a "movida" de Madrid. Apesar de não ser dos seus títulos mais conhecidos foi o preâmbulo de uma filmografia pautada pela liberdade sexual, irreverência, humor desconfortável, por temáticas que podem chocar as mentes mais conservadoras e pela apresentação de dilemas morais na cabeça dos espectadores. Ganhou notoriedade internacional com Women on the Verge of a Nervous Breakdown (1988), obra que mereceu a sua nomeação para um Oscar. No entanto, os seus maiores sucessos viriam na passagem do milénio: All about my mother (1999), Talk to Her (2002) e Volver (2006). Em 2019, estreou Pain and Glory, filme em jeito de autobiografia, sobre um realizador em declínio, suas origens e relações amorosas. É uma viagem aos sentimentos e dilemas do autor e revelador da génese de grande parte das orientações temáticas das suas obras.
Recentemente assisti a The Skin I Live In, filme cuja história se centra em Dr. Robert Ledgard, papel desempenhado por Antonio Banderas, colaborador habitual de Almodóvar. Robert é um médico que perdeu a sua mulher, vitima de um acidente de automóvel em que ficou com queimaduras profundas, e que, por essa razão, dedicou a sua carreira a tentar criar uma pele sintética, resistente a fogo, cortes e até com a capacidade de repelir insectos. Mas ao contrário do que afirma Robert à comunidade científica, as suas cobaias dos implantes desta pele não são ratos, mas antes, a enigmática Vera Cruz (Elena Anaya), mulher que vive aprisionada em sua casa e cuja origem é difusa. Sabe-se porém que Robert usou como base dos implantes de pele, as feições da sua mulher morta. Aos poucos vamos mergulhando no passado das personagens, numa espiral de revelações com tanto de surpreendente como de tenebroso...
Como ao longo da sua carreira, Almodóvar apresenta uma obra visualmente muito interessante, com aspectos cénicos verdadeiramente notáveis. Banderas e Anaya desempenham de forma competente os papeis centrais desta trama. E quanto à história, considero que tem falhas e aspectos que não ficam bem resolvidos, todavia, a sequência da narrativa está bem construída numa constante espiral de voltas e reviravoltas.
Não é um filme Disney, não é para todos os estômagos. É um filme negro, de terror, mas pouco convencional. Tem personagens com moral duvidosa, por exemplo, Robert é um homem apaixonado ou um cientista louco? Tem cenas verdadeiramente chocantes, de sexo e violência explícitas. No entanto, e apesar das falhas de argumento referidas anteriormente, achei-o envolvente e cativante.
Fun Fact: Depois dos primeiros dias de rodogem, Almodóvar teve de dizer a Banderas para abandonar os seus tiques de actor e abraçar o papel de uma forma mais reprimida, de forma a dar à personagem um tom menos tipicamente sociopático.

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