domingo, 21 de dezembro de 2025

Advento 2025 - 21/24 - A Morte de Estaline (2017)

 A Morte de Estaline (2017)

A Morte de Estaline, de Armando Iannucci, é um retrato satírico extremamente bem conseguido do regime soviético, explorando várias das suas máculas, nomeadamente:

- O kissing assing (*) ao líder é o aspeto mais presente ao longo de todo o filme e é levado ao extremo, sobretudo pelos membros do seu governo. Esta atitude mantém-se mesmo após a sua morte.

- A censura constante, que gera um medo permanente de qualquer deslize verbal. No filme, chega-se ao ponto de filhos denunciarem os próprios pais.

- As purgas incessantes. No fundo, este sistema não tolerava oposição viva por muito tempo. Há uma cena particularmente hilariante em que decidem suspender as purgas e, na Sibéria, um pelotão está a executar prisioneiros. A ordem para parar chega por telefone, mesmo a meio da fila. A expressão do prisioneiro seguinte, que se salva por um triz, a olhar para o último que acabou de levar um tiro, é impagável.

- As conspirações. Se já existiam durante a vida de Estaline, após a sua morte intensificam-se ainda mais. Os vários membros do comité comportam-se como galos à luta por um poleiro. Contudo, tudo é feito pelas costas uns dos outros.

Apesar de o filme ter uma linha narrativa sólida, apresenta vários momentos que parecem sketches. Um exemplo memorável é quando uma orquestra é obrigada a repetir um concerto que já tinha terminado, apenas porque Estaline queria ouvir a gravação. Como metade do público já se tinha ido embora, foi necessário ir buscar pessoas à rua para evitar o eco na sala. O responsável do estúdio diz então: “tragam pessoas mais gordas, assim precisamos de menos”, ao que um músico da orquestra responde: “vão buscar a minha mulher, ela vale por cinco”.

Claro que o filme é uma caricatura, mas é perturbador constatar como várias democracias ocidentais começam, cada vez mais, a assemelhar-se a práticas típicas do regime soviético.

(*) Na nossa bela língua materna: lambe-botas em Portugal ou puxa-saco no Brasil.

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