No confina-confina e volta a confinar, resolvi fazer um género de calendário de advento com algumas sugestões cinematográficas até ao dia natal. A ideia é simples: 25 dias, 25 filmes.
Cidade de Deus (2002)
Com elevado reconhecimento mundial, Cidade de Deus é um dos filmes falado em Português mais populares de sempre.
Julgo que o seu sucesso se deve em grande medida à autenticidade das personagens, algumas delas interpretados por habitantes da Cidade de Deus, uma das favelas mais perigosas do Rio de Janeiro. Chama-lhe Cidade de Deus, mas é um inferno para quem lá vive.
O realizador Fernando Meirelles teve a arte de construir um enredo que amarra o espectador do início ao fim do filme. No centro da história e como narrador temos Buscapé (Alexandre Rodrigues), um rapaz da favela que acompanha os acontecimentos e sonha ser fotógrafo de jornal. Buscapé vai relatando a história da Cidade de Deus e das suas principais figuras - Buscapé, Dadinho/Zé Pequeno, Bené, Cabeleira, Cenoura, Mané Galinha, etc - recorrendo a flashbacks de episódios marcantes da favela entre os anos 60 e 80. A forma como Meirelles reparte as histórias por capítulos e por personagens lembra o estilo de Quentin Tarantino, por exemplo em Pulp Fiction e aguça-nos a curiosidade para saber o seu desfecho.
Assim de acordo com a forma como Buscapé vai contando a história, pode dividir-se o filme em 3 partes:
1º Parte (anos 60) - Por falta de planeamento e visão, os sem terra e refugiados vão se aglomerando na favela, lugar sem condições que vai agregando pobreza. O crime existe, mas os bandos ainda são amadores, uns vigaristazinhos de bairro.
2ª Parte (anos 70) - A favela cresce descontroladamente e a explosão do tráfico de droga transforma os bandidos locais em traficantes. Apesar de criminosos e de forma a garantir que os consumidores (meninos de "bem") se sintam seguros para ir comprar droga à favela, estes traficantes mantém alguma ordem.
3ª Parte (anos 80) - Através do dinheiro da venda de droga, os traficantes armam-se até aos dentes e com o objetivo de dominar o mercado, entram num conflito sangrento.
E a polícia? Além de subornada para nada fazer, ainda ganha o seu quinhão com a venda de armamento para os dois lados da barricada.
É um filme violento e brutal, que retrata o pior que existe de desumano no humano. As cenas mais impressionantes, para mim, são aquelas em que crianças que ainda não sabem ler nem escrever matam e roubam como se bebessem água. E um pensamento sobressaiu na minha mente quando acabei de rever o filme: o sítio onde nascemos condiciona sempre o caminho que seguimos. Recomendo vivamente.
Fun Fact: O papel de Mané Galinha é interpretado pelo famoso cantor Seu Jorge.


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