Lavagante (2025)
António-Pedro Vasconcelos foi uma
personalidade incontornável do cinema português. Não apenas pelas obras que
realizou — O Lugar do Morto (1984), Jaime (1999), Call Girl
(2007) ou Os Imortais (2003) — mas também pelo contributo que, ao longo
de décadas, procurou dar ao ecossistema cinematográfico nacional. Criou,
presidiu e dinamizou diversas associações culturais ligadas à sétima arte. Foi
colunista e crítico. Foi professor e um pedagogo de cinema. Respirava cinema e
era um talentoso contador de histórias. O seu legado, espero e acredito, jamais
será olvidado.
Lavagante foi, muito
provavelmente, o seu último grande projeto. Infelizmente, Vasconcelos não
chegou a concretizá-lo devido à sua morte em 2024. Todavia, Mário Barroso pegou
no seu argumento — inspirado no livro de José Cardoso Pires — e conseguiu
dar-lhe vida no grande ecrã.
Aspetos positivos:
- O retrato histórico e político que oferece ao
espetador, reforçado pela opção estética do preto e branco, que acentua o
tom melancólico de um Portugal preso à ditadura.
- O desempenho dos atores, com destaque para a
inesperada performance de Júlia Palha como femme fatale.
Aspetos negativos:
- Em alguns momentos, o ritmo revela-se demasiado
lento, com diálogos extensos que denunciam certa fidelidade excessiva à
vertente literária.
- O filme parece-me ter sofrido de alguma insuficiência
orçamental, o que limita sempre opções criativas. Infelizmente, é algo
muito comum no cinema nacional.
Em suma, Lavagante
parece-me uma digna homenagem à memória de António-Pedro Vasconcelos.
(*) Tinha ainda outra grande
virtude: era um adepto fervoroso do Sport Lisboa e Benfica. Alguns de vós
talvez considerem esta parte discutível…
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